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Bernardo Ferrão

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Bernardo Ferrão

Um comunista pode ir a um hospital privado?

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A fotografia do deputado comunista António Filipe na sala de espera de um hospital privado fez furor nas redes sociais. Quem publicou a foto queria passar uma mensagem: apontar a hipocrisia dos comunistas. Aliás, para sublinhar a contradição da esquerda, o post incluía uma segunda foto, tirada à porta do tal hospital privado a um cartaz do PCP onde se lê em letras garrafais: “A saúde é um direito, não é um negócio!” Esta é a história do feitiço que se vira contra o feiticeiro.

É óbvio que um comunista pode ir a um privado. Tal como um bloquista também pode recorrer a um hospital PPP. Mário Soares, fundador do partido que criou o Serviço Nacional de Saúde, não acabou os seus dias num privado, na Cruz Vermelha? Qual é o problema? Alguém ficou a achar que Soares deixara de acreditar no serviço público? Este assunto só ganha existência e (algum) interesse porque choca de frente com a doutrina dos comunistas – e não falo apenas deste caso. São vítimas de uma cartilha que os faz tropeçar na incoerência. Ao olharem o mundo a preto e branco, António Filipe e os seus camaradas toldam os seus próprios movimentos. A tal ponto que uma fotografia sem interesse de um comunista numa sala de espera de um hospital privado é exibida nas redes como se fosse um valioso prémio de caça. Ou a metáfora perfeita da contradição.

Não concordo com a publicação da fotografia de António Filipe. O que o levou ao hospital, àquele hospital, só a ele diz respeito. É a livre escolha. Mas é fácil perceber porque é que o caso chegou aos jornais e assumiu alguma polémica. Quando o PCP escreve num cartaz que a saúde é um “direito” e não um “negócio” mostra a forma altamente ideológica como trata estes temas. Com a sua visão maximalista do Estado, os comunistas não admitem que possa haver um meio-termo. Ou é uma coisa ou é outra. Mas a saúde pode ser as duas coisas: um “negócio” que se for bem gerido – que é coisa que não tem sido – garante, mais plenamente, o “direito” à saúde.

Um comunista pode ir a um hospital privado? Claro que pode. Mas enquanto permanecerem no seu gueto ideológico, os comunistas vão continuar a ser presas fáceis da sua ideologia e das redes sociais – que não devem ser desvalorizadas

Depois, não podemos esquecer que são estes comunistas que exigiram as 35 horas que estão a afetar, e muito, os hospitais públicos. São também eles que pactuaram com Mário Centeno e os seus orçamentos cheios de cativações e vazios de investimento que continuam a fragilizar o SNS, e são também eles que se batem contra as Parcerias Público Privadas na saúde numa atitude pouco coerente: confiam num privado para o seu particular mas já não admitem que esse mesmo privado possa gerir o serviço que é de todos. Sorte a de António Filipe que tem alternativa e ADSE. Azar dos utentes do público que encontram hospitais do Estado a rebentar pelas costuras, com gigantescas listas de espera, sem meios e com falta de pessoal. E, quem sabe, com uma manifestação da CGTP à porta que grita contra o orçamento de austeridade que, imagine-se, foi também aprovado pelo PCP.

Um comunista pode ir a um privado? Claro que pode. Mas enquanto permanecerem no seu gueto ideológico, os comunistas vão continuar a ser presas fáceis da sua ideologia e das redes sociais – que não devem ser desvalorizadas. Jerónimo de Sousa que tanto gosta de recorrer aos adágios populares não devia ignorar aquele que diz: olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço. Os mitos também caem assim, parecem reais mas vamos percebendo que não passam de meras ilusões.