A tempo e a desmodo
Henrique Raposo
A traição da direita
Trump é a negação de todos os valores e tradições conservadoras e republicanas. Votar ou apoiar Trump é uma traição que só se compreende à luz do desespero e do desejo de “ser do contra”. Sucede que ser conservador não é o mesmo que “ser do contra”. De Lincoln a Teddy Roosevelt, de Adams a Bush pai, nada na direita americana tem reflexo em Trump. Ponto final. Combatê-lo não é ser um vendido à esquerda ou ao politicamente correto, é salvar a própria essência republicana e conservadora. Que isto não seja entendido já é trágico, mas é compreensível à luz do facciosismo e do eleitoralismo. O que não é compreensível é o silêncio republicano sobre a traição russa de Trump.
Como é que os republicanos, que passam a vida a dar lições de patriotismo, não se revoltam contra um presidente tão pouco patriota e tão poroso à influência russa?
Sabe-se hoje que diversos membros do séquito de Trump estiveram reunidos com agentes russos. Foram corrompidos? São apenas ingénuos e vaidosos? Seja qual for a resposta, o cenário é de quebra de confiança política. Sabe-se hoje que os sistemas de informação russos entraram de facto na campanha eleitoral para prejudicar Hillary e beneficiar Trump. Sabe-se hoje que a bondade de Trump em relação a Putin é incompreensível. Como é que os EUA são tão cordiais em relação a um dos seus grandes rivais, que, ainda por cima, está em permanente violação das regras do jogo? Eu ainda sou do tempo em que um político americano em evidente conluio com os russos era um sinal imediato de traição e morte política. Esta questão russa não é uma mera traição intelectual e política, é uma traição de facto. Como é que os republicanos, que passam a vida a dar lições de patriotismo, não se revoltam contra um presidente tão pouco patriota e tão poroso à influência russa?
Seja como for, este caso é revelador do estado de divisão suicida em que se encontra a América e o Ocidente: uma questão de segurança nacional não é tratada como uma questão de política externa de uma nação unida, é tratada como mais uma acha da fogueira politiqueira do “nós” republicanos contra “eles” democratas, do “nós” Fox News contra “eles” CNN/NBC, do “nós” internet alt-right contra “eles” média tradicionais. A internet, essa coveira de impérios.