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“Quando o rei ia para Évora, ia toda a gente para Évora. Com Aga Khan vai ser igual”

FOTO MARK BLINCH/REUTERS

FOTO MARK BLINCH/REUTERS

É “uma mistura de rei, Papa e Deus vivo” e move multidões, como ficará claro nos próximos dias, com a chegada de milhares de fiéis a Portugal, para assistir às comemorações dos seus 60 anos enquanto líder dos muçulmanos ismaelitas. Há quem ache que continuará a mover, depois de instalar a sede global da sua comunidade cá, à maneira dos reis antigos. Um ismaelita que veio de Londres de propósito para as celebrações avisa: “A nossa integração aqui foi bem-sucedida, mas que isso não se confunda com ausência de racismo e islamofobia em Portugal”

Texto Helena Bento

A “segurança de Portugal” em comparação com os restantes países onde a comunidade muçulmana ismaelita está instalada tem sido apresentada, por historiadores e outros especialistas, como o critério que determinou a escolha do país para acolher a sede mundial do Imamato Ismaelita, que será inaugurada em breve.

Sadiq Habib, antropólogo e investigador no Reino Unido, e ele próprio membro desta comunidade religiosa, concorda, mas avisa desde logo que “é preciso evitar cair em discursos celebratórios e excecionalistas”. “A nossa integração aqui foi bem-sucedida mas que isso não se confunda com ausência de racismo e islamofobia em Portugal. Certos discursos procuram negar ou menorizar a existência dessas situações, mas elas existem”, diz ao Expresso.

Feita a ressalva, Sadiq Habib, que tem 33 anos e faz parte da primeira geração de muçulmanos ismaelitas a ter nascido em Portugal depois de a comunidade se ter instalado no país, após o 25 de Abril, diz-se satisfeito por ver instalada no nosso país a sede mundial do ramo do Islão a que pertence. “Estamos gratos a Portugal por ter-nos acolhido desta forma tão positiva, facilitando a instalação da sede aqui. Isto responde a um processo de vários anos e de vários governos que permitiu um encontro de vontades.”

O palacete que será a futura sede do Imamato Ismaelita, no Palácio Henrique Mendonça, onde se situava a sede da Nova School of Business & Economics (o investimento terá rondado os 12 milhões de euros), em Lisboa, será um dos pontos de paragem do Príncipe Karim al-Hussaini - de título Aga Khan IV e dito descendente do profeta Maomé - que está de visita a Portugal para celebrar os seus 60 anos enquanto líder da comunidade religiosa que congrega 15 milhões de muçulmanos xiitas em todo o mundo.

As celebrações começam esta sexta-feira, 6 de julho, e prolongam-se até dia 12. É esperada a participação de 45 mil fiéis, um número que poderá, contudo, ser ultrapassado, segundo explicou ao Expresso uma fonte do Imamat Ismaili em Portugal, entidade que supervisiona a Fundação Aga Khan em Portugal (AKP). Aga Khan ficará hospedado num hotel da capital e será recebido pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no Palácio de Belém. Tem também encontro marcado com o primeiro-ministro, António Costa, no Palácio Foz.

O que é que isto significa para mim? “É difícil expressar em palavras”

Sadiq Habib, investigador e especialista em estudos islâmicos, que veio de Londres para participar nas celebrações, não esconde o “orgulho” de poder estar aqui. “A comunidade está a celebrar um marco na sua história, de 1400 anos. É óbvio que eu, como membro, estou aqui com muita alegria. O jubileu [Jubileu de Diamante, nome dado à cerimónia dos 60 anos, que teve início em julho do ano passado e termina agora em Portugal] é sempre um marco na vida de uma comunidade como a nossa”, diz Sadiq, reconhecendo a “dificuldade em expressar por palavras” a importância deste evento.

Mas continua: “Que seja possível celebrar isto nas condições atuais, e dado tratar-se de uma comunidade minoritária, que nem sempre teve uma história positiva dentro do Islão, com momentos de conflito e de perseguição, e até de genocídio, é motivo de felicidade para mim e para as pessoas que vêm de todos os cantos do mundo para celebrar este acontecimento. É uma ocasião única e um evento muito raro na vida dos muçulmanos ismaelitas.”

Centro Ismaili de Lisboa, nas Laranjeiras, Lisboa D.R.

Centro Ismaili de Lisboa, nas Laranjeiras, Lisboa D.R.

