CULTURA

Passou pela vida como um furacão e partiu como um relâmpago

CULTURA Paulo Cunha e Silva impôs um ritmo alucinante e uma grande criatividade no modo de gerir a cultura de uma cidade FOTOS RUI DUARTE SILVA

CULTURA Paulo Cunha e Silva impôs um ritmo alucinante e uma grande criatividade no modo de gerir a cultura de uma cidade FOTOS RUI DUARTE SILVA

Paulo Cunha e Silva, vereador da cultura da Câmara Municipal do Porto, morre aos 53 anos, vítima de ataque cardíaco

TEXTO VALDEMAR CRUZ com ANA SOROMENHO FOTOS RUI DUARTE SILVA

Ontem à noite, minutos antes de iniciar uma viagem sem retorno, Paulo Cunha e Silva estava em Serralves. Era a abertura do ciclo dedicado à apresentação da integral da obra de Manoel de Oliveira e o vereador da cultura da Câmara do Porto fez questão de estar presente. Era o início de uma longa maratona dedicada à obra de um homem que muito admirava. Mas podia ser uma atividade numa obscura associação de um bairro social, a abertura de um colóquio com personalidades internacionais, o debate com gente das ciências, o encontro com dinamizadores da cultura popular.

Fosse onde fosse, Paulo estava lá. Fazia questão de estar. Parecia multiplicar-se num permanente rodopio à volta de uma paixão. Corria. Corria sempre. Corria muito. Não parava. Estava sempre à procura de mais um espaço, mais uma réstia de tempo para falar com alguém, para receber alguém, para partilhar mundos com alguém.

Ontem, ao fim da noite, no final de um jantar, tudo se desintegrou e, não o Porto, mas o país, perdeu um homem singular, de uma inteligência invulgar, com uma visão da cultura como um espaço total onde cabem os mundos todos. Vítima de um enfarte do miocárdio, desapareceu o homem feito de disponibilidade para acolher as interrogações contidas em tudo quanto é novo e diferente.

Nascido no Alentejo por mero acidente, resultante dos percursos do pai enquanto juiz, passou a juventude em Braga, onde os pais se fixaram, mesmo depois de o pai ter passado para o Tribunal da Relação do Porto ou para o Supremo Tribunal de Justiça em Lisboa. Com uma mãe professora, Paulo, que começara ainda na adolescência a escrever crítica de arte num jornal de Braga, ruma ao Porto para cursar medicina. Não era uma paixão. Não era uma vontade absoluta. Aluno brilhante, aquele era o curso que teria de ser feito por quem tão boas notas tinha, mesmo se depois pudesse aventurar-se por outros caminhos.

Foi o que fez toda a vida. Licenciou-se em Medicina, tornou-se Mestre e Doutor pela Universidade do Porto, onde foi professor de Anatomia, e era agora professor associado de Pensamento Contemporâneo na faculdade de Desporto da Universidade do Porto.

Aí estão duas palavras que o definem: “pensamento” e “contemporâneo”. Pode dizer-se que passa por aí o essencial do seu percurso desde que, aos 28 anos, começou a organizar conferências em Serralves, à época olhadas com circunspeção e até algum distanciamento.

Como nos dizia hoje Luís Braga da Cruz, presidente da Fundação de Serralves, já então, há mais de vinte anos, “fazia as coisas com uma rara capacidade de juntar à volta de uma mesma temática pessoas das mais diversas origens”, o que proporcionava discussões invulgares.

Um dos seus últimos grandes projetos passava pelo Fórum do Futuro. Em apenas duas edições, a iniciativa conseguiu uma importante visibilidade nacional e internacional, desde logo, e de novo, por essa rara capacidade do vereador para convocar os mais diversos saberes, os mais diferentes especialistas, e confrontá-los com a necessidade de debater os temas a partir de perspetivas nada ortodoxas. A segunda edição terminou no domingo à noite. Durante vários dias discutiu-se a felicidade e Paulo, naquela noite, era um homem visivelmente feliz.

