JOGOS OLÍMPICOS
Rafaela é maior que Neymar
FOME O desejo de conquistar um lugar no mundo empurrou Rafaela Silva para fora da Cidade de Deus FOTO FACUNDO ARRIZABALAGA / EPA
Rafaela Silva, diminutivo Rafa, esperou quatro anos para conquistar o ouro olímpico no judo. Primeiro teve de aguentar chamarem-lhe “macaca”, “vergonha”. Mas a vingança serve-se fria e faz ferver o sangue e Rafa soube esperar até que gritassem o nome dela em honra da vitória. Depois sorriu. Porque a fome que um dia sentiu ainda não foi aplacada. O Expresso escutou a história da campeã contada pelo seu tutor, o homem que viu o ouro no fundo de um túnel escuro
TEXTO CHRISTIANA MARTINS
Olê, olê, olê, olá, Rafa, Rafa!” Foi assim, do alto da Arena Carioca 2, que Rafaela Silva viu o reconhecimento pela conquista da primeira medalha de ouro brasileira nas Olimpíadas do Rio ser-lhe entregue: de bandeja. “Rafaela é melhor que Neymar, Rafaela é melhor que Neymar!”, não paravam de gritar. É que o ídolo do futebol brasileiro pode reivindicar muitas conquistas mas não tem o ouro olímpico. E talvez nunca venha a ter, mas Rafaela já tem o seu. E esse ninguém lhe tira.
Na noite desta segunda-feira, após o combate e a cerimónia de premiação, a onda de satisfação envolvia a atleta de carinho mas Rafa, 24 anos, só queria cair nos braços de Dona Zenilda, a mãe que na véspera sonhou com a filha pisando o pódio. E com sonho de mãe não se brinca. Discreto, sempre ao lado da campeã, mais alguém a acompanhava, como uma sombra: o homem que a ajudou a chegar lá, Geraldo Bernardes, tutor desde que a campeã nem ousava sonhar com tanto sucesso.
FOTO DEAN MOUHTAROPOULOS / GETTY IMAGES
“Conheci a Rafaela quando ela tinha oito anos. Eu tinha deixado a seleção brasileira de judo, onde estivera 20 anos, e criara um instituto de solidariedade social na favela da Cidade de Deus, na periferia do Rio de Janeiro, para apoiar o desenvolvimento das crianças através do desporto. Ela veio com a irmã, Raquel, dois anos mais velha. Vi logo que a agressividade que ela demonstrava podia ser canalizada para as competições e, desde o primeiro momento, soube que ela iria chegar à seleção.”
Geraldo Bernardes é dos poucos judocas brasileiros para lá do cinturão preto, é cinturão vermelho no nono dan. Traduzindo, é um senhor do judo. E, com toda a experiência na modalidade, percebeu logo que a pequena Rafaela poderia fazer da sua determinação a matéria-prima de vitórias futuras. “Ela se impõe em relação às adversárias, tem vontade de vencer e é muito focada”, explica o técnico, hoje com 73 anos.
FOTO KAI PFAFFENBACH / REUTERS
Roubavam-lhe os chinelos
Mas a história de Rafaela no tatame começou aos cinco anos. Brigona, envolvia-se com os miúdos na rua da comunidade carente, lutava para que não lhe roubassem os chinelos. Tanta garra preocupou os pais, um entregador de pizza e uma vendedora de botijas de gás. Com a irmã, foi encaminhada para um ginásio social, ela queria jogar futebol e a irmã, Raquel, fazer dança. Nem uma nem outra. Foram as duas para o judo.
A irmã era mais aplicada, Rafaela não gostava e não gosta de treinar, tinha de ser empurrada. Aos 15 anos, Raquel engravidou, afastou-se do tatame, Rafaela continuou, sempre sob o olhar atento de Geraldo Bernardes. E os títulos foram chegando: campeã pan-americana, mundial júnior, mundial adulto. Rafaela é fruto do Instituto Reação, Escola de Judo e Lutas. Uma das 1200 crianças de comunidades carentes que são apoiadas pelo projeto não-governamental criado por um ex-medalhado com bronze olímpico, Flávio Canto, e cujo projeto olímpico é coordenado por Geraldo Bernardes.
Em 2012, Londres, a primeira olimpíada de Rafaela. E o o tombo não podia ter sido maior. A atleta brasileira foi afastada por procedimento incorreto na luta contra a húngara Hedvig Karakas - Rafa caiu acusada de aplicar um golpe ilegal. Afundou-se. Foi xingada, escreveram que era a vergonha do país, disseram-lhe que lugar de macaco era na jaula. Impetuosa, respondeu à altura nas redes sociais. Expôs-se. Foi repreendida e fechou-se em casa. Por meses, deitou-se no sofá da casa dos pais e comeu enquanto via televisão. Geraldo Bernardes tremeu.