A escolha de Portugal para instalar a sede mundial do Imamato foi uma decisão pessoal do príncipe Aga Khan e têm sido muitos aqueles que perguntam - mas porquê Portugal, país onde se estima que haja apenas cerca de sete mil muçulmanos ismaelitas? Do Imamat Ismaili em Portugal, a resposta que chega é esta: “Portugal é um país que Aga Khan conhece muito bem. Já visitou várias vezes e tem cá vários amigos”.

Depois, acrescenta a mesma fonte, “há a questão geoestratégica, pelo posicionamento de Portugal no mundo, que está a meio caminho entre a América, nomeadamente a América do Norte, onde a comunidade ismaelita é muito grande, e todos os países da Ásia Central e países de África”.

Uma terceira razão terá que ver com o facto de o príncipe “considerar Portugal um país de grande tolerância e historicamente muito aberto ao mundo, que é um pouco como a entidade que ele próprio dirige, uma entidade supranacional”. “Aga Khan não é príncipe de um país nem de um Estado, é líder de uma comunidade que vive no mundo inteiro e é absolutamente ultranacional”.

Oriundos maioritariamente do Paquistão, Índia e costa oriental de África, os muçulmanos ismaelitas deixaram esses países após a descolonização britânica e passaram a ter mais presença no mundo anglo-saxónico, como o Canadá e a Inglaterra, mas também em Portugal, onde se instalaram após o 25 de Abril.

A fundação Aga Khan foi criada em 1983. “Saíram de Moçambique com dinheiro e sem crise. Vieram para cá e começaram a ganhar imenso dinheiro novamente. Durante muito tempo, tomaram conta de todas as lojas de móveis da Almirante Reis [Lisboa]. Quando aquilo começou a não dar dinheiro, passaram para os restaurantes”, diz ao Expresso José Pereira Bastos, antropólogo especialista em minorias étnicas e professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Atualmente, os muçulmanos ismaelitas têm presença nas elites empresariais e académicas de cerca de 30 países, através da rede Aga Khan para o Desenvolvimento (AKDN). Em Portugal, mantêm-se no comércio de móveis, vestuário e hotelaria, sendo proprietários da cadeia Vip Hotels, com hotéis no continente, Açores e Moçambique, e do grupo Azinor, dono da cadeia Sana, com mais de 10 unidades hoteleiras em Portugal e outras em países como Alemanha e Angola.

Os principais investimentos têm sido na construção de hospitais, mesquitas, universidades e escolas, e no apoio a programas de desenvolvimento em várias regiões. José Gabriel Pereira Bastos traça o perfil da comunidade: “Tem uma boa imagem, totalmente não conflitual e não envolvida em conflitos internacionais, e exemplarmente pacífica. De todas as comunidades com raízes indianas em Portugal, é a mais desenvolvida, está bastante acima das outras nesse sentido. É muito organizada e tem um planeamento a médio prazo, ao ponto de eu considerar que são mais uma multinacional do que uma religião, embora obviamente também seja uma religião”.

Também o “fator segurança” foi, na opinião do antropólogo, crucial para a escolha de Portugal. “Em nenhum outro país teriam a segurança que têm aqui. Para os islâmicos, somos o país onde não há crimes contra muçulmanos nem terrorismo. A ‘geringonça’ estar no poder também ajuda, dada a abertura deste governo às várias etnias”.

FOTO JOSÉ CARIA

FOTO JOSÉ CARIA

A compra do Palacete Henrique Mendonça para instalar a sede mundial do Imamato Ismaelita foi, conforme noticiado pelo jornal “Público”, aprovada em Conselho de Ministros pouco depois de a família Aga Khan ter contribuído com 200 mil euros para a campanha pública destinada a comprar o quadro “Adoração de Magos”, do pintor Domingos Sequeira, em 2016.

A AKDN viria também a doar 500 mil euros para bolsas de estudo destinadas a crianças cujas famílias foram vítimas dos incêndios em Pedrógão e a assinar um acordo com o Governo português para a atribuição de 10 milhões em bolsas para investigadores. “A dada altura, percebeu-se que seria útil criar uma sede para ser o centro de todos os escritórios e entidades espalhadas pelo mundo inteiro”, explica fonte do Imamat Ismaili em Portugal.

