JUROS
BCE vai pagar aos bancos para concederem crédito. Euro afunda-se
CORTE Com a inflação novamente negativa, o presidente do BCE, Mario Draghi, está praticamente obrigado a voltar a carregar no acelerador FOTO REUTERS/YVES HERMAN
Banco Central Europeu anuncia quatro novas linhas de injeção de liquidez condicionada à concessão de crédito. Novas medidas fazem disparar ações europeias e o euro perde mais de 1% face ao dólar
TEXTO JOÃO SILVESTRE e ELISABETE TAVARES
O Banco Central Europeu (BCE) pode vir a pagar aos bancos que usem as novas linhas de liquidez a quatro anos – conhecidas como TLTRO − se estes atingirem um determinado montante de crédito à economia. Como explicou Mario Draghi, na conferência de imprensa que se seguiu à reunião do Conselho do BCE, esta quinta-feira, em Frankfurt, “os bancos pagam a taxa diretora no momento da operação e podem ter uma redução se aumentarem o crédito concedido”.
Esta redução, explicou Draghi, pode ir até ao valor da taxa de remuneração dos depósitos que vigorar em cada momento. Atualmente, com as descidas desta quinta-feira, a taxa diretora está em 0% e os depósitos são remunerados à taxa negativa de 0,4%. O que significa que os bancos que cumpram o critério de crédito receberiam, com as taxas atuais, 0,4% pela liquidez que recebessem do BCE. O objetivo é estimular a inflação e o crescimento económico.
Na prática, o banco central paga aos bancos pelo dinheiro que lhes empresta desde que estes concedam crédito à economia. Uma taxa de 0,4% representa 400 milhões de euros ao ano por cada 100 mil milhões de euros de liquidez cedida. “Estes TLTRO contribuirão para levar a inflação para um valor inferior mas próximo de 2% no médio prazo”, acrescentou Draghi.
Será uma nova ronda de TLTRO – operações de cedências de liquidez condicionadas – que ocorrerá numa base trimestral, a partir de junho de 2016. O montante dependerá do crédito concedido e terá uma duração de quatro anos.
BCE AJUDOU RENTABILIDADE DOS BANCOS
O vice-presidente do BCE, Vítor Constâncio, explicou ainda que este tipo de medidas tem como objetivo baixar toda a estrutura de taxas de juro na economia – a curva yield – e isso, por si só, ajuda a reforçar a situação dos bancos: “O facto de as taxas negativas baixarem toda a curva yield e isto significa que há ganhos de capital, porque o reverso é que o preço dos ativos sobe.”
Constâncio assegurou ainda que a política do BCE ajudou a melhorar as contas da banca no ano passado já que “o crescimento da economia foi superior ao que teria sido se não tivessem sido tomadas as medidas”e que isso permitiu uma redução das imparidades (perdas) dos bancos.
A aplicação de taxas de valor negativo na liquidez cedida terá também vantagens para os bancos em termos de rentabilidade, já que representa um menor custo de financiamento que está associado a um crédito que permitirá cobrar uma taxa de juro positiva, ainda que possa ser reduzida nas atuais condições de mercado.
BOLSAS DISPARAM E EURO AFUNDA-SE
As bolsas europeias dispararam esta tarde após o anúncio do BCE de mais medidas de estímulo, acima do esperado pelos investidores, incluindo o corte das três taxas de juro.
A taxa de juro principal desce cinco pontos base, para 0,00%, a taxa de facilidade permanente de cedência de liquidez cai cinco pontos base, para 0,25%, e a taxa de depósito recua 10 pontos base, para menos 0,4%.
Quanto ao programa mensal de compras de ativos, aumenta 20 mil milhões de euros - para 80 mil milhões de euros - a partir de abril, acima do esperado pelos analistas.
O índice FTSEurofirst 300 subia 2% (às 13h30) enquanto em Lisboa o PSI-20 acompanha a tendência com ganhos da mesma ordem.
Também as taxas de juro da dívida soberana dos países do euro reagiram, com as yields das obrigações do tesouro portuguesas a 10 anos a cair 19 pontos base, para 2,84%, mínimo de um mês. Já as taxas de juro da dívida soberana espanhola e italiana a 10 anos caiu para o mínimo desde abril de 2015.
O euro afundou-se face à moeda norte-americana, perdendo 1,32%, para 1,0852 dólares.
“É um pacote de medidas mais audacioso do que a maioria estava a a antecipar”, diz Jonathan Loynes, economista-chefe da Capital Economics para a Europa, numa análise à decisão do BCE. “Mas não há garantias de que a sua última ‘bazuca’ será mais eficaz do que as anteriores em assegurar um crescimento forte e sustentado, necessário para eliminar a ameaça de deflação na união monetária e permitir que os países periféricos resolvam os seus problemas de dívida”, adianta. E logo avisa: o BCE “não pode fazer milagres”.
Além do corte das taxas de juro e do aumento do montante de compras do seu programa, o BCE decidiu que passarão a ser elegíveis no âmbito do programa de compras obrigações de empresas não financeiras da zona euro, com grau de investimento de qualidade, denominadas em euros.