Opinião
Amanhã
Henrique Monteirohmonteiro@expresso.impresa.pt

Chamem-me o que quiserem

Henrique Monteiro

Cavaco deve ter pressa

A maioria das pessoas que exaltam o dia ontem – mesmo os que o não fazem por razões políticas – cometem um vício comum de pensamento. Chama-se “transformar necessidades em virtudes”. A construção de um Governo de esquerda não foi ditada por nenhuma virtude resultante de uma aproximação real das partes ou por qualquer vitória de um bloco sobre outro. Isso seria assim caso o PS tivesse ganho e convidasse a sua esquerda para um acordo.

Esta amálgama é ditada, isso sim, apenas por uma necessidade dos partidos derrotados, nomeadamente o PS: não sentir a humilhação de voltarem a ser governados por uma coligação que, tendo vencido sem maioria, seria suposto perder por muitos.

O PS e António Costa não suportaram que a realidade contrariasse tudo o que o líder do PS andou a espalhar desde que se candidatou contra Seguro. O discurso de Luís Montenegro, ontem no Parlamento, recordou todas essas frases com uma fria maldade que ia enterrando mais e mais Costa na sua cadeira.

O PCP e o Bloco, apesar dos ganhos próprios, não podiam permitir a alternativa à frágil aliança que fizeram: o PS viabilizar um Governo da dupla a que quase todos eles, incluindo os socialistas mais radicais, chamavam todos os nomes. Na verdade, a coligação PSD/CDS ter ganho as eleições foi uma humilhação para toda a esquerda.

Basta lembrar que quem dissesse há um ano que esta coligação poderia ter mais um voto do que o PS era considerado louco. Eu escrevi várias vezes que o PS ganharia as eleições e só comecei a duvidar disso já na campanha ou perto dela. Ninguém esperava! E, como ninguém esperava, é absolutamente falso que o PS nos tenha preparado para a possibilidade de se aliar a PCP e Bloco. Costa falou disso apenas uma vez, e uma semana antes de 4 de outubro.

Esta parece-me a verdade. Saltar daqui para o momento exaltante é bonito, mas nada rigoroso.

Porém, todos nós temos de viver com o que há e aceitar o que há desde que seja legal do ponto de vista constitucional. E, mesmo que politicamente consideremos um golpe, ou uma manha ou o que for, nada a dizer, salvo “chapeau!” - eles têm menos vergonha do que se esperava.

As parcerias da esquerda são uma coisa presa por arames, já vários o disseram, e não vale a pena repetir. Deveriam chamar-se “parecerias”, porque apenas parecem. O facto de não haver um só, mas três, exemplifica essa fragilidade e o resto de intriga e de desconfiança que existe entre todos.

Mas, para o país, para o PSD e CDS e para a aliança de esquerda formada, o melhor é não estar com inúmeras considerações. Andar para a frente, porque é doravante que se verá o que vale esta solução. Como governa numa Europa e num mundo em crise? Como repõe tudo, sem tirar nada a ninguém, ou fingindo que tira aos ricos, para tirar à classe média? É agora que se vê o que é a CGTP? Quais as divergências entre PEV e PCP que tiveram direito a dois acordos separados? Qual e quanto será o espírito de sacrifício a que os deputados do PS vão ser sujeitos?

Cavaco deve acelerar. Se hoje ouviu Ferro Rodrigues e Passos, amanhã deve ouvir Costa. Os outros já sabe o que dirão. Não vale a pena pôr-se com grandes exigências. Vale sim a pena marcar o terreno do país, com o qual, aliás, Costa se comprometeu. Se sexta-feira ou segunda-feira Costa puder ser indigitado, tanto melhor para todos. Prolongar a crise e a angústia só leva à radicalização de ambas as partes.

E há uma hipótese adicional para Cavaco que o deve levar a ser rápido (embora sinceramente não acredite nela): se der já posse ao Governo pode ter ainda a ténue esperança de que a coligação de esquerda se zangue antes de 9 de março, dia em que o PR sai de Belém e vai para a vida civil.

Três meses ainda dá para muita discussão interna. E os ventos não são de molde a facilitar a vida ao PS.


Twitter: @Henrique Monteiro

Facebook: Henrique Monteiro

Amanhã

GASTRONOMIA

Faça uma pausa na dieta

As dietas dos portugueses podem ser suspensas a partir desta quinta-feira e até domingo, dia 15. É que o HUM!Burger, o primeiro festival de hamburguer gourmet em Portugal, chega à FIL, no Parque das Nações, em Lisboa. Não paga para entrar, mas fá-lo na banca de cada restaurante pelo hamburguer que escolher; apareça às 12h e fique tarde e noite dentro a ouvir a música dos dj encarregados de animar o festival.

TELEVISÃO

O mundo da droga na noite

O rapper 50 Cent chega às televisões portuguesas através da FOXLife nesta quinta-feira, com a série “Power”, da qual é produtor. “Power” segue a história de Ghost, o dono de um clube nova-iorquino que se mistura com as elites enquanto esconde a sua vida dupla como barão da droga. Para ver a partir das 23h10.

DANÇA

A arte do encontro

O desafio da coreógrafa Filipa Francisco no seu novo espetáculo, “Força”, é trabalhar com a Companhia Maior do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, composta por pessoas com mais de 60 anos. No entanto, para a coreógrafa, a força motora do espetáculo foi o encontro com as características particulares do grupo. O resultado da experiência pode ser visto pelas 21h; os bilhetes vão dos €12,5 aos €15.

EXPOSIÇÃO

EXD'15 divide-se por Porto, Matosinhos e Lisboa

A edição de 2015 da Experimenta Design, que se define como uma “plataforma de pensamento, pesquisa e divulgação independente”, começa esta quinta-feira, às 16h, na Câmara Municipal de Matosinhos, com a exposição Desejo, Tensão, Tradição - Percursos do Design Português. Todos os eventos da Experimenta, que decorrem em Lisboa, Porto e Matosinhos até este domingo, são gratuitos.