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LUTO

É luto, não é luto, é luto, não é luto: a história de uma orca que é também uma história sobre todos nós

FOTO JULIE PICARDI/BARCROFT IMAGES

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Dizer que uma orca que empurrou a sua cria morta durante centenas de quilómetros pelas águas do Pacífico nordeste para esta se manter à tona estava a fazer o luto é o pensamento mais bonito mas poderá não ser o mais correto. Não há um consenso na comunidade científica e também não o há entre dois biólogos marinhos ouvidos pelo Expresso. É luto, não é luto, é luto, não é luto. E porque é que continuamos sequer a projetar-nos nos animais? Uma explicação fundamentada - “as pessoas precisam de dar um sentido àquilo que observam” - e outra meramente pessoal - “queremos ver nos animais aquilo que não encontramos nos homens”

Texto Helena Bento

Durante breves minutos a equipa de biólogos marinhos e especialistas do Center for Whale Research, sediado em British Columbia, no Canadá, e que tem vindo a monitorizar a mais pequena comunidade de orcas residentes no Pacífico nordeste, designada Southern Resident Killer Whales (SRKW), teve razões para celebrar. Uma orca daquela comunidade, conhecida entre eles por “J35” ou “Tahlequah”, tinha acabado de dar à luz de forma aparentemente bem-sucedida, a primeira desde 2015, conforme lhes contara o homem do outro lado da linha telefónica, um observador de orcas que testemunhara o parto à distância através dos seus binóculos. Alguns dos investigadores do centro dirigiram-se de imediato para o local mas quando ali chegaram, menos de meia hora depois, perceberam que talvez tivesse sido precipitado julgar que tinham finalmente contornado as probabilidades. Isto porque a cria estava morta. Resignaram-se, ajustaram de novo as suas expectativas, mas depois houve algo que os surpreendeu. É que aquela mãe orca de 20 anos, em vez de abandonar a cria morta como seria expectável que fizesse, começou a empurrá-la ao longo da superfície das águas, fazendo leves movimentos com o focinho para a manter à tona ou agarrando-a com a boca pela barbata para evitar que se afundasse. Esteve nisto durante pelo menos sete dias e centenas de quilómetros. Numa das poucas fotografias divulgadas agora, vê-se a mãe a empurrar com o seu bico o ventre branco lustroso da cria, virada de lado, torcida. Para Ken Balcomb, fundador do referido centro, era óbvio o que estava a acontecer. Aquela orca estaria a chorar a sua cria perdida, numa autêntica “viagem de luto” - “tour of grief”, foi a expressão usada - mas para outros especialistas não o é tanto assim.

“Não podemos assumir que é um luto”, começa desde logo por dizer ao Expresso Élio Vicente, biólogo marinho, referindo-se à divergência de opiniões na comunidade científica a respeito deste tipo de comportamentos. Para este biólogo, há outras razões, porventura mais “plausíveis”, que explicam por que razão esta orca se recusou a abandonar o corpo da cria durante dias a fio e para seu “próprio prejuízo”, a começar desde logo por aquilo a que os investigadores se referem como “altruísmo protetivo”. “Tratando-se de uma cria nascida num grupo com laços sociais muito fortes, como é o caso das orcas, é natural que se demonstre um comportamento protetivo para com a cria porque não há a noção de que ela esteja já morta.” E mesmo que haja essa noção, continua Élio Vicente, a “orca pode precisar de algum tempo para se aperceber de que a cria não só está numa condição diferente da sua, isto é, morreu, como se manterá nessa condição, isto é, não voltará a viver”. Mas há outras explicações possíveis que se resumem assim - sentimento de posse e diversão. “A mãe poderá ter sentido que, mesmo estando morta, a cria continuava a pertencer-lhe e portanto quis evitar que alguém a consumisse ou brincasse com ela.” Pode também ter querido, ela própria, “manter a cria como um brinquedo, como já se viu outras fêmeas fazerem”, esclarece o biólogo marinho.

