JAPÃO
Cinco anos à espera de regressar a Fukushima
DESERTA A região em redor de Fukushima é hoje terra de ninguém. Ali permanecem, apenas, os trabalhadores responsáveis pela limpeza das instalações nucleares FOTO DR
Sessenta mil japoneses vivem atualmente em alojamentos improvisados às portas da zona de exclusão. Foram impedidos de regressar a Fukushima, um lugar marcado por uma das maiores tragédias nucleares da História, devido ao elevado risco de contaminação radioativa. Como tantos outros desalojados, talvez nunca mais voltem
TEXTO CRISTINA POMBO
Ondas com mais de 10 metros de altura atingiam a central nuclear de Fukushima, minutos depois de um terramoto de magnitude 9 se ter feito sentir naquela região do norte do Japão. Pouco passava das três da tarde de dia 11 de março de 2011 quando os reatores de Fukushima foram atingidos por uma massa de água desgovernada, que apanhou todos de surpresa. O muro que devia ter travado a força da natureza de nada valeu, num dia que viria a marcar para sempre a vida de quem foi tocado pela tragédia.
Mais de 160 mil pessoas foram retiradas das suas casas num perímetro de 30 quilómetros, algumas realojadas por familiares, a maioria obrigada a dormir no chão de pavilhões ou recintos desportivos durante meses. Cinco anos depois do desastre, 100 mil pessoas continuam sem poder regressar. Muitas seguiram as suas vidas, mas perto de 60 mil ainda vivem em abrigos improvisados, nos limites da área de exclusão.
O impacto do tsunami sobre as instalações da central de Fukushima desencadeou, nas horas seguintes ao acidente, a tempestade perfeita no interior dos quatro reatores, que entraram em sobreaquecimento. Medições feitas num primeiro momento denunciaram fugas radioativas, seguidas de incêndios e explosões, e a desintegração total ou parcial dos edifícios onde se encontravam quatro dos seis reatores da central atómica.
Caos e gestão desesperada da tragédia
Quer as tentativas desesperadas para tentar estancar a dispersão dos materiais radioativos por parte da Tepco (companhia distribuidora de energia elétrica em Tóquio e arredores) quer a forma como o Governo geriu a crise foram, na altura, alvo das críticas de países vizinhos como a Coreia do Norte e a China.
CONTESTAÇÃO O Governo de Shinzo Abe foi muito criticado pela forma como geriu o desastre na central atómica de Fukushima FOTO TORU HANAI / REUTERS
Nas primeiras horas a seguir ao acidente, os responsáveis pela central descobriram que a água em circulação no reator 2 corria descontrolada por uma vala de escoamento diretamente para o oceano e com ela transportava um nível de radiação de 1000 mSv por hora (basta uma hora de exposição a estas doses de radioatividade para desenvolver doenças graves).
Quando, um mês mais tarde, foi possível estancar aquele vazamento de grandes dimensões, pequenas quantidades de água continuaram a desaguar no Pacífico. Tão ou mais grave, milhões de litros de água bombeados na tentativa de arrefecer o núcleo dos reatores foram-se infiltrando no solo durante os anos que se seguiram.
Várias zonas do Japão vão sofrer com esta contaminação durante pelo menos 300 anos, aponta o World Information Service on Energy (WISE), uma organização antinuclear fundada em 1978, sediada em Amesterdão. Muitas áreas vão permanecer desabitadas e os terrenos agrícolas interditados.
Radiação: o maior dos obstáculos
Ao contrário do desastre de há 30 anos na central nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, a catástrofe de Fukushima atingiu múltiplos reatores em simultâneo e a contaminação é ainda uma realidade. Passados cinco anos da tragédia que matou mais de 15 mil pessoas, a Tepco estima que a limpeza e recuperação das zonas atingidas não ficará concluída antes de 2050 (até ao momento foram cumpridos 10% dos trabalhos previstos).
DESTRUIÇÃO O tsunami provocou estragos incalculáveis mas o mais grave verificou-se na central de Fukushima FOTO KAZUHIRO NOGI / AFP / GETTY IMAGES
A maior parte das mortes foram diretamente relacionadas com o terramoto e o tsunami e não com a libertação de radiação, mas existem fortes receios de que no futuro possam surgir graves problemas de saúde em pessoas que estiveram (e ainda estão) expostas à radioatividade. É ainda incerto o impacto ambiental do desastre, mas a filial japonesa da Greenpeace afirmou num relatório terem sido descobertas elevadas concentrações de radiação em folhas e mutações em abetos e borboletas.
As elevadas doses de radiação presentes no “ground zero” de Fukushima continuam a impedir o acesso quer de pessoas, quer de robôs ao coração da central. A Tepco construiu autómatos capazes de deslocar-se debaixo de água e ultrapassar obstáculos, para tentar chegar às zonas contaminadas. Só que os aparelhos concebidos para encontrar barras de combustível nuclear que derreteram e ninguém sabe exatamente onde se encontram, perdem o contacto com a superfície quando chegam perto dos reatores, um problema que causa atrasos consideráveis, explicou à Reuters um responsável da Tepco. Para além disto, cada robô demora dois anos a ser construído.
A azáfama é grande entre os 8000 trabalhadores que, diariamente, removem resíduos e preparam o desmantelamento da central, ao mesmo tempo que constrem tanques para armazenar a água radioativa usada para arrefecer os reatores. Vários problemas se colocam nesta fase: o que fazer com os resíduos radioativos e com perto de um milhão de toneladas de água radioativa?
SEGURANÇA Trabalhadores protegem-se antes de aceder à zona de radiação em Fukushima. Cinco anos depois da tragédia prosseguem os trabalhos de descontaminação no interior da central atómica FOTO CHRISTOPHER FURLONG / GETTY IMAGES
Concluída está a construção da maior parede de gelo do mundo que tem por objetivo impedir que as águas contaminadas continuem a verter para o solo e a base dos reatores, travando assim a contaminação. A parede, concluída em fevereiro, deverá ainda garantir o processo de refrigeração dos reatores.
Reatores voltam a funcionar
No mês passado, três antigos responsáveis da Tepco foram acusados de negligência na fusão de três dos reatores atingidos pelo tsunami. Tratou-se da primeira vez que alguém foi responsabilizado pelo desastre nuclear de Fukushima. Os responsáveis deverão ser julgados dentro de seis meses e arriscam uma pena de cinco anos de prisão ou uma multa de um milhão de ienes (cerca de €8000).
A empresa Tepco – a quarta maior companhia elétrica do mundo - e o Governo japonês tentaram abafar, desde o primeiro dia, as suspeitas de negligência que sobre eles recaiam, escreve o World Socialist Website. Três anos antes, em 2008, um documento interno do gigante energético alertava para o risco de um tsunami com mais de 15 metros de altura poder atingir Fukushima. Apesar do alerta, nada foi feito para aumentar o muro de 10 metros que já existia, mas se revelou incapaz de conter a força das águas.
Cinco anos volvidos, a polémica sobre o uso de energia nuclear no Japão permanece. Em agosto passado - e após dois anos de inatividade total dos 44 reatores do país, encerrados na sequência do incidente em Fukushima – o Governo autorizou a reativação de um reator no sudoeste do Japão, indiferente à forte contestação das populações locais. Estudos de opinião indicam que a maioria dos japoneses são contra o uso deste tipo de energia.
Outros reatores viriam a ser reativados nesta e noutras centrais atómicas do país, em outubro de 2015, e em janeiro e fevereiro deste ano – um deles seria de novo encerrado depois de testes realizados indicarem novas fugas radioativas.