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Ricardo Costa

Opinião

Ricardo Costa

O futebol não é para magistrados

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Desde os anos 90 que esta questão se coloca: podem ou não os magistrados integrar os órgãos sociais de clubes? Na altura em que esta pergunta começou a ser feita era absolutamente comum ver juízes em cargos de primeira ordem de clubes. A paixão pelo clube e os direitos individuais passavam à frente de tudo o resto. Quando o “resto” eram problemas jurídicos, administrativos ou fiscais dos clubes – e esses problemas eram imensos – encolhia-se os ombros e seguia-se em frente porque as coisas eram mesmo assim, a Constituição falava mais alto e um clube do coração, bem, era isso mesmo, um clube do coração.

Passaram muitos anos e, pelos vistos, pouca coisa mudou. Ou melhor, o país mudou de alto a baixo mas os juízes, e também procuradores, continuam a achar que podem enxamear os órgãos sociais dos clubes. Pelos vistos não lhes interessa a reputação da profissão, o prejuízo que as suas ações privadas podem trazer à imagem da Justiça, as leituras de parcialidade que inevitavelmente surgem quando há casos em investigação sobre vários clubes, incluindo o seu. O que interessa é o seu amor pelo clube. Ok...

A lista vencedora de Frederico Varandas é um manual do que não se deve fazer nos dias de hoje. Há lá de tudo, como numa verdadeira farmácia jurídica. Incrivelmente, esse facto é usado pelo novo presidente como um exemplo de seriedade da candidatura

A lista vencedora de Frederico Varandas é um manual do que não se deve fazer nos dias de hoje. Há lá de tudo, como numa verdadeira farmácia jurídica. Incrivelmente, esse facto é usado pelo novo presidente como um exemplo de seriedade da candidatura. Pelos vistos ninguém naquelas bandas lhe explicou que o mesmo facto se pode virar ao contrário se algum processo que envolve o Sporting acelerar ou travar, bem como dos seus adversários.

Eu até percebo que para muitos sportinguistas a última época tenha sido traumática e propícia a apelos de participação e empenho. Mas convém que se lembrem que a última época não foi apenas a da deriva de Bruno de Carvalho e do ataque a Alcochete. Foi também uma época cheia de investigações judiciais, que acertaram em cheio no Benfica, mas a que o Sporting e outros clubes também não escaparam. Não perceber que isto se sobrepõe a quase tudo é não perceber... quase nada.

Vão arrepender-se depressa, tanto quem fez as listas como quem as integrou. Depois não se queixem da opinião pública nem dos jornalistas e, sobretudo, não se agarrem às vestes dos direitos individuais. Esses nunca estiveram em causa. Agarrem-se ao bom senso, caso ainda o encontrem entre cachecóis e camisolas do clube.