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70º Congresso Mundial de Imprensa e Fórum Mundial de Editores

Será que ele, que é um MoJo, representa o futuro do jornalismo?

Foto Rafael Antunes

Foto Rafael Antunes

Yusuf Omar, jornalista de 32 anos, anda sempre só com um telemóvel - e com os seus óculos que gravam vídeo - para fazer o “seu” jornalismo totalmente móvel, totalmente sediado nas redes sociais e totalmente imparável. É ele um dos futuros do jornalismo? E que futuro é esse?

Texto Ana França

Yusuf Omar não é jornalista, é um MoJo, ou “Mobile Journalist”, uma palavra em jeito de prefixo introdutório que lhe dá logo para muitos minutos de conversa. Se não o interrompermos para entender o que quer dizer com todas aqueles neologismos e teorias futuristas sobre jornalismo que, no entender dele - e talvez todos tenhamos de o ouvir com atenção - não são futuro mas sim presente. Logo a seguir diz que talvez até se tenham tornado passado quando acabar a entrevista que deu ao Expresso na abertura do 70º Congresso Mundial de Imprensa e Fórum Mundial de Editores, que está a decorrer no Estoril até esta sexta-feira. Yusuf tem 32 anos e faz jornalismo apenas com um telemóvel. Não é mania de agora. Já foi assim que cobriu a Primavera Árabe e depois a Guerra da Síria quando, em 2011, finda a licenciatura, verificou que na sua nativa África do Sul ninguém lhe dava emprego - “diziam-me que eu não tinha suficientes cabelos grisalhos”, conta Yusuf, a rir. Hoje tem um rede gigante de repórteres por todo o mundo e especializa-se em dar voz a comunidades isoladas em países onde os meios de comunicação tradicionais não dão voz às minorias. Sem parar de gesticular nem de gravar vídeos para futuras publicações no Snapchat, no Instagram, no Twitter e no Facebook, deu-nos esta entrevista - não sem antes parabenizar um outro orador que se sentou na mesma mesa e que estava a utilizar um iPhone 4: “Ainda funciona? Uáu, está muito bem estimado, que relíquia”.

Diz que todo o jornalismo que faz precisa apenas do seu telefone. Explique-nos isso.

Eu também ando com estes óculos que fazem vídeo. Carrego aqui [Omar pressiona um minúsculo botão na haste dos seus óculos de massa vermelhos] e estou a fazer um vídeo desta entrevista. Eu sou um ‘mojo’, um ‘jornalista mobile’, um ‘jornalista de selfies’, um ‘jornalista de jeans’. Uso o meu telemóvel e outra tecnologia que posso ‘vestir’, uso drones, mais nada. Tudo isto me serve para contar as histórias que eu quero contar.

E porque é que elegeu exclusivamente essa forma para as contar?

A primeira vantagem é o custo, que é muito reduzido comparando com a montagem de toda uma redação com equipamento de topo. Os meios de comunicação tradicionais estão todos a cortar nos custos e como eu sempre quis fazer vídeo, que também é o meio o mais caro, encontrei esta forma de o fazer sem depender de ninguém que me desse dinheiro para o fazer - e eu até tentei mas ninguém acreditou nas minhas ideias malucas, diziam-me que era muito novo, que ainda não tinha cabelos brancos, etc. Na Revolução Árabe tudo fez sentido e o telemóvel tornou-se a forma mais orgânica de produzir vídeo. Além disso, o que a mim me diz muito é a forma intimista como conseguimos capturar reações e emoções sem assustar ninguém porque as pessoas esquecem-se da presença do telefone. É uma forma mais pessoal de contar as histórias. É uma forma também de atingir muita gente e é fácil treinar jornalistas em todo o mundo se todos estivermos a produzir em telemóveis.

O jornalismo bom continua a ser aquele que oferece a maior variedade de pontos de vista possível

Como é que a aventura de ser ‘mojo’ começou?

Começou à boleia. Acabei uma pós-graduação em Jornalismo na Rhodes University e queria ser correspondente, queria contar histórias de dentro do continente africano e como as companhias de media estavam a cortar nos seus orçamentos, como já disse, arranjei esta forma. Peguei nas minhas t-shirts antigas e fui da África do Sul à Síria, de Durban a Damasco são 12 mil quilómetros. Pela costa leste fui contando as histórias das pessoas que ia conhecendo e colocava-as no Facebook, em blogues. Dormi em igrejas, hospitais, na rua, em casas de pessoas amigas de outras pessoas amigas de outras pessoas. Cheguei ao Egito e estava a acontecer a Primavera Árabe, foi aí que publiquei nas primeiras páginas de vários jornais sul-africanos, foi a minha primeira grande história. Mesmo quando depois já tinha equipamento e trabalhava numa empresa estabelecida, dava por mim a usar na mesma o telemóvel - pelo imediatismo, pela intimidade, pela facilidade em manusear. Foi aí que entendi que podias ser só uma pessoa e mesmo assim encontrar forma de contar as histórias que queremos contar.

