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Bernardo Ferrão

Andamos nisto

Bernardo Ferrão

Foi você que pediu uma maioria absoluta?

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Lembra-se daquele anúncio do vinho do Porto Ferreira que terminava com a pergunta: foi você que pediu? A questão da maioria absoluta do PS fez-me regressar a essa campanha publicitária. É verdade que ainda ninguém a pediu expressamente – aliás nunca percebi o interesse e o valor político desse pedido – mas o facto é que muitos falam da possível maioria socialista como se ela estivesse ali à mão, pronta a servir, qual cálice de Porto Ferreira!

A história revela a dificuldade de um só partido alcançar uma maioria absoluta. Cavaco Silva, em 87 e 91, e José Sócrates, em 2005, foram até agora os únicos e em contextos muito particulares. O desenho do nosso sistema eleitoral não favorece tal acumulação de poder e, no caso presente, a necessária débacle do PSD para que os socialistas pudessem repetir o número mágico não se está a verificar. Mais: se olharmos para as últimas eleições (autárquicas e antes as legislativas), a soma entre PS e BE andou pelos 43%, ou seja, o PS teria de conseguir esvaziar o Bloco para vencer e alcançar o sonho.

O problema é que a performance do PS já teve melhores dias. Em fevereiro, a Aximage dava aos socialistas 43% das intenções de voto – bem perto da maioria –, mas em março o valor caiu para os 38%. Sondagens são sondagens, porém recorro a estas especificamente porque sei que preocupam alguns dirigentes socialistas. No Largo do Rato, o caminho de António Costa, mais desviado da esquerda, tem feito soar algumas campainhas. Com a orientação assumida nas áreas do Trabalho, com o acordo de concertação e a legislação laboral, na Educação, com os professores, e na Saúde, com a lei de bases alternativa de Maria de Belém, o receio é que se consolide a ideia de uma alteração de facto no rumo do PS. A desilusão dos eleitores da geringonça segue-se na equação.

Se se mantiver na versão “não há dinheiro”, a guerra com Mário Nogueira e restantes sindicatos pode tornar-se o grande incêndio político do resto do mandato de António Costa

Sendo impossível prever (e acreditar?) uma maioria absoluta, Costa carrega no PS do centrão e de Centeno. Um PS que quer mostrar que põe os sindicatos na ordem, que prefere perder os professores a hipotecar a confiança de toda a Função Pública (a fatura para as Finanças seria incomportável), que conviveria mal com exceções. Um PS que se impõe na trajetória de consolidação orçamental de Bruxelas. Um PS que já diz às esquerdas (e de forma cada vez mais tensa) que não há dinheiro. Embora saibamos que a polémica dos professores foi mal gerida desde o início, com tropeções na palavra dada pelo Governo e nas expectativas criadas.

Com a “geringonça” às cabeçadas e os sindicatos a ameaçar a paz social, Rui Rio aproveita para fazer o seu caminho. Não tem muito tempo, mas aos poucos sai do bolso do primeiro-ministro. As propostas para reformar o SNS em acordo com outros partidos e o “cheque bebé” tocam em pontos essenciais para os eleitores. Marca a agenda, mostra iniciativa e obriga o PM a vir a jogo. Mas Rio tem de cuidar da coerência. Já defendeu um superavit, aumentos para a Função Pública – sem ser claro no caso dos professores – e agora este pacote para a natalidade que traz muita despesa mas ninguém sabe quanto vai custar.

PS e PSD parecem ter invertido os papéis. António Costa o austeritário e Rui Rio um “mãos largas”. Costa apropriou-se do rigor que Rio trazia no currículo, mas está a pagar a fatura do “país das maravilhas” e do “milagre económico” que andou a vender. Muitos vaticinam que a sua intransigência face aos professores lhe tirou a maioria absoluta. De facto, é preciso olhar para a história para perceber como os professores têm sido terreno perigoso para os Governos. Se Costa quer voltar a sonhar alguma coisa terá de ceder. Se se mantiver na versão “não há dinheiro”, a guerra com Mário Nogueira e restantes sindicatos pode tornar-se o grande incêndio político do resto do seu mandato.