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Rohingya

Os bebés da vergonha

Rohingya grávida, à entrada da sua cabana, num dos campos de Cox’s Bazar, em janeiro deste ano Foto Masfiqur Sohan / NurPhoto / Getty Images

Rohingya grávida, à entrada da sua cabana, num dos campos de Cox’s Bazar, em janeiro deste ano Foto Masfiqur Sohan / NurPhoto / Getty Images

Quase um ano após o início das agressões sexuais, em Myanmar, contra milhares de mulheres rohingya, os campos de refugiados no Bangladesh estão cheios de bebés... que ninguém vê. Vergadas à vergonha, muitas lidam com essas gravidezes indesejadas no interior das tendas, longe de olhares reprovadores e de assistência médica. A fundadora da organização não governamental Projeto Dignidade dos Sem Estado conta ao Expresso o que por lá viu

Texto Margarida Mota

Quando se anda pelos campos de refugiados rohingya no Bangladesh mal se veem mulheres grávidas. Não que as não haja, mas simplesmente não se fazem notar. “Eu tinha a expectativa de ver muitas mulheres em adiantado estado de gravidez e também recém-nascidos, mas fiquei um pouco chocada pois não vi quase nenhuns”, confidencia ao Expresso a norte-americana Ashley Kinseth. “Acho que vejo mais grávidas e recém-nascidos em Nova Iorque do que vi nos campos, apesar de haver ali ‘toneladas’ de crianças.”

Em junho, a fundadora e diretora do Stateless Dignity Project (Projeto Dignidade dos Sem Estado) passou dois dias nos acampamentos rohingya na região de Cox’s Bazar, sudeste do Bangladesh. A sua expectativa decorre de uma leitura fria da brutalidade que aquela comunidade — e as suas mulheres em particular — enfrentou nos últimos meses no país onde vivia, Myanmar, a antiga Birmânia.

Em agosto do ano passado, uma vaga de perseguição à minoria muçulmana naquele Estado de maioria budista, levada a cabo pelo exército, obrigou mais de 700 mil rohingya a fugirem de casa com pouco mais do que a roupa do corpo e a procurar refúgio no vizinho Bangladesh — mais de 55% de quem se fez à estrada eram crianças.

Pelo caminho e, antes, durante a invasão às aldeias, milhares de mulheres e meninas foram violadas. Quase um ano depois, muitas lidam com o trauma de gravidezes e filhos indesejados no interior de tendas de plástico e bambu, escondidas de olhares reprovadores. “De um modo geral, as mulheres das comunidades rohingya tendem a ficar ‘dentro’, especialmente no final da gravidez ou logo após o nascimento do bebé”, diz Ashley. “É muito difícil ter grande privacidade nos acampamentos mas, mesmo assim, imagino que muitas dessas mulheres” — especialmente se suspeitarem que o bebé possa ser fruto de uma violação — “possam ‘esconder-se’ em casa, provavelmente com algum apoio da família, por vergonha das gestações.”

De porta a porta num campo com 600 mil pessoas

Em maio, após visitar os campos de Cox’s Bazar, o subsecretário-geral das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Andrew Gilmour, alertou para um “inevitável aumento de nascimentos devido ao frenesi de violência sexual em agosto e setembro do ano passado”. Gilmour denunciou também casos de raparigas com 14 anos que sofriam de complicações provocadas por abortos autoinduzidos.

Organizações no terreno reforçaram os seus quadros de pessoal antecipando um “boom” de nascimentos. Foi o caso do Fundo das Nações Unidas para a População, que destacou 60 parteiras adicionais, qualificadas em matéria de agressões sexuais e planeamento familiar. Mas as rohingya não as procuram, preferindo lidar com a sua condição na intimidade possível das tendas.

Alegria à volta de um recém-nascido, num acampamento rohingya, em janeiro deste ano Foto Masfiqur Sohan / NurPhoto / Getty Images

Alegria à volta de um recém-nascido, num acampamento rohingya, em janeiro deste ano Foto Masfiqur Sohan / NurPhoto / Getty Images

Em janeiro, a organização Save the Children estimou em 48 mil os nascimentos esperados, este ano, nos campos do Bangladesh — uma média diária de 131 bebés. Confirmá-lo implicava ir porta a porta, tarefa impossível por exemplo numa “cidade”, como é o campo de Kutupalong, onde vivem 600 mil dos 900 mil rohingya alojados em Cox’s Bazar.

“Não sabemos em que medida os bebés que estão a nascer agora foram concebidos num contexto de violência, porque, dada a sensibilidade do assunto, nem todos os casos são relatados, mas também porque nem todos os bebés serão produto de violência”, diz ao Expresso a mexicana Beatriz Ochoa, do escritório da organização Save the Children no Bangladesh. “Dito isto, não quero depreciar a violência sexual que os refugiados viveram. Há meninas e mulheres que passaram pela horrível experiência de serem violadas e ficaram grávidas, e nalguns casos enfrentam agora a estigmatização e os riscos de terem um bebé fora do casamento e como resultado de uma agressão sexual.”

Enfrentar o estigma ou abortar pelas próprias mãos?

Muitas rohingya estão, pois, confrontadas com uma escolha angustiante: lidar com o estigma ou abortar. Jasmeen Zafar Chowdhury, uma médica bengali que trabalha numa maternidade montada pela organização Friendship, diz cautelosamente ao Expresso: “Temos tido casos de parto, mas não podemos correlacioná-los com situações de estupro ou agressão sexual. Em menor número, também recebemos casos complicados, como abortos incompletos”.

Mulher em trabalho de parto, numa clínica no campo de refugiados de Kutupalong, em outubro de 2017 Foto Munir Uz Zaman / AFP / Getty Images

Mulher em trabalho de parto, numa clínica no campo de refugiados de Kutupalong, em outubro de 2017 Foto Munir Uz Zaman / AFP / Getty Images

Num contexto onde não faltam assuntos difíceis, a começar pelas memórias dos ataques às aldeias, as gravidezes que decorrem da campanha de violações é “um assunto tabu”, refere Ashley Kinseth. Mas a comunidade esforça-se por enfrentá-lo. “Embora o estupro seja, por tradição, algo extremamente estigmatizado, para estes rohingya não há como o negar. As pessoas com quem falei recordam-se de ver as meninas e mulheres das suas aldeias a serem violadas. Embora seja para eles profundamente doloroso lembrá-lo, creio que o estigma não se coloca, antes são vistas como vítimas. Foram muitas as pessoas que testemunharam esses atos. Estigmatizar essas mulheres seria ostracizar uma grande parte da população feminina potencialmente disponível para se casar e gerar filhos.”

O pesadelo destas mulheres não termina no momento em que dão à luz. Para todo o sempre, verão nos rostos não totalmente rohingya dos seus filhos as feições dos seus agressores. Num recado à comunidade internacional, Abdur Rahim, um líder da comunidade rohingya, afirma: “Esses bebés são provas dos crimes” cometidos pelo exército birmanês.