SÃO LUCAS No restauro, o Santo ficou... sem cabeça. A história foi revelada na semana passada pelo “Jornal do Centro”
Arte sacra em Portugal
Restauro polémico em igreja deixa santo sem cabeça
Um santo sem cabeça, fisionomias alteradas, objetos acrescentados, letras mudadas. Na Igreja de S. João Baptista, em Tondela, há um restauro polémico. Um professor de História fala de “falsificação artística e histórica”, pior que “aquele caso em Espanha”. O pároco garante que se salvou um património em ruína
TEXTO JOSÉ RICARDO FERREIRA, jornalista do “Jornal do Centro”, em serviço especial para o Expresso FOTOS Cortesia do Jornal do Centro
O que era para ter sido um restauro sem sobressaltos revelou-se uma “intervenção desastrosa” que “destruiu irreversivelmente” um dos tesouros da freguesia. A opinião é de um professor de História residente na freguesia de Vilar de Besteiros, no concelho de Tondela. Em causa está a obra de restauro feita no teto de caixotões existente na capela-mor da Igreja da localidade, integrada numa intervenção mais abrangente do templo religioso do século XVIII. Os trabalhos estão orçados em cerca de 32 mil euros e são apoiados por fundos comunitários.
Jorge Humberto Gomes considera que foi pior a emenda do que o soneto. “Foi uma falsificação artística e histórica. Muito mais grave do que aquele caso em Espanha”, defende.
O docente garante que dois terços das pinturas do teto “estão completamente diferentes”. O caso mais flagrante é o de S. Lucas. “Houve um santo em que a cabeça foi apagada. O padre, por razões pastorais, achou por bem eliminar a cabeça, porque não sabia identificar o santo”, afirma.
Veja os casos mais gritantes de mudanças no restauro de imagens À esquerda aparecem as imagens atuais, restauradas, e à direita como elas eram antes da intervenção polémica
Mas as críticas não ficam por aqui. O professor no Agrupamento Tomaz Ribeiro, em Tondela, sustenta ainda que a fisionomia de muitos santos foi alterada. Há casos em que foram acrescentados e/ou retirados objetos. Também a ortografia da época não foi respeitada. “Por exemplo, o nome Teresa estava escrito com a letra Z e foi substituído por um S, como se escreve atualmente”, refere.
Jorge Humberto Gomes lamenta que as obras não tenham sido devidamente acompanhadas pelo Departamento de Bens Culturais da Diocese de Viseu e espera que a intervenção ainda possa ser melhorada. “Acho que é uma questão de justiça para o futuro. Deixar o testemunho de como aquilo realmente era”, adianta.
Padre rejeita acusações
O pároco de Vilar de Besteiros contesta e nem entende as críticas feitas pelo professor de História. “Inicialmente até louvou o restauro da Igreja”, recorda.
Segundo o padre Sérgio Pinho, as pinturas do teto “estavam em elevado estado de degradação, ao ponto de, se não fossem intervencionadas, daqui a um ano ruiriam”. O sacerdote acrescenta que quando as telas foram retiradas para serem restauradas constatou-se que “havia muitos elementos externos às próprias pinturas (placas de zinco, papel, tela) que haviam adulterado o original do séc. XVIII”. “Também foi dado conta que tinham existido mais de dois restauros anteriores, que alteraram a fisionomia original das obras”, explica.
O pastor confirma ter solicitado a alteração da parte da cabeça de S. Lucas, “que tinha sido toda pintada em 1967 sobre chapa”. “Retirando a chapa nós não sabemos o que lá estava antes”, explica. Quanto às alterações ao nível da grafia, Sérgio Pinho não se pronuncia, mas admite que “um ou outro elemento não ficou igual”, justificando que “muitos painéis estavam com um elevado estado de deterioração”.
Apesar de tudo, o padre Sérgio Pinho ficou satisfeito com a intervenção: “Não houve qualquer destruição do património”, assegura.
Recuperação? Aqui fica um conjunto de imagens dos trabalhos de restauro na igreja
Bens Culturais da Diocese justificam obra
O Departamento de Bens Culturais da Diocese de Viseu também já se pronunciou sobre este caso. Em comunicado, afirma que o restauro do teto da Igreja Matriz de Vilar de Besteiros teve uma “complexidade acrescida”, devido à “degradação muito acentuada, com riscos iminentes de desmoronamento”.