Sadiq Habib diz ter sido apanhado de surpresa pelo anúncio da instalação em Portugal. “Não fazia ideia que vinha para cá, soube pelas notícias. Houve diálogo com outros países mas o imã lá terá as suas razões para ter escolhido Portugal.” Mas concorda com a decisão? “Não me cabe a mim concordar nem discordar. Enquanto membro da comunidade fico feliz, enquanto investigador tenho de tentar perceber”, responde Sadiq.

Que benefícios para Portugal e vice-versa?

As vantagens para Portugal em ter cá a sede mundial da comunidade são, na opinião de José Pereira Bastos, “evidentes”. “O Aga Khan é uma mistura de rei, Papa e Deus vivo. É muito discreto, muito ‘low-profile’, mas também muito poderoso do ponto de vista económico e internacional. Tem uma ligação muito forte a Inglaterra. Há muito dinheiro em jogo”. A instalação da sede em território português “reforçará”, portanto, “a posição política e económica internacional de Portugal”. “Primeiro foi o Guterres, depois o Centeno, depois o António Vitorino e agora é o Aga Khan aqui em Portugal”, sublinha o investigador.

Outra vantagem, já não política ou diplomática mas social e demográfica, será a possibilidade de a vinda do príncipe “travar o fluxo de pessoas com raízes indianas que estão a abandonar em massa o país”. “Conheço de perto a realidade da comunidade hindu em Portugal. Há uns anos eram dez mil, hoje são cerca de quatro mil. Estão todos a ir para Londres e Manchester, só cá têm ficado os mais velhos e algumas crianças. E este fluxo, obviamente, prejudica imenso Portugal, devido à nossa demografia negativa”, diz José Pereira Bastos, para quem a vinda do príncipe para Portugal poderá inverter esta situação.

“Com o Aga Khan cá, isto vira tudo. Regressam os dinheiros, os investimentos, e regressam os negócios. Era o mesmo na época da monarquia. Quando o rei ia para Évora, ia tudo atrás dele para Évora. Quando ia para Santarém, ia tudo para Santarém. E se Aga Khan vem para Portugal, então virá tudo atrás dele, famílias inteiras, tudo”.

O Palácio Henrique Mendonça, em Lisboa, foi vendido pelo Estado à Fundação Aga Khan, que ali instalará a sua sede mundial FOTO D.R.

O Palácio Henrique Mendonça, em Lisboa, foi vendido pelo Estado à Fundação Aga Khan, que ali instalará a sua sede mundial FOTO D.R.

Jorge Malheiros, especialista em migrações e investigador do Centro de Estudos Geográficos do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa, considera, por sua vez, que a instalação da sede do Imamato Ismaelita e da residência oficial do príncipe Aga Khan em Portugal poderá “abrir portas para novas relações económicas e políticas com outros continentes, nomeadamente Ásia e África, ou mesmo países como o Canadá, onde há também uma comunidade ismaelita relevante”.

“Os ismaelitas têm uma grande influência”. Interessará também ao país, continua o investigador, “ter grupos específicos como os ismaelitas num quadro dos interesses de atração nacional”, além “de figuras icónicas como a cantora Madonna”.

O especialista em migrações diz que há ainda uma componente simbólica e explica-a assim: “O discurso político tem assentado muito na interculturalidade e na diversidade religiosa e acolher esta sede vem legitimar esse discurso”. Ao contrário do especialista anteriormente citado, Jorge Malheiros não vê em Aga Khan a mesma capacidade de influência de monarcas portugueses antigos. “Não acho que a presença dele se reflita, em termos de investimento direto, num crescimento enorme. Do ponto de vista da gestão financeira e de projetos, certamente que mais coisas vão passar por aqui, mas isso não quer dizer que o investimento seja feito em Portugal”.

Sadiq Habib terá nos próximos dias a oportunidade de estar muito perto do príncipe Aga Khan. Não é a primeira vez que isso acontece, mas é sempre um momento de grande solenidade. Perguntamos-lhe o que mais admira no líder da sua comunidade mas Sadiq prefere destacar um dos projetos criados, em 1977, por Aga Khan - o Prémio Aga Khan para a Arquitetura, que, nas suas palavras, valoriza aqueles que são também os valores do Islão. “Há uma visão integral da arquitetura não só enquanto construção mas também como intervenção social. E num mundo e num contexto em que toda a gente grita e procura afirmar os seus valores religiosos através da violência e coerção, este prémio é exemplar na forma como mostra o que é a civilização muçulmana”.