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Domingos Xavier Viegas *

Opinião

Domingos Xavier Viegas *

O que temos de aprender com os incêndios

Depois dos acontecimentos que Portugal viveu em 2017, principalmente com os incêndios de junho e outubro, a nossa sociedade não pode deixar de ter presente este tema no seu dia a dia, com repercussões em muitos aspetos da vida nacional, desde a gestão do território à economia rural, à intervenção e combate os incêndios, ao socorro médico, à assistência social, até ao turismo. Desde Pedrógão, muito se tem refletido em Portugal sobre a grave incidência dos incêndios, no contexto da governação do país, mais concretamente nas áreas da floresta, da agricultura e da proteção civil. Com um pano de fundo de mudanças climáticas e sociais, o problema dos incêndios não parece ter melhorias.

No passado ano tivemos em Portugal os graves episódios de 17 de julho e de 15 de outubro; neste ano, tivemos os incêndios na Suécia, o trágico incêndio de Mati, a 22 de julho, na Grécia, os incêndios recorrentes na Califórnia e, nestes dias, o grande incêndio de Monchique. Perante este cenário, os cidadãos perguntar-se-ão se esta sequência não terá fim, se não aprendemos as lições e se não saberemos fazer as coisas de um modo diferente e melhor.

Temos de reconhecer que no processo de gestão dos incêndios florestais existem várias condicionantes que não dependem de nós, ou que, pelo menos, não se podem alterar por uma ação direta por parte das pessoas, como por exemplo as condições do clima e da meteorologia. O aquecimento global da atmosfera produz uma maior variabilidade nas condições meteorológicas. Em consequência disso temos maior probabilidade de registar temperaturas muito altas, como já estamos a verificar.

As condicionantes, relacionadas com as pessoas dependem, por um lado, do Estado e das suas estruturas e, por outro, da população em geral. Estas condicionantes são as mais acessíveis para mudar, mas nem por isso são as mais fáceis, tendem a ser lentas e encontramos alguns indicadores positivos e outros negativos.

O Estado pode alterar a sua visão e abordagem do problema, pode reformar as instituições, criar novas leis e substituir pessoas, mas tudo isto não modifica a situação de um momento para o outro. São precisos vários anos de trabalho persistente, com uma estratégia concertada, com objetivos bem definidos, com lideranças fortes, para ter resultados. Infelizmente não temos visto isso em Portugal no passado recente e as mudanças em curso apenas dão uma indicação de que se quer fazer algo e se pretende caminhar, mas em muitos casos não se compreende muito bem em que direção.

Temos de reconhecer que o problema da gestão dos incêndios florestais é muito complexo, assemelhando-se a uma centopeia, mas uma que além de ter muitos pés tem várias cabeças. Embora se reconheça que, no seu conjunto, o sistema tem melhorado, é aparente que nem todos os pés andam ao mesmo ritmo.

Deixemos essa análise mais detalhada das estruturas do Estado, para outra ocasião e abordemos agora a questão das mudanças nas pessoas, que decorrem em boa parte do modo como funciona o binómio Estado-população.

Os programas de limpeza da vegetação em torno das casas e o das “aldeias seguras” constituíram passos muito positivos, pois evidenciaram a primazia da segurança das pessoas e da importância e necessidade de agirem para a sua própria proteção, sem dependerem passivamente das entidades estatais. O programa de limpeza teve, sobretudo ao início, vários problemas de comunicação. Algumas pessoas terão confundido a obrigação de reduzir a carga de biomassa com a eliminação completa da vegetação em volta das casas, mas com esclarecimentos ulteriores a situação melhorou. O resultado deste programa, que é visível em todo o país, é o de termos a envolvente das habitações como nunca víramos antes. Oxalá esta medida persista, não tanto pela força das coimas mas antes pelo reconhecimento, por parte das pessoas, da necessidade em manter esta limpeza.

Embora exista um défice de campanhas de informação e de sensibilização do público em geral sobre o problema dos incêndios, estou convencido de que a memória dos desastres de 2017 e a difusão generalizada do risco especial que as autoridades fizeram, nos dias 2 a 4 de agosto, terão contribuído para que o número de ocorrências nestes dias tenha sido muito inferior ao que, infelizmente, tínhamos em dias de risco extremo em anos anteriores. Em minha opinião, a onda de calor daqueles dias constituiu sobretudo um teste importante para a sensibilidade da nossa população e, se os dados em que me baseio estiverem corretos, podemos dizer igualmente que os portugueses passaram este teste com uma boa classificação. Oxalá este seja também um sinal positivo a manter.