Paulo Vaz-Pires, docente no ICBAS (Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, no Porto), tem a mesma opinião e formula-a assim: “Dizer que está a ‘fazer o luto’ porque estabeleceu ‘fortes laços maternais’ com a cria é atribuir sentimentos humanos animais e, sendo obviamente apetecível e carinho fazê-lo, não existe ainda forma de o provar cientificamente”. Às razões enumeradas pelo anterior biólogo para explicar o comportamento da mãe orca, Paulo Vaz-Pires acrescenta outra, relacionada com a necessidade de manter a cria longe da família por ela passar a representar um perigo a partir do momento em que morre. “Como podem vir a desenvolver-se agentes patogénicos nos cadáveres após a morte, é natural que os vivos evitem o contacto com os mortos, para não correrem o risco de vir a sofrer ou morrer da mesma doença”, diz o investigador, lembrando que o ser humano faz o mesmo ao proceder à “desratização das cidades com rodenticidas [veneno de elevada toxicidade] para manter os ratos longe da sua vista”.

Já Manuel Eduardo dos Santos, biólogo marinho e docente no Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), não vê razão para não se achar que esta orca, ao carregar o corpo da cria, estaria, de facto, a ser fazer o seu luto e a demonstrar um comportamento de “resposta à perda”. “O animal está a evidenciá-lo com grande clareza. Demonstra grande dificuldades em deixar partir aquela cria, em quebrar aquela relação que para si é forte, importante, significativa”. Isso é notório do ponto de vista do comportamento, “tendo havido um desvio da norma que só pode indiciar que a situação era, de facto, extremamente dolorosa e intensa”, e do ponto de vista social. “Há uma grande relutância em cortar a relação, em perder este sucesso reprodutivo dado o investimento que foi feito. Isso é condição bastante plausível que a situação seja experienciada pelo adulto de uma forma consciente.” Embora reconheça que é preciso “prudência” na avaliação, porque “não se sabe do ponto de vista da experiência subjetiva em que está a pensar o animal”, Manuel Eduardo dos Santos não tem dúvidas de que se tratou, e como dizia o fundador do centro de investigação, de uma viagem de luto. “Ao fim de não sei quantos dias sem qualquer reação por parte da cria, como foi o caso, não é plausível que se trata de um comportamento de proteção ou reanimação” tal como já terá observado, por exemplos, nos primatas.

FOTO JULIE PICARDI/BARCROFT IMAGES

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Em quase todas as notícias sobre o assunto publicadas pela imprensa internacional foram sublinhados os riscos que a mãe orca correu durante os dias em que manteve a cria consigo e nisso os dois biólogos ouvidos pelo Expresso concordam: “Houve gastos enormes pela perda de oportunidades de alimentação, repouso e socialização”, diz Manuel Eduardo dos Santos. “Manter um animal à superfície implica que o adulto não consiga estar atento a possíveis predadores e ameaças”, sublinha, por sua vez, Élio Vicente, sublinhando também o “grande esforço físico” a que obriga essa ação. “Há animais que passam dias sem comer na tentativa de manter um seu consespecífico à superfície.” Mas fazem-no sobretudo “para proteger a cria de outros predadores” ou se esta “estiver ferida”, o que significará à partida, diz Élio Vicente, que esta mãe orca não se apercebeu de que a cria não estava morta e portanto não estava a fazer luto.

Foi dito também, na imprensa, que este luto ou suposto luto é bastante comum nos golfinhos e orcas mas Élio Vicente corrige: “É um comportamento atípico, irregular. Há à volta de 80 registos, mas 80 registos em 50 anos de observação de cetáceos não é um número significativo”. Além disso, acrescenta, comportamentos semelhantes já foram observado noutras espécies, nomeadamente em macacos, elefantes, focas, girafas, gorilas, lontras, manatins e lémures. “No caso dos primatas, há fêmeas que tentam transportar a cria consigo durante meses até mumificar, apodrecer e desagregar-se.”

