Opinião
João Vieira Pereira
A OCDE está louca?
Governo otimista, Banco de Portugal sobe previsões para o crescimento, e generalidade dos economistas com um leve sorriso no rosto. Então porque está a OCDE a ficar pessimista?
A ciência económica é perita em explicar o passado e um fracasso a antecipar o futuro. Mesmo assim grande parte do trabalho dos economistas é tentar perceber quais as tendências do crescimento. Por muito que falhem (e falham) insistem em prever os passos seguintes da economia.
A OCDE tem um indicador (CLI) que antecipa para onde vai a economia num espaço de 6 a 9 meses. Este junta várias estatísticas e inquéritos a agentes económicos para perceber se a atividade da economia vai estar acima ou abaixo do seu potencial de crescimento de longo prazo. O CLI é calculado mensalmente e valores abaixo de 100 indicam que a economia deverá crescer abaixo do normal no curto prazo. Ao antecipar tendências, este indicador está muitas vezes desfasado do que se observa na economia.
Agora, pela primeira vez desde o final de 2013, a OCDE estima que Portugal irá crescer abaixo do seu potencial algures para o final do ano. O mesmo é esperado para Espanha, enquanto Alemanha e zona euro continuam a apresentar valores positivos.
Como este arrefecimento é esperado apenas para o final do ano, tem pouco impacto no crescimento deste ano. Contudo, permite antecipar que a bomba relógio que está a ser montada na economia pode explodir a qualquer momento.
A procura interna continua a subir. E também o crédito ao consumo, que mês após mês apresenta variações positivas. Só em fevereiro as famílias pediram 318 milhões para gastarem em consumo (ao mesmo tempo que o crédito à habitação desacelerou).
Investimento privado anémico e investimento público em queda por opção política.
Exportações a subirem mas importações também (ao mesmo nível ou superior), o que deteriora a balança comercial, já muito deficitária (em fevereiro o seu défice aumentou 58 milhões face ao ano passado).
As boas notícias da evolução do emprego, que continua a subir mês após mês, não chegam ainda para nos alegrarmos com a taxa de desemprego.
Este crescimento é um logro. E não vai ser possível continuar a enganar a realidade por muito mais tempo.
Podem gritar aos ventos que está na hora do crescimento, mas sem uma aposta clara no investimento e nas condições para o desenvolvimento da iniciativa privada vão apenas colher tempestades.
Resultado: estamos a crescer pouco e estamos longe de conseguir lançar as bases para um forte crescimento no futuro. Pelo contrário, estamos a semear os mesmo erros do passado — crédito, e não rendimento, como suporte da procura, pouco investimento produtivo, elevadas importações em relação a exportações. Não consigo perceber por isso a festa que se faz sobre a evolução da economia portuguesa. Continuamos a cometer erros atrás de erros, beneficiando de fatores conjunturais para crescer uma miséria. Este crescimento é um logro. E não vai ser possível continuar a enganar a realidade por muito mais tempo.
Podem gritar aos ventos que está na hora do crescimento porque sem uma aposta clara no investimento e nas condições para o desenvolvimento da iniciativa privada vão apenas colher tempestades.
Um pequeno exemplo. A intervenção que se está a fazer no mercado de trabalho, tentando limitar o uso dos contratos a prazo, é um ataque gigante a alguns sectores de atividade como o dos serviços ou o do turismo. É difícil gostar da forma como o nosso mercado de trabalho está organizado mas criar um regime menos flexível é desajustado da realidade. Devíamos era estar a discutir o contrato único de trabalho — algo que a atual configuração política tornou impossível.
A OCDE está louca? Não, nós é que estamos desfasados do mundo que nos rodeia. Por opção.