LIDERANÇA
Afinal, o segredo de Éder não é a Susana, é a Ritinha
FORÇA Susana Torres trabalha sozinha, lado a lado com jogadores e equipas de futebol. Muda comportamentos e focaliza emoções no que cada um pode controlar. Foi assim com Éder, hoje um amigo FOTO MIKE SERGEANT
Na hora da vitória, Éder não se esqueceu dela e disse que Portugal tinha de a conhecer. Falou numa Susana e aqui está ela. A mulher que o ajudou Éder, a deixar o passado para trás e a encontrar o caminho do sucesso. Ela diz presente sempre que ele precisa: ontem saiu às três da manhã do estádio, hoje foi buscá-lo no fim da marcha triunfal. É treinadora de mentalidades, muda comportamentos. Mas o encontro dos dois deve-se à Ritinha, personagem principal nesta história que ainda ninguém conhece
TEXTO CHRISTIANA MARTINS FOTO MIKE SERGEANT
Como a história acaba, nós já sabemos: com sorrisos, aplausos, festa e um golo salvador. O início é que era segredo. Até agora. Éder, o homem que chutou Portugal para lá das redes tinha problemas de afirmação, mas Susana Torres ensinou-lhe o caminho do sucesso. Ontem, na hora de comemorar, ele não se esqueceu dela e avisou que o portugueses deviam conhecê-la. Pequenina, loira, é a mulher por trás deste homem literalmente enorme. Mas até tudo começar, foi preciso um toque de fada, o toque da Rita e essa é a peça que faltava para se completar o puzzle.
“A história começa assim.” É desta forma, como se de um conto infantil se tratasse, que Susana Torres, mental coach ou treinadora de mentalidades, responsável pelo treinamento comportamental de Éder, começa a explicar o seu encontro com o jogador.
“Tinha o hábito de ver os jogos no camarote do Sporting de Braga e de ter acesso aos jogadores no fim das partidas e levava os meus filhos, tenho três, dois rapazes e uma rapariga. E a minha filha Rita, que na altura tinha três aninhos, no final de um jogo, ficou muito curiosa com o Éder, não só pela altura, mas pela cor, porque ela é muito loirinha e branquinha e ele causou-lhe muito impacto. O Éder pegou-lhe ao colo e ela sentiu-se uma rainha, muito acarinhada. Tirei uma fotografia aos dois e ele pediu para ficar com uma foto e eu mandei-lhe por email.”
Depois, foram dois anos sem quase se falarem, até que na semana entre o Natal e o ano Novo de 2012, Éder, mandou à Susana uma mensagem, perguntando pela Ritinha e se podia lhe oferecer uma camisola do Braga, com o número dele, o 17, e o nome dela nas costas. Susana disse que sim, sem acreditar muito que tal prenda se viesse a concretizar.
Uma semana depois, Éder mandou-lhe uma fotografia da camisola. Estava pronta. Afinal, o que ele dizia era para se acreditar. A família foi então ver um jogo do Braga e, no fim, a Ritinha recebeu a sua camisola. “Ficaram amigos para toda a vida.” A menina, que como diz a mãe, “é muito nariz empinado”, só não gostou do diminutivo, afinal, o nome dela não é Ritinha, é Rita, mas lá se conformou e até gostou da oferta. Estava aberto o caminho do golo contra a França.
Susana explicou o que fazia ao jogador, disse que era mental coach, e disponibilizou-se para ajudar alguém que ele conhecesse, sem custos, de forma a retribuir a delicadeza que ele tivera com a sua filha. E Éder quis mais informações sobre qual era exatamente o trabalho dela. Começaram a conversar e nunca mais pararam.
Controlar o que é controlável
Ela diz que não constrói a autoestima, que isso “é uma consequência do trabalho que faz com o atleta”. O que faz, na prática, é entrar em todos os cantos da vida do cliente e alterar-lhe comportamentos. E na forma deste olhar à volta. “Muitas vezes, quando algo nos impede de ter resultados positivos é porque não colocamos a atenção no que podemos controlar.” Era o que acontecia com Éder. Na altura em que começaram a trabalhar, conta, ele estaria preocupado com a relação com os adeptos, incomodado com o que falavam dele em Portugal. Foi preciso estabelecer objetivos profissionais e, feito isso, diz Susana Torres, “os resultados começaram a aparecer”. De tal forma aprendeu a lição de Susana que foi sozinho que Éder teve a ideia de usar uma luva branca sempre que comemorava um novo golo no Lille.