A experiência mostra que uma casa que tenha pessoas a defendê-la tem muito maiores probabilidades de resistir à destruição pelo fogo

Há, por outro lado, um conjunto vasto de lições que resultam dos incêndios de 2017, algumas delas associadas aos acidentes pessoais que investigámos, que por razões diversas não são do conhecimento geral do público e que, em nossa opinião, deveriam sê-lo. Irei limitar-me a referir aqui algumas das mais importantes.

Quando uma pessoa estiver numa área ameaçada por um incêndio, o que deve fazer? Esta questão continua a ser importante, nestes dias, para muitos cidadãos. A primeira coisa a fazer é não subestimar o incêndio e aquilo que ele pode fazer. Deve naturalmente manter-se informado e em contacto com as autoridades, e decidir se deve retirar-se ou se tem condições para permanecer e defender a sua casa. Há pessoas – tal como os idosos, as crianças, as pessoas com limitações e os doentes – que devem ser retirados das áreas ameaçadas pelo fogo, mas tal deve ser feito com grande antecedência, para que a evacuação não se transforme numa fuga precipitada.

Se a habitação em que se encontra tiver boas condições para resistir ao fogo e se a pessoa tiver boa condição física e bons recursos, deve informar as autoridades e, com o acordo delas, pode decidir permanecer. A experiência mostra que uma casa que tenha pessoas a defendê-la tem muito maiores probabilidades de resistir à destruição pelo fogo. Se decidir ficar é melhor se puder contar com o apoio de outras pessoas, mas deve dispor de equipamento de proteção pessoal e de meios para apagar os focos de incêndio que possam surgir na envolvente da casa.

A identificação destas situações em que as pessoas possam ser autorizadas a permanecer, requer um extenso trabalho por parte das autoridades, em conjunto com a população. Este trabalho não se pode fazer depressa nem pode ser improvisado. A decisão, em cada caso, depende de muitos fatores, um dos quais é a própria intensidade do incêndio, dado que a decisão de permanecer pode ser válida para uns casos, mas pode haver situações excecionais, em que mesmo os mais experientes devem ponderar – em conjunto com as autoridades – se podem permanecer ou se devem sair. Lembro que na Austrália, em 2009, as autoridades reconheceram que havia condições em que não se podia ficar para defender as casas em segurança. Para sinalizar essas circunstâncias, criaram um sexto nível de perigo, o de “risco catastrófico”.

Se mesmo sem ter tomado a opção de ficar for surpreendido pela aproximação do incêndio, saiba que de um modo geral, é mais seguro permanecer em casa. Deve evitar fugir, mesmo que conheça bem os caminhos, pois com um incêndio por perto as estradas não são locais seguros.

No estudo que a minha equipa fez das edificações destruídas pelo fogo, no incêndio de Pedrógão Grande, em 2017, cerca de metade foram-no pelo fogo que se aproximou da casa pelo terreno envolvente. A outra metade foi destruída por focos secundários que atingiram, na quase totalidade dos casos, o telhado.

Da totalidade das casas destruídas pelo fogo, apenas 5% estavam limpas na sua envolvente. Todas as outras estavam limpas apenas em parte, ou não estavam limpas de todo. É interessante ver que não fazia diferença estar só limpa parcialmente ou não estar limpa de todo. Este é quanto a nós, um argumento importante a favor da limpeza cuidadosa do espaço em torno das casas.

Quanto aos telhados, os mais vulneráveis eram os antigos, com estrutura em madeira, ou com telhas em mau estado de conservação. Fica, pois, a chamada de atenção para a necessidade de cuidar da cobertura das edificações, em particular dos telhados e das janelas, que tendem a ser os pontos fracos das casas.

Cada um dos problemas mencionados carece de um estudo e análise, para que possamos retirar, com objetividade, as lições que se impõem, para melhorar a situação, em circunstâncias futuras. Tenho a noção de que há muito trabalho a fazer, para melhorar o nosso conhecimento e capacidade de avaliação e análise.

* Diretor do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais, ADAI, Universidade de Coimbra