Também pelo sucesso individual inerente a estas iniciativas. Essa era uma das facetas à qual muitos se agarravam para por vezes minimizar o trabalho feito. Cunha e Silva era protagonista, gostava de ser protagonista e não escondia a vontade de assumir o protagonismo. A diferença está no detalhe. E o detalhe é que, em boa verdade, Paulo Cunha e Silva não precisava de protagonismo para nada, porque, como sublinha Eduardo Souto de Moura, “transformou o Porto numa espécie de capital da cultura permanente e sem dinheiro”. A marca distintiva passa ainda por outra constatação, assinala o arquiteto: “há muita gente a fazer muitas coisas, mas sem graça nenhuma, ao contrário de Paulo Cunha e Silva, que punha uma grande qualidade nas suas iniciativas, reabriu equipamentos que estavam fechados, como o Rivoli, reabilitou outros - e tudo com poucos meios”.

Um dos principais responsáveis pela programação da Porto 2001 capital europeia da cultura, Paulo foi também um elemento importante em Guimarães capital europeia da cultura. Presidente do Instituto das Artes do Ministério da Cultura, foi ainda conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em Roma e fora há menos de um mês distinguido pelo Governo francês com o título de Cavaleiro das Letras. A capital italiana foi onde melhor o conheceu António Mega Ferreira. Ali teve oportunidade de observar “o trabalhador extraordinário que era” e logo ali percebeu estar perante um grande fazedor.

A sua escolha para vereador da cultura por Rui Moreira, após as últimas eleições autárquicas, foi um sinal para um tempo de mudança e para uma necessidade de um absoluto virar de página. Por isso mesmo o escritor Mário Cláudio diz ser a sua morte “uma tragédia para a cidade e para o país, numa altura em que havia toda uma brilhante programação em curso, como o Porto nunca teve”.

Cláudio diz que Cunha e Silva, de quem era amigo de longa data, “foi um homem que se imolou. Imolou-se à cidade, às suas ideais, às suas grandes paixões, às suas grandes causas”. De alguma forma cultivava o risco e Cláudio assegura várias vezes lhe ter chamado a atenção, “porque quando se corre assim para o futuro, perde-se o presente e não se chega ao futuro”.

O homem que desde muito novo adorava viajar, para quem o mundo era afinal uma aldeia, partiu, mas deixa o rasto de, acentua Mário Cláudio, alguém “extremamente inteligente, invulgarmente culto, extraordinariamente imaginativo, empenhado numa espécie de devoração dos dias e da vida”.

Fazia tudo com o ritmo e a velocidade de quem suspeitava poder vir a morrer cedo. Ainda no passado domingo, Ana Matos Fernandes, a artista conhecida como Capicua, lhe rogava que não abandonasse o Porto para eventualmente ir para ministro da cultura. Essa é a questão colocada por Pedro Abrunhosa, mas a partir de um outro ângulo, quando o vê como um ministeriável e diz que “um político que em dois anos deixa uma marca destas na cidade, é alguém que teria algo de muito importante a fazer como político”.

Conseguiu “agitar a cidade como nunca tínhamos visto, e provou que mesmo em condições difíceis é possível fazer cultura de uma forma criativa, desempoeirada”, constata Capicua. É possível, prossegue, “criar identidade e cultura com base na massa crítica da cidade”. Triste por ver alguém que ”partiu cedo de mais”, Ana recorda o projeto OPA, integrado no tema Culturas em Expansão, que a levou a uma residência artística no bairro do Cerco. Paulo assistia a ensaios, aparecia e conquistava facilmente amizades. Não por acaso, revela, ”hoje os miúdos do cerco têm estado a partilhar a notícia da morte do Paulo”.