E as pessoas das comunidades às quais vocês querem dar voz não têm hipótese se aceder a câmaras, luzes, programas de edição?

Exato e também deixa de ser tão laborioso todo o processo, não é caro. Mas, além disso, o jornalismo bom continua a ser aquele que oferece a maior variedade de pontos de vista possível. Ter muitas fontes significa que terás uma história melhor e fazer jornalismo no telemóvel significa que temos acesso a uma quantidade incrível de histórias que nunca poderíamos ter de uma forma tradicional - por exemplo, pelo telefone, a ligar ou ir aos locais ouvir as pessoas.

Não considera que esta forma de contar histórias pode pôr em causa a profundidade e o tempo e a dedicação com que certos temas devem ser tratados?

Não acho que se perca profundidade de todo e acho que não devemos confundir tecnologia com formatos. Podemos fazer jornalismo de investigação, peças extensas, podes fazer jornalismo de dados, podes fazer isso tudo utilizando o telemóvel como base. Mas as pessoas por vezes veem os vídeos de um minuto, com legendas em letras gordas e emojis e pensam logo ‘que forma trivial de abordar este assunto’ mas não confundamos o pacote com a substância do trabalho, do conteúdo.

Há uma migração assombrosa das pessoas para as telas verticais

Sumaya Omar, cofundadora do Hashtag Your Stories, falou recentemente à página Journalism.co.uk e disse que o futuro do jornalismo já nem é o digital, ou seja, já não são as páginas da internet nem sequer as redes sociais mas sim as chamadas “stories”, pequenos vídeos que duram 24 horas nas redes socais e depois desaparecem. Pode explicar-nos isto?

O panorama das redes sociais vai mudar muito brevemente. O chamado ‘mural’ perderá importância e serão as ‘histórias’ a dominar as redes sociais. Há uma migração assombrosa das pessoas para as telas verticais. Em primeiro lugar, a mudança será quanto ao tempo que essas publicações duram. Nesse período de 24 horas és muito mais relevante do que o serias num formato convencional, com um publicação ‘normal’. Se publicarmos alguma coisa no Facebook ou no Twitter, durante as primeiras três horas até podemos estar ‘lá em cima’ mas depois ficas soterrado. Cada vez que colocas uma história nova ou acrescentas conteúdo à tua história voltas lá acima e durante esse período de tempo és muito mais relevante. E a própria efemeridade das histórias vai mudar, agora há o Snapchat ‘memories’, o Instagram salva as tuas histórias. Não penses nas 24 horas que desaparecem, pensa em formatos multimédia. A tela vertical consegue conter todos os formatos.

Como assim?

O New York Times pode ter nas suas histórias um formato em que tu lês e lês e lês muito texto e o Facebook já anunciou que vai começar a ser possível pôr áudio nas tuas histórias e vídeos em 360º, depois tens os gif, entre tantas outras coisas. Há imensas camadas. É tudo em um. Temos de nos afastar da ideia de que vamos procurar um sítio específico para ver vídeo, outro sítio para ler, outro sítio para ir ouvir rádio. Neste momento somos uma sociedade ‘texto para conteúdo’, ou seja, procuramos um vídeo no Youtube através de texto, encontramos os nossos amigos no Facebook escrevendo mas isto é ‘vídeo para vídeo’. Há uma tela vertical com imagens e clicas para mais imagens, outros vídeos, etc.

Quando filmamos e editamos em telemóvel, os conteúdos são três vezes mais populares do que aqueles que produzimos nas raras vezes em que usamos câmaras profissionais

Quando começou o projeto Hashtag Your Stories, notou uma coisa interessante: alguns países com pirâmides demográficas francamente jovens são também aqueles em que a internet chegou já em forma de 3G ou 4G nos telemóveis e não através de um computador. De que forma é que isso influencia a forma como as notícias são produzidas nesses mercados?

Em todo o mundo estamos a assistir a comunidades previamente marginalizadas que estão a pular passos inteiros no acesso à internet e a ter acesso a informação de uma forma completamente democratizada. É muito entusiasmante porque há uma data de coisas que são caras e que eles já não precisam, como fibra ótica, mas também é fascinante porque a forma como eles consomem o conteúdo noticioso não tem nada que ver com a forma como o fazemos numa televisão ou num computador. Quando construímos conteúdo para telemóveis temos de saber como ele é consumido e minha experiência é que quando filmamos e editamos em telemóvel, os conteúdos são três vezes mais populares do que aqueles que produzimos nas raras vezes em que usamos câmaras profissionais.

