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Dia Mundial da Obesidade

Quando o preconceito é dos médicos: “Ele olhou para mim e disse: ‘Ai é? Então se você quer continuar uma vaca gorda, continue assim’”

Existem dois clássicos: no carnaval, o gordo é o palhaço e, quando chega dezembro, é o pai natal. E depois existem os factos: o gordo é um doente crónico e essa doença chama-se obesidade, mas a maior parte do tempo o gordo sente-se culpado por todos os quilos a mais que tem. O gordo é ainda vítima de preconceito dentro e fora do seu círculo familiar. E muitas vezes o estigma começa na própria equipa médica que é suposto ajudá-lo. Precisamente por isso, em 2018, o mote do Dia Mundial da Obesidade, assinalado esta quarta-feira, é “Eu trato com respeito”

Texto e fotos Joana Beleza

Clarisse Santos tinha acabado de ser mãe quando numa consulta de endocrinologia o médico lhe disse: “Ai é? Então se você quer continuar uma vaca gorda, continue assim”. Clarisse tinha acabado de lhe explicar que, com um bebé, mais uma filha pequena, mais um enteado, mais dois turnos por dia como enfermeira, não conseguia fazer os dois períodos de exercício diários que o médico lhe tinha pedido havia poucos meses. E portanto só tinha conseguido perder cinco ou seis quilos ao fazer uma caminhada por dia. E portanto, perante aquela resposta do médico endocrinologista, só podia ter uma atitude: “Peguei nas minhas coisas e saí. Nunca mais lá voltei. Foi a primeira vez que alguém me maltratou por eu ser como era”.

Clarisse era gorda. Muito gorda. Atingiu o peso máximo de 136 quilos e o estatuto de obesa mórbida depois de três gravidezes (uma delas muito complicada e mal-sucedida) e uma vida inteira com excesso de peso. “Aos nove anos já tinha o corpo de adulta. Era seguida por um pediatra e depois por endocrinologistas, porque a minha mãe tinha muita atenção. Levei a minha vida toda em dietas - emagrece, engorda, emagrece, engorda. Naquela altura, achava-se que se alguém era gordo era porque comia demasiado ou então tinha uma alteração hormonal. Como em mim não descobriam a alteração hormonal, só podia ser porque comia demasiado. Por isso, passei a minha vida toda em dietas, mas nunca emagreci muito.”

A Clarisse de agora a segurar a Clarisse de outrora

A Clarisse de agora a segurar a Clarisse de outrora

Em bom rigor, Clarisse sempre soube que tinha peso a mais mas nunca sentiu as limitações que normalmente se associam à obesidade (dificuldade de locomoção e respiratória, isolamento social, depressão, etc). “Sempre fui uma pessoa muito ágil. Embora tivesse excesso de peso, tinha todas as características de um líder: era uma miúda que não parava, trepava às árvores, andava de bicicleta, era um bocado maria-rapaz. Além disso, andei sempre metida em movimentos da Igreja, portanto não me sentia limitada, tinha os namorados… Só quando concorri a enfermagem é que fui confrontada com a obesidade.”

Ao concorrer para uma faculdade estatal, Clarisse passou em todos os testes exceto no exame físico. Tinha na altura 1,61metros e quase 80 quilos. “O médico achou que eu era obesa e que não podia ser enfermeira, por isso chumbei. Aí foi a primeira vez que me senti discriminada. Até porque eu questionei-o, havia lá uma enfermeira que nem metro e meio tinha e que não chegava a uma cama e ele respondeu-me: quem manda sou eu. E aí sim, senti-me discriminada”.

No ano seguinte concorreu para a privada e entrou. É enfermeira há 30 anos e hoje, quando passeia no centro de Moita, ninguém diria que já foi obesa mórbida.

Sobre o comportamento das equipas médicas (médico de família, nutricionistas, psicólogos, cirurgiões, etc) perante os obesos, Clarisse reconhece que “muitos continuam a achar que a pessoa é gorda porque quer ser gorda, porque come mal, não faz exercício e se fecha sobre si própria”. “Pode ser tudo isso mas não é só” e “o gordo tem de sentir que aquela pessoa [no consultório] está a ouvi-lo e não a discriminá-lo”.

Clarisse teve peso excessivo até 2005

Clarisse teve peso excessivo até 2005

Banda, bypass e sleeve: as três cirurgias que lhe mudaram a vida

Depois de muitas dietas, foi a banda gástrica, que colocou em 2005, que a ajudou a perder peso. Durante uns anos “foi ótimo”, perdeu peso com a alimentação controlada e bastante ginásio, mas em 2011 a banda gástrica deslocou-se e lesionou-lhe o esófago. Teve de a retirar e, por isso, de seguida fez um bypass gástrico, um tipo de cirurgia bariátrica que reduz o estômago e altera uma parte do intestino, levando a pessoa a comer menos e a perder peso.

O problema é que Clarisse perdeu peso mas também perdeu ferro, vitamina B, zinco, ácido fólico, sais minerais e mais tarde as proteínas. Na altura, não existiam suplementos específicos para quem fazia esta cirurgia e, por isso, Clarisse voltou à mesa de operações para que o médico que lhe tinha feito o bypass tentasse pela primeira vez na vida fazer uma reversão do bypass para o sleeve gástrico, uma operação de redução do estômago que o transforma num tubo estreito sem necessidade de mexer nos intestinos (como o bypass).

“Correu muito bem. De 2014 até agora perdi peso, vim até aos 70kg e mantenho. Foi a altura da minha vida em que perdi mais peso. Pouco a pouco entraram suplementos adaptados aos obesos, por volta de 2013. Após o sleeve, fiz um ano de fisioterapia, entrei no ginásio - que faço até hoje - e, entretanto, fiz duas cirurgias estéticas: pernas e abdómen. Em breve farei aos braços e depois ao peito.”

Clarisse tem hoje 56 anos e considera que a fase mais difícil da sua vida foi a da reconstrução do corpo e não a dos anos enquanto obesa. “Enquanto gorda, nunca deixei nada por fazer, mas na fase de reconstrução foi duro. No período em que perdi muito peso foi muito mais difícil para mim expor as peles do que quando era gorda e, como a ADSE não comparticipa as cirurgias plásticas - porque consideram isto uma questão estética (que não é, é reconstrutivo) -, eu não consigo fazer a reconstrução mais rapidamente…”

Para Clarisse e centenas de outros obesos em fase de cirurgia estética, esta é a batalha que agora importa travar: conseguir que estas cirurgias sejam comparticipadas pelo Estado. Portugal é um dos países europeus que apresentam maiores níveis de obesidade e, segundo dados do INE em 2014, mais de metade (52,8%) da população com 18 ou mais anos tinha excesso de peso e, em 2016, cerca de 11,7% das crianças portuguesas eram já obesas. A nível mundial os números são também assustadores. A Organização Mundial de Saúde considerou esta doença a epidemia global do século XXI.