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Henrique Raposo

A tempo e a desmodo

Henrique Raposo

O patriotismo marialva

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Em Portugal, a cobardia de políticos, intelectuais, comentadores e até de feministas em relação ao caso Ronaldo tem sido reveladora do país que somos, um país de amedrontados, um país de cínicos que usam as palavras como táticas de poder pessoal, Calma, não podemos melindrar o herói do povo!, Cuidado, vamos ser inundados de hatemail! É verdade que as radicais da inquisição internética acham que basta um tweet de uma mulher a dizer “ele violou” para que o homem em questão seja punido e banido. Mas agora descobrimos em Portugal o extremo oposto: uma sociedade inteira que recusa olhar para um caso bastante detalhado apresentado por uma das principais publicações europeias (“Der Spiegel”).

O caso Ronaldo-Mayorga revela que o patriotismo português só rasga as vestes na defesa do machismo e da noção de decência do marialva, Ela estava a pedi-las!

O caso Ronaldo-Mayorga revela que o patriotismo português só rasga as vestes na defesa do machismo e da noção de decência do marialva, Ela estava a pedi-las! Vamos lá ver se nos entendemos. Uma coisa é a presunção de inocência. Outra coisa, bem diferente, é o que temos visto. Do senhor da tasca ao Presidente, a atitude tem sido esta: não há presunção, mas sim certeza profunda na inocência do herói nacional. Pergunta-se, Mas leu o texto? Leu aquelas descrições e pormenores? A resposta é, Não me interessa, ela é uma puta, está a tentar roubar dinheiro ao rapaz! É este o nível moral da resposta patrioteira que anda por aí. É por isso tão chocante ver o Presidente e o primeiro-ministro neste jogo. O que a “Der Spiegel” mostra não é o caso “ela disse, ele disse”. Não. Mostra um caso bastante sério que tem de ser seguido com muito atenção. Não pode ser desqualificado como fake news ou mero aproveitamento da “galdéria”.

Mesmo que fosse "galdéria", o que ela diz tem de ser ouvido. E é estranho ver um país inteiro a tapar os ouvidos Foto D.R.

Mesmo que fosse "galdéria", o que ela diz tem de ser ouvido. E é estranho ver um país inteiro a tapar os ouvidos Foto D.R.

E o que dizer das alegadas feministas portuguesas? Onde é que elas estão? Quando é preciso bater em alvos distantes ou fáceis, elas aparecem. Quando o assunto é um herói nacional, já aparecem a dizer que é preciso ter cuidado e não sei quê. Passaram o último ano a queimar homens só porque alguém faz um tweet. Mas, agora, perante uma detalhada acusação, calam-se ou contextualizam. Eu percebo: receber hatemail em quantidades industriais não é simpático. É melhor rasgar as vestes em abstrato. Tudo somado, é preciso dizer: ainda não sabemos se o comportamento de Ronaldo foi ou não vergonhoso, mas já sabemos que o comportamento da sociedade portuguesa tem sido uma vergonha.