“Ela não queria sair, tinha de ser vigiada, procuramos uma coach, demos-lhe todo o apoio, ela estava traumatizada. Mas a história da Rafaela é uma história de superação e eu tinha certeza de que ela iria se recuperar.” Com seis atletas com medalhas olímpicas, o treinador já viu muita coisa, sentiu muitas emoções dentro e fora do tatame. Teve de operar o coração. Parar e voltar. Sabia que a vida é assim, feita de altos e baixos, que Rafaela batia no fundo para voltar à tona - afinal fora este instinto de sobrevivência que ele sempre vira na pupila.
Mas mesmo quem tem força precisa de um empurrãozinho. E coube ao público, que em Londres a empurrou para baixo, puxá-la para cima no Rio de Janeiro. “A torcida me ajudou bastante. A arena chegou a tremer. Eu via que as adversárias sentiam a pressão. E eu não podia dececionar todas essas pessoas que vieram torcer por mim aqui dentro da minha casa”, contou Rafaela à revista “Época”. Na memória, a frase que ela disse e que um dia colocaram na parede do centro de treinos do Instituto Reação na Cidade de Deus: “De todas as minhas lutas que me levaram à final do mundial, as fora do tatame foram as mais difíceis”. Serviu de incentivo para o título do mundial e teria de servir para a conquista olímpica. Feito.
FOTO FACUNDO ARRIZABALAGA / EPA
Na segunda-feira à noite, Geraldo estava de olhos postos em Rafaela na Arena 2. Quando o combate chegou ao fim e a atleta já levava no rosto a certeza da medalha, abraçaram-se. Velho e nova, agarrados ao sonho construído ao longo de vinte anos. O que se diz nessa hora? “Não há palavras, só emoção. Não se diz nada, só se beija e se chora, não tem quem não chore.” Mas, mesmo para a premiada, Geraldo não esquece de passar a mensagem: “Amanhã é outro dia, a vitória já é página virada. Temos de voltar a treinar, recomeçar tudo outra vez.”
Rafaela não ouve, de olhos postos nos hambúrgueres que queria comer e não conseguiu pelas muitas entrevistas e abraços que tinha de dar. “Eu só tenho fome, tenho muita fome”, anuncia a atleta. Rafaela mudou de vida, é terceiro-sargento da Marinha, saiu da Cidade de Deus e da casa dos pais, mora no Méier, subúrbio carioca, e, conta o Globoesporte, “tem um carro de dar inveja aos vizinhos”. Mas quando é preciso ainda carrega nas costas as botijas de gás que a mãe vende.
Num vídeo do Globoesporte é possível ir acompanhando os instantes seguintes à vitória. Ver a família de Rafa vestida com as t-shirts e os bonés que a atleta encomendou. Ouvir a irmã mais velha, Raquel, ex-companheira de tatame, contar que quando Rafa bateu no fundo Neymar lhe telefonou, “dando força, dizendo para ela não desistir”. Agora tem o maior título no desporto que mais medalhas olímpicas deu ao Brasil. Afinal, os brasileiros não têm qualquer medalha no futebol e têm 20 no judo.
FOTO INÁCIO ROSA / LUSA
Telma é uma guerreira
Desta vez, em casa, no Rio de Janeiro, Geraldo, lenda viva do judo brasileiro, tem outra missão grandiosa: foi escolhido pelos comités olímpicos brasileiro e internacional para treinar os dois lutadores de judo da equipa de refugiados. Popole Misenga e Yolande Mabika só entram em cena esta quarta-feira e Geraldo, na sexta experiência olímpica da sua vida, sabe que aquela é uma batalha mais difícil. Mas, diz, “técnico que é técnico tem de acreditar que o seu atleta é medalhável, senão não vale a pena”. E lá vai ele, acreditando em novo pódio.
Na conversa com o Expresso, na manhã seguinte à conquista de Rafaela Silva, o sansei Geraldo Bernardes encontrou tempo para comentar o desempenho de Telma Monteiro, a medalha de bronze portuguesa, na mesma categoria de Rafaela (inferior a 57 quilos). “É uma excelente atleta, é muito técnica e guerreira.” Feliz com um pódio em que duas das medalhadas falavam português, diz que “foi bonito” ter visto o que viu. E que “Portugal está de parabéns”. O Brasil também.