Na Índia coordenou um projeto que envolvia ter mais de 700 jornalistas em 26 escritórios diferentes do jornal “Hindustan Times” a produzir histórias como um telemóvel. Como foi essa experiência?

Nos últimos quatro meses estivemos em 40 países a treinar repórteres para utilizar o telemóvel e a Índia foi de longe o mais entusiasmante. Só 20% da população tem acesso contínuo à internet e mesmo assim o Facebook cresce duas vezes mais do que nos Estados Unidos, por exemplo, e só estão a aquecer. Vai ser gigantesco. Se queres olhos no teu conteúdo, é na Índia que tens de estar. O maior desafio foi encontrar forma de ensinar pessoas que, ao todo, tinham 75 tipos de telemóveis diferentes. Aqui há iPhones e Samsungs, lá tinhas tudo, desde um telemóvel de quatro dólares até ao último modelo do iPhone. A fragmentação é imensa: da redação e da audiência. Os dados ainda são muito caros em países em desenvolvimento e isso também é um grande desafio: como é que se pega num vídeo e se transforma aquilo num gif de dois megabytes de forma a que toda a gente, mesmo com internet lenta e cara, lhe possa aceder. Acho desafiante tornar o conteúdo interessante e o menos pesado possível.

E de que forma isso mudou a forma como se fazem notícias lá?

A forma mojo de fazer jornalismo agora está na frente em todos os principais jornais indianos, não só do “Hindustan Times”. Todos estão a experimentar. Foi uma mudança fundamental na forma como todas as empresas de media produzem os seus conteúdos. As maiores estão a pensar seriamente em dar prioridade ao jornalismo feito e consumido primeiramente no telemóvel.

Dar prioridade ao telemóvel era para ontem. Isso tem de ser feito rapidamente mas já nem é o futuro

Não pensa em criar uma app própria? Neste momento, confia no potencial de plataformas que já existem mas assim fica preso a algoritmos que não controla ou que podem simplesmente banir o seu conteúdo, por exemplo. Não o preocupa?

Claro que sim. Estamos completamente dependentes de plataformas que são propriedade de outras pessoas, algoritmos que não desenhámos. Esta manhã, o nosso pessoal na África do Sul fez uma história sobre canábis para uso medicinal e eu paguei para que estivesse no topo da página do Facebook, como tantas marcas fazem, mas eles bloquearam-nos esse serviço por razões ideológicas, políticas internas e tudo isso. Isso para mim foi um ataque à minha liberdade de expressão. Porque é que eu tenho de assinar por baixo os valores do Facebook? É um problema, um risco. Eu quero focar-me em contar histórias e deixar as plataformas das redes sociais fazer o que fazem melhor - armazenar, partilhar, distribuir, etc.

Essas plataformas podiam fazer mais por grupos como o seu, que não são mais independentes e não têm nome reconhecido?

Eles ainda dão a fatia de leão da publicidade e do espaço a essas marcas mais estabelecidas. E oferecem mais dinheiro aos meios tradicionais para desenvolverem os seus produtos. O problema é que isto acaba por solidificar o sistema, o status-quo.

Diz também que o ‘digital primeiro’ já não deve ser a prioridade e que mesmo o ‘telemóvel primeiro’ também já não durará muito. Então o que vai ser?

Dar prioridade ao telemóvel era para ontem. Isso tem de ser feito rapidamente mas já nem é o futuro. Hoje já é a era da tecnologia que se usa, a era em que a informação aparece na periferia da nossa visão, com visores que estão perto da nossa cara, por exemplo, e que nos permitem utilizar realidade aumentada e interagir com ela como se fosse um link. Amanhã será o dia da inteligência artificial, que é quando vamos dar às pessoas coisas que elas ainda não pensaram e seremos melhores a verificar tudo, o que é extremamente importante.

Como faz isso com tantos repórteres em tantos países e com tantos níveis de experiência diferentes?

Nós não vamos buscar vídeos à internet para verificar se são ou não verdadeiros e depois publicar. Nós trabalhamos apenas com conteúdo próprio, com cada indivíduo. Os nossos colaboradores não são cidadãos-jornalistas, são repórteres, nós treinamos estas pessoas e mesmo assim tudo o que eles produzem ainda vem para as redações locais, onde é editado como numa redação tradicional.

E como é que vai ser o jornalista do futuro?

Toda a gente pode ser jornalista, toda. O que nos distingue é um corpo de valores éticos partilhados e não a pertença a uma marca famosa. Os dias de sermos apenas um fotógrafo, apenas um videógrafo, apenas um jornalista de imprensa, acabaram. Para sobrevivermos temos de ter uma abordagem holística ao jornalismo e temos de ter mesmo muitas armas ao nosso dispor - um drone lá em cima e o Facebook em modo ‘live’ na outra mão que não está a controlar o drone. Temos de parar de evitar aprender a mexer em tecnologia e abraçar isso.