Opinião
Martim Silvamgsilva@expresso.impresa.pt
Fogo que arde e se vê
A propósito da recorrente, mas nem por isso menos triste, sina dos fogos florestais de verão, que não há forma de passarem a ser um pretérito longínquo, o João Miguel Tavares afirma hoje no Público: “Isto não é azar geográfico nem altas temperaturas. É mesmo uma profunda incompetência política, muito mais árdua de combater do que o pior dos fogos.”
A frase, incisiva e mordaz, encerra uma tese.
A de que, independentemente, da nossa geografia e do nosso clima tem havido uma inépcia geral que faz com que todos os anos sejamos confrontados com os mesmos problemas. Que todos os anos nos garantam que para o ano as coisas estão melhores. Que vão existir mais meios. Que a prevenção é desta que vai avançar.
2003 foi o mais negro dos anos negros que vivemos nesta matéria. Arderam então 425 mil hectares em incêndios florestais (era Durão Barroso primeiro-ministro). Desde então, em cinco outros anos (2004, 2005, 2010, 2012 e 2013) a área afetada em incêndios florestais ultrapassou os 100 mil hectares (com Santana, Sócrates e Passos como PM’s) – se quisermos ter uma ideia simplificada isso quer dizer qualquer coisa como 100 mil (não são cem, não são mil, são cem mil) campos de futebol consumidos pelas chamas em cada um desses anos.
É certo que desde os 300 mil hectares ardidos em 2005 nunca mais tivemos, nem de longe nem de perto, um ano negro assim. Mas, se olharmos para o copo de outra forma, em 2015 arderam mais de 60 mil hectares, três vezes o valor do ano anterior.
Ou seja, se é um facto que não mais voltámos aos anos terríveis de 2003 e 2005, dificilmente se vê aqui uma tendência sustentada e permanente de redução da área anual ardida para valores residuais.
Andamos, literalmente, ao sabor do vento (e do calor).
Eis o que foram sucessivamente dizendo os nossos governos desde esse dramático ano de 2003, nos seus respetivos programas, a propósito do combate aos incêndios florestais:
- António Costa fala de um “desígnio nacional prioritário para a sustentabilidade da floresta portuguesa e para a confiança do investimento na floresta” e promete “rever e melhorar o programa de Sapadores Florestais, designadamente através da respetiva formação profissional”, “Criar um Programa Nacional de Fogo Controlado”, “Rever o Programa Operacional de Sanidade Florestal e criar subprogramas operacionais para o controlo e erradicação das principais pragas e doenças florestais”.
- Antes dele, Passos e o seu governo prometiam “quebrar os ciclos viciosos que persistem na nossa floresta (fracionamento, gestão, incêndios e doenças)” e garantia que “o Governo fará o indispensável cadastro florestal e empenhar-se-á na criação de um mecanismo de segurança e de gestão de riscos, com o apoio da União Europeia e em conjunto com as seguradoras, para reduzir substancialmente os riscos de incêndios florestais.”
- E Sócrates. O que dizia Sócrates, adivinhe lá? “Criar 300 Equipas de Sapadores Florestais até 2013 e consolidar o Dispositivo de Prevenção Estrutural com 750 equipas de sapadores totalmente operacionais e altamente especializadas; j) Desenvolver os procedimentos para a criação de um “seguro florestal” que reduza os riscos atualmente existentes”. Isto no seu segundo governo, porque no primeiro, iniciado em 2005, prometia “valorizar o dia nacional da proteção civil”. Os corpos de bombeiros “carecem de um aumento do nível de profissionalização, de uma revisão do sistema de financiamento (que deve tornar-se mais transparente) e da aprovação de um plano de reequipamento”. Por outro lado, “serão reforçados os mecanismos de prevenção de fogos florestais, potenciando-se a intervenção da Agência para a Prevenção de Incêndios Florestais e melhorando-se a capacidade operacional de alguns instrumentos, de que são exemplo as equipas de sapadores florestais”.
Olhando para o que se passa agora, as críticas à situação no terreno mantêm-se intactas. Basta ver os jornais.
No Jornal de Notícias, Paulo Fernandes, professor do departamento de Ciências Florestais e Arquitectura Paisagista da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, afirma que “a prevenção sempre foi o parente pobre no que toca aos gastos públicos com os incêndios (…) mais de 90 por cento do investimento vai para o combate”.
Outra proposta, via Público, vem de Américo Carvalho Mendes, presidente da direção da Associação Florestal do Vale do Sousa, que afirma que só deveriam ter acesso ao Fundo Florestal Permanente “os municípios que co-financiarem as brigadas de sapadores que existirem nas organizações de produtores florestais dos seus concelhos e as enquadrarem na realização de trabalhos (…) que contribuam para reduções estruturais do risco de incêndio”.
De palavras não estamos mal.
Mas as palavras escritas em papel por quem nos governa não apagam, manifestamente, fogos.
Desde os 300 mil hectares ardidos em 2005 nunca mais tivemos um ano negro assim. Mas, se olharmos para o copo de outra forma, em 2015 arderam mais de 60 mil hectares, três vezes o valor do ano anterior
ALTOS
Telma Monteiro
Judoca
Não foi à terceira vez, mas foi à quarta: depois de não ter conseguido chegar ao pódio nos Jogos Olímpicos de Atenas (2004), de Pequim (2008) e de Londres 2012, Telma Monteiro consegue finalmente a merecida consagração olímpica, ao obter a medalha de bronze. E aponta já para os próximos, os de Tóquio, para se “despedir em grande”, mesmo que nessa altura tenha já 34 anos. Porque, como a própria diz, é preciso “querer”.
Rafaela Silva
Judoca
Nascida numa favela do Rio de Janeiro, teve uma vida difícil, fora e dentro do desporto. Ainda há pouco tempo, na sequência dos anteriores Jogos Olímpicos, em Londres, foi vilipendiada, por um erro técnico que a eliminou, nos quartos de final. Chegaram a chamar-lhe “macaca“, que devia estar na “jaula”. Pensou seriamente em desistir, mas conseguiu resistir. Agora a “macaca” tornou-se campeã olímpica de judo, categoria até 57 kg.
Heloísa Apolónia e José Luís Ferreira
Deputados
Os dois deputados do Partido Ecologista os Verdes não faltaram a qualquer dos 89 plenários da Assembleia da República realizados nesta sessão legislativa, sendo o único partido que “fez o pleno” com todos os deputados. É certo que são só dois, e que as presenças e ausências podem não significar muito, mas merece ficar registado.
Paulo Pereira e Lucinda Borges
Cidadãos
O chamado “cidadão anónimo” também merece ser chamado a esta coluna. Neste caso trata-se de um “casal anónimo” de Avanca - os seus nomes são Paulo Pereira e Lucinda Borges, registe-se - que, face ao enorme engarrafamento na A1 causado pelo incêndio na zona de Estarreja, saiu de propósito de casa para ir comprar mil litros de água e distribui-los por quem estava há horas bloqueado na autoestrada.
BAIXOS
Constança Urbano de Sousa
Ministra da Administração Interna
Com o país a arder, não se tem dado pela ministra que tutela bombeiros, proteção civil e outros serviços. É certo que está de férias, pelo que tem sido o seu secretário de Estado a aparecer. Mas uma declaração ou posição pública da responsável mor do sector não ficaria mal, numa altura em que tanto é preciso manter o ânimo.
José Cardoso