Susana conta que não ficou surpreendida com o agradecimento do jogador, no fim do jogo contra a França. “Trabalhamos o Europeu todo para aquele momento, eu sabia que seria assim como foi.” É muito clara: “Conheço muito bem o Éder e ele sabia que, quando entrasse, seria para decidir o jogo. Conforme os dias iam passando e ele não era utilizado, e nós sabíamos que poderia até nem vir a ser porque esta decisão é do Mister Fernando Santos e não depende de nós, mas sabíamos que controlávamos todo o processo caso ele entrasse, tanto que antes de entrar, ele avisou que iria fazer o golo e fez. E até acho que se tivesse entrado mais cedo, teria feito mais.” Não há aqui espaço para falsas modéstias, até porque seria perda de tempo e a onze minutos do fim do jogo, não há tempo a perder.
Ontem, ela estava no Estádio de France e, Susana explica, que para os planos dela, Éder deveria ter entrado mais cedo, para poder se adaptar melhor ao ritmo do jogo: “Muitas vezes, entrar tão no fim, pode não ser suficiente, para resolver o jogo, tão tarde, só com um milagre.”
O trabalho dela é feito diretamente com os jogadores e Susana até já trabalhou com duas equipas da primeira divisão do campeonato português. Viaja muito porque vai ter com os atletas, onde eles estão, alguns em Portugal, outros em França ou no Reino Unido. Diz que é apaixonada pelo que faz e que a missão dela é “transformar completamente a vida dos jogadores”. Porque “eles nem sempre percebem o enorme potencial que têm” e é ela que os ajuda a atingir as metas definidas.
Começou por mudar a própria vida e, depois, de 14 anos na banca, como subdiretora de uma agência, fez formação em programação neurolinguística (técnicas que definem a forma como comunicamos com os outros e connosco mesmos) e em liderança na Business School da Universidade Católica do Porto.
Sem dar tiros nos pés
“O Éder é um rapaz extremamente inteligente, surpreendeu-me muito, lê bastante, quem não o conhece, olhando para ele, não tem ideia da pessoa que está ali, com muitos bons princípios, é um grande observador, que só fala do que sabe e não fala dos outros, a não ser para falar bem”. Susana diz que o jogador pode ser um líder e conta que, no Lille, onde joga atualmente, “teve impacto na equipa, que estava para descer de divisão e acabou o campeonato no quinto lugar”.
De 15 em 15 dias Éder e Susana estão juntos. Ela vai ter com o ele. E já são amigos: “O nosso nível de compromisso profissional já fez dele parte da minha família”. Tanto que quando viaja para ir ter com o jogador, muitas vezes leva um dos filhos.
Quanto a Portugal, bem, tem muito a dizer: “Não sou coach da seleção, por enquanto, pelo menos, mas notei uma grande evolução no comportamento da seleção, uma maior maturidade de jogo para jogo, sobretudo na atitude do Cristiano Ronaldo, que deixou de ser só um grande jogador, para se transformar num verdadeiro capitão. Se ele trabalhasse comigo, seria onde teria mudado, mas ele fez isso sozinho.”
Aos adeptos, Susana deixa um conselho. “Costumo dizer ao Éder que o público e o país são um termómetro dos nosso resultados. Se temos sucesso, eles se apaixonam por nós, caso contrário, nos esquecem. Ele não foi o maior goleador do campeonato, mas fez o golo decisivo da final. E o público deveria de tirar uma lição do que aconteceu. Quando criticamos um atleta que está a defender o nosso país, mesmo que discordemos da decisão do treinador, deveríamos respeitar isso. Criticar o Éder é estar a dar tiros nos nossos pés, porque tirar energia à malta que nos vai levar à final é boicotar a situação desejada. As pessoas não sabem do impacto que têm.” Mas, mulher do norte, não treme quando fala: “Depois estou eu aqui para resolver a situação.”
Fernando Santos deu carta branca para que Susana e Éder se encontrassem e ela esteve várias vezes em França. E também não faltou à festa da conquista do título. Até segurou a taça. “Era uma oportunidade única, que não podia perder.”
Ah e a Ritinha? “Chorou quando o Éder falhou o cabeceamento e chorou quando ele marcou. Ela é completamente louca pelo Éder, que já lhe ligou porque não sabia se ela estava feliz ou assustada.”