O organismo esclarece que “todos os materiais utilizados na intervenção são os adequados à especificidade da obra e reversíveis”. E informa que depois de ter recebido “o relatório final e analisada a obra no local, foi realizada uma revisão técnica e solicitada à empresa responsável pela intervenção a correção de alguns pormenores ao nível das reintegrações por não estarem com o devido rigor”. Exemplo disso, é o nome Teresa, que foi corrigido e agora já se encontra na forma original com a letra Z. Uma explicação partilhada pela empresa que realizou os trabalhos de conservação e restauro.
Paroquianos apoiam intervenção
A população de Vilar de Besteiros não está a contestar as obras realizadas na Igreja de S. João Baptista. É pelo menos essa a garantia do Presidente da União das Freguesias de Vilar de Besteiros e Mosteiro de Fráguas, que ainda não ouviu ninguém a criticar os trabalhos. “Toda a gente diz que está tudo muito bem e que gostaram muito como aquilo ficou”, conta.
António Almeida é da mesma opinião. “Para mim acho que aquilo está bem. As pessoas que fizeram o restauro são credenciadas e segundo a Fábrica da Igreja cumpriram as normas do restauro corretamente”, sublinha.
Para o autarca, os técnicos envolvidos no restauro fizerem um verdadeiro “milagre”. “Quando eles desmontaram os caixotões, aquilo saiu tudo aos bocados e eu pensei que em alguns [painéis] não iam conseguir fazer nada, porque estava muito deteriorado”.
O Presidente da Câmara de Tondela também está acompanhar a situação. José António Jesus entende que possam existir algumas críticas, mas está “convencido que foi feito aquilo que os técnicos que acompanharam a obra entenderam ser o mais ajustado do ponto de vista de procedimento, das práticas correntes, da intervenção técnica e científica para salvaguardar o património”.
Restauros em Portugal sem um final feliz
TEXTO MARIA JOÃO BOURBON
EMPREITADAS A obra do padre António Moreira, na igreja de Santa Clara, em Beja, foi noticiada pelo Expresso a 8 de setembro de 2012
Santuário de Nossa Senhora das Preces, Oliveira do Hospital
O caso, de 2007, foi considerado pelos restauradores e conservadores como “mais grave do que o caso da Dona Cecília”, em Espanha. Desta vez, o trabalho era de um alegado profissional de restauro que, de acordo com a Associação Profissional de Conservadores-Restauradores de Portugal, desvirtuou por completo as várias obras de arte sacra no santuário de Nossa Senhora das Preces, em Aldeia das Dez, Oliveira do Hospital – violando as regras básicas de restauro e desrespeitando o caráter original do património. Neste episódio, o suposto profissional Miguel Vieira Duque e os seus alunos da Universidade Sénior de Coimbra terão recuperado 13 esculturas do século XIX, de Jesus e os seus apóstolos em tamanho natural, que recriam o episódio da Última Ceia. Os responsáveis, no entanto, revelaram-se satisfeitos com o resultado final, uma vez que – como os próprios afirmaram – estava “tudo estragado, com rachadelas, esculturas sem dedos e sem olhos”.
Igreja de Santa Clara, Beja
Eram seis pinturas murais que representavam episódios da vida de Santa Clara do Louredo, a óleo e têmpera, que foram transformados em pinturas banais de tinta plástica, muito difícil de retirar. As mais importantes referências da pintura alentejana tornaram-se assim desastres de uma intervenção artística de mais um octogenário, que se dizia pintor. A notícia foi avançada pelo Expresso a 8 de setembro de 2012. O alegado pintor, que já não via bem e não tinha grande mobilidade, vivia perto da igreja num lar de Boavista, no concelho de Beja, e foi requisitado pelo pároco António Moreira nos anos 80, empenhado em melhorar a interior da igreja. O padre – que era conhecido na região como “o empreiteiro de Deus”, empenhado em construir várias estruturas para idosos – reconheceria mesmo assim ao Expresso não perceber “nada disso do património”, deixando o Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja em alvoroço e proibindo o padre de realizar qualquer tipo de intervenção no futuro.