Abrunhosa, que teve com Paulo “alguns embates teóricos durante a Porto 2001”, realça o facto de o até agora vereador ter a noção de que “a cultura pode mudar o mundo, a cidade, a rua, as pessoas", no sentido em que a vê “como um fator de qualidade de vida”. Essa uma das razões porque marcou a diferença “de uma forma tão evidente, uma vez que é tão esmagadora a criatividade, a capacidade visionária” plasmada num Porto que pulula de atividades. Como diz o cantor, “passou-se de uma total inépcia, arrogância e ignorância, para a cultura do saber e do pensamento. Não há ponte possível com o passado”.

Amanhã ao início da tarde Guta Moura Guedes, diretora da Experimenta Design, iria encontrar-se com o vereador para, em conjunto, procederem à inauguração da edição deste ano do certame. Há muitos anos amiga de Paulo, Guta estava esta manhã em estado de choque. Atribui-lhe “uma dinâmica incrível, da qual beneficiava não só o Porto, porque o que fazia no Porto repercutia-se no país e no estrangeiro”.

Tal como Souto Moura, também Guta lhe reconhece uma inteligência superior e refere o facto de ser alguém que se destacava “a qualquer contacto que se tivesse com ele, fosse onde fosse. Com uma energia inacreditável, manifestava essa inteligência de forma incrível”. Aquilo a que se estava a assistir no Porto, assegura, não se recorda “de assistir em qualquer outro sítio de Portugal”. Poderá passar por aí uma das razões para Catarina Vaz Pinto classificar como “notável” o trabalho feito por Cunha e Silva, ao ponto de a marca mais forte desse protagonismo ter sido “o diálogo interdisciplinar que conseguiu promover entre a comunidade artística e o público. Tudo isto só foi possível conseguir num tão curto espaço de tempo pelo olhar que teve sobre esta cidade e a forma como foi capaz de a pensar”.

Surpresa. Numa palavra só, Manuel Casimiro, pintor, filho de Manoel de Oliveira, resume o estado em que ficou ao conhecer a notícia. Ontem à noite vira Paulo apresentar a obra de seu pai. Vira-o dizer que não adianta andar a fazer muitas homenagens ou a dar mais nomes de ruas ao mestre. O importante, sublinhou, é mostrar a sua obra. Era uma pessoa de velocidades, “que andava sempre a mil à hora”, diz Casimiro. “Pelo trabalho que iniciou na Câmara do Porto terá sido o melhor vereador da cultura que alguma vez houve, independentemente de nem sempre estar de acordo com as suas iniciativas”.

Nuno Carinhas, diretor do Teatro Nacional de São João, chama a atenção para a mais cruel das ironias: Paulo Cunha e Silva morre dois dias depois de concluído o Fórum da Felicidade. “Convocou o mundo para a cidade e ajudou a cidade a projetar-se internacionalmente”, ao ponto de, defende o crítico de arte Bernardo Pinto de Almeida, hoje não haver “qualquer diferença entre viver no Porto ou nas capitais europeias”.

Irrequieto, agitador cultural, como diz Valente de Oliveira, presidente do Conselho de Administração da Casa da Música, Paulo Cunha e Silva fez com que, sustenta Rui Vieira Nery, a vereação da cultura se transformasse “num fenómeno e o Paulo o furacão capaz de por a plataforma a girar, transformando o Porto num polo de dinamismo na vida cultural portuguesa”. Não é por acaso, conclui, “que o prémio 2014 da SPA para a melhor programação cultural autárquica foi para ele”.

Viveu muito. Viveu intensamente. Para Mário Cláudio, Paulo Cunha e Silva “é como um relâmpago que ilumina muita coisa e é como um relâmpago que vai ficar”.

O corpo está em Câmara ardente no auditório principal do teatro Rivoli e o funeral realiza-se amanhã. O cortejo fúnebre sai às 14 horas do Rivoli em direção à igreja da Lapa, onde será realizada missa de corpo presente.