MÚSICA | KEVIN MORBY
Como é que é possível sentirmo-nos tão sozinhos?
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George morreu sozinho em casa e ninguém soube, um rapaz confunde uma cidade com um fogo por causa do brilho das luzes, Mabel vive num apartamento em Manhattan do qual só sai sozinha à noite porque não consegue aguentar a luz do sol: as canções nascem de todas as coisas e estas nasceram da solidão, da saudade, da estranheza, do desamparo, das cidades. Dessas mesmas cidades onde vivemos tantos e tão sós. Kevin Morby fez um disco sobre estas coisas de onde nascem as canções dos trovadores urbanos
Texto Helena Bento
Kevin Morby leu e ouviu cantar sobre outras vidas e isso fê-lo pensar na sua própria vida. Leu no “New York Times sobre um homem, George, que tinha morrido dentro do seu apartamento, em Nova Iorque, sem que ninguém se tivesse apercebido disso ou ido bater à sua porta ao notar a sua ausência. Além de ler sobre esse homem que viveu e morreu sozinho, ouviu Nina Simone cantar sobre a solidão e o desespero de quem precisa de alguém como “o deserto precisa de chuva” e, por isso, continua à espera como “uma flor à espera de desabrochar”.
Kevin Morby leu e ouviu cantar sobre outras vidas e isso fê-lo sair de si mesmo e começar a ver a sua própria vida como se ela não lhe pertencesse e fosse outra coisa qualquer; começou a vê-la à distância; de cima e de baixo e de todos os ângulos possíveis. A vida de quem, durante anos e anos, viveu numa grande cidade como Nova Iorque, rodeado de muitas pessoas, entre colegas, conhecidos e amigos com quem chegou a tocar em bandas (Woods, The Babies), dividindo o seu tempo entre a música e os trabalhecos que ia arranjando para amealhar uns trocos para conseguir sobreviver (chegou a ser babysitter em troca de um teto para dormir). A vida de quem viveu assim dos 18 aos 25 e, de repente, se vê metido num lugar - Mount Washington, em Los Angeles - que não conhece nem está certo de querer conhecer, porque tudo mudou e nada será como dantes.
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Numa entrevista recente ao “Noisey”, site de música da revista “Vice”, Kevin Morby diz: “Continuava a ter vida social, mas estar sozinho ali era diferente. Foi a primeira vez que passei tanto tempo assim (...) Senti coisas que nunca antes tinha sentido (...) de alguma forma, era como se eu estivesse a levar-me a mim próprio à loucura (...) Como é que é possível sentirmo-nos tão sozinhos num sítio com tanto movimento?”.
É sobre essa solidão e desamparo, sobre os dias do seu abandono em Los Angeles, que Kevin Morby fala em “City Music”, o seu mais recente álbum, sucessor de “Singing Saw” (2016). O novo disco foi escrito da perspetiva de alguém que “vive em reclusão numa grande cidade”, conforme explicou o músico. Essa pessoa, que não é mais do que uma personagem criada por Morby, quase uma espécie de alter ego, chama-se Mabel e vive num apartamento em Manhattan, do qual só sai à noite, sozinha, porque não consegue aguentar a luz do sol (“Come to me now”); durante o resto do tempo, Mabel, que se sente “uma estranha num lugar estranho”, pára diante da janela e observa as pessoas lá em baixo, na rua, a caminhar muito rápido - “para onde é que elas vão e de que buraco é que saíram?” (“Tin can”) ou detém-se a pensar, já depois de cair a noite e cair o álcool no corpo, nos amigos que ficaram para trás (“Night Time”).
Kevin Morby nasceu em Lubbock, cidade relativamente populosa no estado do Texas. De lá foi para Detroit com os pais e de Detroit para Tulsa (Oklahoma). Sozinho, mudou-se depois para Kansas City, no Missouri, e quando fez 18 anos foi viver para Brooklyn. Foi aí que começou a dedicar-se mais à música; conheceu pessoas do meio, integrou uma banda (Woods) e formou outra (The Babies). Em 2013, mudou-se para Mount Washington, em Los Angeles, onde vive atualmente (embora continue a passar muito tempo em Kansas City, onde comprou uma casa no ano passado), para se dedicar aos seus próprios projetos. Lançou “Harlem River” em 2013 e “Still Life” em 2014.
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“Singing Saw” (2016) e “City Music”, lançado em junho deste ano, foram escritos e gravados mais ou menos na mesma altura, mas há diferenças assinaláveis entre os dois. Para gravar o novo álbum, Kevin Morby trocou os músicos de estúdio pela banda com quem toca ao vivo (Meg Duffy, Cyrus Gengras e Nick Kinsey) e trocou os arranjos imaculados e instrumentação densa pela crueza punk (ouça-se a “1234”, por exemplo, que é uma homenagem assumida aos Ramones e ao músico e poeta Jim Carroll) e pelos riffs de inspiração roqueira, tendo como faróis Patti Smith e Lou Reed. Outra figura importante aqui foi a escritora Flannery O'Connor, cujo livro “O Céu é dos Violentos” Kevin Morby diz ter lido enquanto escrevia o novo disco. Há, aliás, uma canção que se chama “Flannery”, na qual ouvimos uma voz feminina ler uma passagem dessa história, em que um rapaz confunde uma cidade com um fogo por causa do brilho das luzes.
Tal como Nina Simone canta em “Turn me on” sobre a espera e o desejo, sobre a necessidade sensual de um regresso infinitamente adiado, também Kevin Morby canta, em “City Music”, sobre a ausência e a saudade, sobre a sensação de perda e a expectativa de recuperar o que ficou para trás. “Quando é que voltas para casa?”, pergunta o músico norte-americano em “Come to me now”, numa voz lenta e arrastada que se sobrepõe ao som do órgão lá atrás. A pergunta pode ser dirigida a uma pessoa ou a mais do que uma pessoa (os tais amigos do passado de quem Mabel se recorde amiúde), mas pode também dirigir-se a um sentimento ou a um lugar, ou ao próprio tempo, o tempo da infância e da adolescência, o tempo da vida que passou. “Quando é que voltas?”