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Bernardo Ferrão

Andamos nisto

Bernardo Ferrão

Afinal qual é o clube do Ministério Público?

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Dar a entender, ou dizê-lo de forma desabrida, que o Ministério Público se move no caso e-toupeira porque tem interesses contrários aos do Benfica, além de ser um caminho perigoso mostra uma enorme falta de argumentos. Bem sei que o ano não tem sido fácil para o clube da Luz e para os seus dirigentes, e que os nervos estão a flor da pele, mas apostar tudo na teoria do complô não é definitivamente a melhor defesa.

Tal como escrevi aqui na semana passada, hoje respira-se um ar novo, o Ministério Público está mais orientado no combate à corrupção e outros crimes económicos que minam por completo a convivência em sociedade. Mas não é só no futebol. Também na política os investigadores têm mostrado que não há intocáveis. Os casos de Sócrates, Salgado, Vara ou Duarte Lima, só para dar alguns exemplos, estão aí para nos mostrar como o mundo mudou. Não compreender isto é persistir numa tese sem sentido que só pode dar mau resultado. Os investigadores já não pedem licença, nem batem à porta. Não pode haver zonas proibidas. Cada um tem de cumprir o seu papel

É claro que este novo tempo, inaugurado por Joana Marques Vidal e que veio para ficar, não deve dar lugar a uma sociedade justicialista assente num MP com poder absoluto. É verdade que corremos esse risco, mas ao fazer subir a fasquia, a Justiça impôs-se novas e acrescidas responsabilidades. E a justiça sabe que o nosso nível de tolerância se alterou radicalmente, não só perante os infratores mas também com quem tem de fazer cumprir a lei.

O futebol pode continuar a tentar adivinhar qual é o clube dos investigadores mas essa é uma estratégia sem pés nem cabeça. Estão a perder tempo, e o contador da justiça não pára de rolar

O Benfica está no seu direito quando alega que há falta de prova ou que a ligação à parte desportiva é absurda e inconsistente. Mas julgo que o clube, pelo menos a avaliar pela declaração de Luís Filipe Vieira, já percebeu que isto é a sério e que este processo não existe só porque o MP decidiu numa bela manhã ir bater à porta da Luz. Os casos que envolvem os encarnados e o seu presidente não são coisa menor. Não importa se partiram de uma denúncia anónima ou de um e-mail pirateado, no e-toupeira o que foi encontrado sobrepõe-se a tudo isso. A gravidade não está na questão desportiva, está nos crimes contra a justiça. Ou se quiserem contra o Estado que somos todos nós.

Tal como na política, o futebol também se move por paixões e ódios mas de uma forma bem mais irracional e perigosa. Nestes dois mundos, haverá sempre claques disponíveis para destruir quem investiga e a acusação produzida. Colando-lhes rótulos, cores partidárias ou clubísticas. Argumentando com a pouca independência do MP ou com a sede de mediatismo como estando na base de tantas violações do segredo de justiça. Já assistimos a esse filme na política quando os investigadores começaram a entrar nas sedes partidárias e a remexer nas decisões tomadas pelos detentores de cargos públicos em desfavor do Estado. O futebol pode continuar a tentar adivinhar qual é o clube dos investigadores mas essa é uma estratégia sem pés nem cabeça. Estão a perder tempo, e o contador da justiça não pára de rolar.