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Arábia Saudita. “Haverá dias em que se calhar Jesus vai dizer: ‘vou fazer a mala e vou-me embora’”

Quim Machado e Valdo Alhinho estiveram sete meses no Al-Batin e adivinham dificuldades para Jorge Jesus enquanto treinador do Al Hilal, com o qual assinou contrato esta terça-feira. “Nesta fase inicial ou se treina às cinco, seis da manhã, depois da reza, ou à noite. De dia é impossível”

Texto Hugo Tavares da Silva

Só lhe tinha acontecido uma vez aquela rotina de fazer a mala, juntar o bilhete de embarque ao cartão de identidade e encher a mochila de ideias. Depois de quase cinco anos em Felgueiras, em que viveu uma subida à Primeira Divisão e uma descida no ano seguinte, Jorge Jesus mudou-se para o União da Madeira. Estávamos em fevereiro de 1998. Ficaria por lá apenas um mês, mas entranhava-se nele a sensação de entrar num avião, furar as nuvens e suspirar por dias melhores. Pouco mais de 20 anos depois, um dos treinadores que mais impacto teve na evolução do jogo em Portugal muda-se para a Arábia Saudita, para treinar o campeão, Al Hilal.

Jesus, um homem de fé no trabalho metódico e inspirado pelo futebol holandês, esteve sempre em destaque desde que, em 2009, aterrou no Estádio da Luz, com promessas de montar uma equipa a jogar o dobro. Conquistou troféus e valorizou muitos jogadores, mas os dissabores andaram sempre ali, de mão de dada, para que a história nunca se transformasse num conto de fadas. Houve dias negros, seja por finais perdidas ou palavras desavindas, mas nada se comparou ao desfecho desta história por terras lusas, com a invasão de 50 adeptos à academia do Sporting. A saída, que já pairava no ar após alegadas divergências com o presidente do clube, era uma questão de tempo. A confirmação da mudança para o Al Hilal chegou na terça-feira. Mas, afinal, o que vai encontrar Jesus na Arábia Saudita?

“A sensação era de que íamos morrer”

Quando Quim Machado aterrou pela primeira vez neste país, em maio de 2017, sentiu um soco em forma de onda de calor e engoliu em seco: “A sensação era de que íamos morrer”. Não dá para estar na rua. Treina-se e joga-se à noite, às vezes com 42º Celsius. Os jogadores sauditas vivem o dia ao contrário, deitam-se de madrugada, apagando as manhãs dos calendários. A organização dos clubes não é a ideal. Por isso tudo, o ex-treinador da Académica que esteve sete meses no Al-Batin considera que Jorge Jesus vai sentir dificuldades para “dar a volta aos jogadores” do Al Hilal.

Quim Machado foi um dos treinadores portugueses que passou pela Arábia Saudita Foto Rui Duarte Silva

Quim Machado foi um dos treinadores portugueses que passou pela Arábia Saudita Foto Rui Duarte Silva

“Eu acho que é um país muito difícil para se viver”, diz ao Expresso Quim Machado, ex-treinador de clubes como Académica, Belenenses e Vitória de Setúbal. “É uma cultura completamente diferente. Estamos habituados a uma organização de topo mundial e por lá enfrentamos o oposto, são completamente desorganizados. Os europeus têm muita dificuldade na adaptação, ao contrário dos brasileiros e dos africanos.”

O Al-Batin de Machado treinava normalmente ao fim do dia, pelas oito da noite. O inverno amansa o termómetro e passa a haver treinos de manhã e de tarde. “Nesta fase inicial ou se treina às cinco, seis da manhã, depois da reza, ou à noite. De dia é impossível”, explica.

Quim Machado revela que Jesus vai sofrer com o choque cultural. “Acho que ele vai ter problemas para impor a sua exigência. Eles deitam-se às quatro, cinco da manhã. A manhã, para eles, não existe. Dormem até à uma, duas da tarde. Não têm a exigência que temos, da perfeição, do treino, do deitar cedo. Comem tudo. Não têm cuidados, embora nos grandes clubes seja diferente.”

E Jesus vai para um clube grande. “É o melhor do país, é o Benfica da Arábia Saudita, com mais adeptos, história, são fortíssimos”, garante Valdo Alhinho, ex-jogador do Al-Batin, que se sentiu num forno quando aterrou em Riade (47º C à noite). “Se conseguir passar a barreira da comunicação, penso que o mister Jesus se vai dar muito bem. No início pode ter algumas dificuldades para conseguir transmitir as ideias dele”, arrisca, lamentando que o tradutor “muitas vezes corta a emoção das palavras”.

Foto Getty Images

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Alhinho, que passou por clubes como Oriental, Valletta (Malta) e FK Jelgava (Letónia), esteve seis meses no Al-Batin, período em que passou por uma grande solidão. Por não ser casado, o médio, de 29 anos, não pôde levar a namorada. Essa situação de isolamento levou o futebolista a um choque com a direção do clube, algo que foi amenizado pela intervenção de Quim Machado, que lhe garantiu alguns dias de folga em Portugal. “Houve alturas em que a solidão era mesmo muita, é das piores coisas que sentimos na Arábia Saudita, principalmente se não formos casados. Em seis meses vim uma vez a Portugal.”

O campeonato é competitivo, garantem estes dois homens do futebol que passaram pelo país que agora recebe Jorge Jesus. “Existem bons treinadores e jogadores. É o campeonato mais competitivo do Golfo. O problema está na organização. Há dinheiro, mas têm de melhorar”, garante Machado. Alhinho vai mais longe: “Diria que grande parte das equipas jogaria facilmente na Primeira Liga portuguesa, são como um Setúbal, um Tondela. Precisavam de mais organização diretiva. Tecnicamente e taticamente são bons.”

O calor convida a uma vida recatada. Muitas horas no hotel, mais umas quantas em restaurantes e centros comerciais. “Durante o dia não se pode fazer nada”, revela Alhinho. “A temperatura chega a 52º C, 55º, é impossível estar na rua. Algumas vezes íamos ao restaurante ou ao shopping fazer compras, mas tinha de ser muito rápido a entrar no carro e ligar o ar condicionado. Os jogos são à noite. Mas mesmo assim chegava aos 42º. Eu tive muita dificuldade nas duas primeiras semanas, mas depois vai esfriando e o corpo habitua-se.”

Sete meses a comer frango

Quim Machado esteve praticamente sete meses a comer frango, conta entre risos, recusando as aventuras gastronómicas dos sauditas. Valdo Alhinho abraçou o contexto. “Estranhámos comer com as mãos, num prato para muita gente, sentados no chão. Foi um bocadinho difícil de acostumar, mas acabámos por entrar na cultura e sentimo-nos confortáveis. E também queríamos deixá-los confortáveis.”

As pessoas foram uma surpresa para ambos. Não são fechadas, ajudam, são humildes e generosas, dizem. “Mas não têm a nossa dinâmica”, lamenta Machado. Alhinho diz que nos seis meses no Al-Batin teve porventura “o melhor balneário da sua carreira” (ambiente de equipa).

Os locais apreciam os métodos dos treinadores estrangeiros e até a forma “calorosa” de atuar dos portugueses, que “trabalham a tática e a mente”, conta Alhinho. Apesar de o treinador português gostar de ter “tudo direitinho e estar confortável”, algo difícil de acontecer na Arábia Saudita, Quim Machado adivinha sucesso para Jorge Jesus. “Ele vai conseguir ganhar, não tenho dúvidas. Mas haverá dias em que se calhar ele vai dizer: ‘vou fazer a mala e vou-me embora…’”