Perfil Perfil
Francisco Louçã

Estado da noção

Francisco Louçã

Nunca cutucar a onça, ou a virtude do medo

Jair Bolsonaro segue na frente para a segunda volta das eleições presidenciais. Pode ganhar, se ampliar um pouco que seja a base do ódio – e os partidos e arautos do centro vão favorecê-lo, depois do colapso histórico que os tornou marginais na política nacional. Esperar por um assomo de vergonha de Fernando Henrique Cardoso ou de outros budas do centro-direita brasileiro, mesmo sabendo que fracassou a sua tentativa de reclamação fisiológica do poder e que alimentaram o monstro fascista quando endossaram o golpe palaciano contra a Presidente eleita, seria uma forma de esperar sentado pela vitória de Bolsonaro. Esta segunda volta não se pode ganhar com a direita civilizada, porque ela já não existe. Pode-se ganhar à esquerda no espaço da liberdade, se uma frente antifascista se erguer por entre os escombros de uma governação falhada e de alianças envergonhantes, e se essa frente for agora capaz de representar o nome da dignidade social e o sentido mais profundo da exigência de segurança para a população. Haddad só pode ganhar se for forte onde Bolsonaro cresceu e se o enfrentar.

Não tem pouco pela frente. A Bolsa brasileira comemorou o avanço de Bolsonaro com a maior subida dos últimos anos, o capital falou. E, se esta eleição está a comprovar alguma coisa, é que a burguesia brasileira é patrimonialista, oligárquica e escravocrata, não hesitando entre a democracia e qualquer forma de autoritarismo, se entender que assim protege melhor uma desigualdade tão extremada e por isso perigosamente evidente. Para os donos do Brasil, pobre na universidade é sacrilégio, empregada doméstica com salário mínimo é afronta, respeito pelas pessoas é atrevimento. A indignação desta “elite” é uma lei da natureza, e os que se espantam com a passada vitória eleitoral de Hitler na pátria de Beethoven e Bach ainda não compreenderam a realidade da vida: em tempos de crise a disciplina social recorre sempre à força bruta para impor o silêncio. Essa força é agora a política suja, a mentira como único argumento e o discurso do medo. A política mudou, já mudou com Modi, Duterte, Trump, Salvini e agora continua a mudar com Bolsonaro.

Mas já imagino a confusão à volta de Haddad. Uns querem o PT como sempre (mas isso traz a ganga do Mensalão e tutti quanti), para perder orgulhosamente. Outros, os que acreditam em milagres, querem uma plataforma moderada que namore o voto evangélico e tente acalmar os empresários que fazem piquete para obrigar os seus trabalhadores a votarem fascista. Outros proporão restabelecer as artimanhas de negociações de lugares de Governo, para atraírem partidos e caciques, a IURD, os interesses latifundiários e os magnatas de televisões que condicionam votos populares. De todos, no entanto, os mais perigosos, os conselheiros fatais, serão os que repetirem e insistirem na estratégia do medo, nunca cutuques a onça que ela morde.

Esses conselheiros já se levantaram quando as mulheres, sobretudo as mulheres, se manifestaram nas praças com o #EleNão. Foram centenas de milhares, mas que é isso comparado com os 49 milhões de votos bolsonaristas, dirão agora (em Portugal, mais original, Manuela Moura Guedes compara as grandes manifestações a uma “reunião tupperware” e um dirigente de esquerda, adepto da teoria da conspiração, assegura que foi “um golpe de mestre da campanha de Bolsonaro”). Não cutuques a onça, nada de criticar o fascista, muito menos na rua, muito menos se forem mulheres. Já se ouvira o mesmo a propósito do programa eleitoral de Haddad, afastando quem à esquerda quisera propor ideias novas, fulgor consistente e mobilização popular. Nunca cutucar a onça, que ela se pode aborrecer.

A chave desta eleição, e ainda mais no Brasil, é por tudo isto trazer a alegria para a rua. Só se pode ganhar com a alegria e a cor do povo e é para isso que a mobilização polariza e junta. A emoção e a alegria são confiança. Como é preciso abrir uma página nova, mais vale então enfrentar a onça, romper com o passado e buscar essa confiança. É preciso saber merecer esse cheirinho de alecrim que tanta falta faz ao Brasil.

Esta narrativa, como se diz, tem uma causa e uma consequência. A causa é o sentimento de perda, que alimentou o adaptacionismo aos poderes: Dilma tinha escolhido Temer para vice e Meirelles para o mando financeiro, uma latifundiária para o Ministério da Agricultura e outros personagens inapresentáveis para o seu Governo, incluindo Crivella, o genro do guru da IURD, que agora dirige o Rio de Janeiro e que, naturalmente, foi atrás de Bolsonaro. O PT experimentou todas as formas de sedução da onça, alimentou-a e seguiu as suas pisadas, imitou-a mesmo nas práticas políticas e, por isso, há quem aí se assuste com a simples ideia da vara curta e trema perante a possibilidade de olhar a onça. A estratégia do não-cutucar baseia-se numa regra: se Bolsonaro insulta as mulheres, tratar o assunto como se fosse graçola de boteco; se ameaça os homossexuais, esquecer, que é problema dessa gente; se quer esterilizar os pobres, fazer a conta, que o dinheiro é pouco e ele vai desistir; se quer matar os opositores, ainda bem que não pensou em mim. Ora, o problema desta narrativa medrosa é que reforça Bolsonaro e, por isso, para que Haddad dispute a eleição, terá que fazer o contrário do que o não-cutucanço lhe sugere e que o PT fez nos seus Governos.

A consequência é, no entanto, mais profunda. Os tempos brasileiros, e não é só por lá, têm promovido uma classe especial de políticos da mediocridade, de conselheiros acácios pastosos, videirinhos que singram nas instituições e nos favores, que aprenderam a estratégia do medo e a cultivam temendo mais a onça do que a incoerência ou o abandono dos compromissos eleitorais. Ficaram por isso atemorizados com as vozes das mulheres do #EleNão, acharam que era um exagero, que nada justifica esta polarização e que o adversário é, afinal, no fundo, um dos nossos, todos remamos para o destino iluminado da nação. A consequência é, então, uma doutrina, nem pensar em cutucar a onça.

Haddad terá que escolher e dessa decisão depende toda a política brasileira. Bolsonaro não mudará nada no estilo e na campanha, só fará o que já sabemos, fugirá do debate, em que é lastimável, evitará ideias, que assustam, refugiar-se-á no estilo rufia, que é a sua praia. Em contrapartida, Haddad é o único que tem a possibilidade de escolher. Se escolher a rua da democracia, a coragem da voz clara, ganhará sempre, quaisquer que sejam os votos que o ódio venha a contar a 28 de outubro. Estará no único lugar onde pode pesar, mostrando que a democracia não é só um debate de televisão, mas um povo na praça, gente que sabe o que quer, que quem vem de baixo tem a dignidade de querer o que é seu.

A chave desta eleição, e ainda mais no Brasil, é por tudo isto trazer a alegria para a rua. Só se pode ganhar com a alegria e a cor do povo e é para isso que a mobilização polariza e junta. A emoção e a alegria são confiança. Como é preciso abrir uma página nova, mais vale então enfrentar a onça, romper com o passado e buscar essa confiança. É preciso saber merecer esse cheirinho de alecrim que tanta falta faz ao Brasil.