Também há casos em que, a certa altura, a fêmea acaba por consumir a própria cria num ato de canibalismo, explica Élio Vicente. Quantos aos elefantes e outros mamíferos terrestres de maior porte, e por ser impossível para o adulto transportar a sua cria, as “fêmeas podem permanecer no local onde a cria morreu durante horas ou dias ou abandoná-la e voltar mais tarde”, algo que também tem suscitado dúvidas aos investigadores. “Será que regressam para ver se a cria recuperou ou mesmo porque tem noção da morte?” Não se sabe. Tal como também não se sabe porque é que há espécies que fazem o luto ou o suposto luto e outras não e, dentro da mesma espécie, porque é que há fêmeas - ou até machos - que o fazem e outras não. “Esta variedade entre espécies e dentro de cada espécie não permite retirar conclusões científicas muito apropriadas.”

FOTO D.R.

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Assim, é de evitar o todo o custo o antropomorfismo, em que o ser humano “projeta intenções, emoções e motivações nos animais”, considera Élio Vicente, o que também contraria a ideia, lida algures, de que o que aconteceu com esta orca e a sua cria “recorda-nos o quanto temos em comum com os animais”. “Eu não correria o risco de pensar assim porque da mesma forma que vemos fêmeas e machos, incluindo orcas, a ter este tipo de comportamentos que nós, humanos, interpretamos como nobres, também sabemos que existem casos de infanticídio.”

As mesmas fêmeas que vemos a carregar e a chorar, aos nossos olhos, o corpo das suas crias também são capazes de “matar ou roubar as crias das outras fêmeas”. “A nobreza de carácter não poder ser vista apenas para o lado bom. Não podemos interpretar apenas os comportamentos que, à luz do nosso entendimento enquanto humanos, são positivos, e esquecer os outros que, também à luz do comportamento humano, seriam considerados negativos”. É preciso não esquecer, diz o biólogo marinho, que “os golfinhos, por exemplo, roubam fêmeas de outros machos para copular durante horas ou dias a fio contra a sua vontade e só as largam e permitem que elas voltem ao seu grupo quando já estão cansados”. “Os animais não têm a consciência do mundo da mesma forma que nós temos.”

Manuel Eduardo dos Santos concorda mas preocupa-o mais o inverso, que é achar que “os animais não têm sentimentos, pensamentos e emoções”, o chamado “dualismo cartesiano”. “Isso é bem mais perigoso, na minha opinião. Até porque muitas vezes observamos de facto comportamentos em animais que são homólogos ao comportamento dos humanos, isto é, têm a mesma raiz evolutiva.” É perfeitamente possível, continua o investigador, que tal como o ser humano também os mamíferos “com uma vida social complexa e um cérebro grande sintam tristeza pela perda de um parente, de um filho”.

Se até para um investigador às vezes é “difícil” não interpretar o comportamento animal à luz do que sabemos sobre o humano, conforme admite Manuel Eduardo dos Santos, o que fará para as restantes pessoas? Projetamo-nos constantemente nos animais. Porque é que o fazemos? É a pergunta. “As pessoas precisam de dar um sentido àquilo que observam, compreender o significado disso. E se a maneira que têm de interpretar o comportamento animal de modo a que este faça sentido é analisá-lo à luz do que já sabem sobre si mesmas, então é normal que o façam”, diz este biólogo. Élio Vicente concorda, embora com umas ligeiras variações. “Acho que tem que ver sobretudo com a nossa tendência para interpretar e compreender o mundo através de padrões de comportamento e emoções que tornam a nossa vida mais fácil.” Dá-nos ainda outra explicação, meramente pessoal, mas ainda assim uma explicação: “Acho também que estamos tão desencantados com o mundo que precisamos de nos inspirar e ganhar esperança vendo nos animais aquilo que não encontramos nos homens”.