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Justiça

PSP acusado de racismo defende-se: “Quis entregar a farda. Uma ocorrência normal estragou-me a vida”

17 agentes da PSP são acusados de agressões e ofensas racistas. Todos querem falar em tribunal. Foto Miguel A. Lopes/Lusa

17 agentes da PSP são acusados de agressões e ofensas racistas. Todos querem falar em tribunal. Foto Miguel A. Lopes/Lusa

Depois de uma primeira audiência marcada pela contradição clara entre a acusação do Ministério Público e a versão dos agentes da PSP da esquadra de Alfragide acusados de agressões e racismo, os dois polícias interrogados ao início da tarde desta segunda-feira voltaram a negar todas as acusações

Texto João Diogo Correia

E vão seis. “Estou desiludido com a sociedade, nunca me imaginei aqui”, diz Renato Fernandes, o quinto dos seis agentes da PSP já ouvidos pelo coletivo de juízes do Tribunal de Sintra responsável pelo julgamento do caso Cova da Moura. “Estive para entregar a farda e a carteira. Porquê? Porque uma ocorrência normal estragou-me a vida toda”, indigna-se o agente, que depois do incidente pediu baixa médica.

Renato — como os colegas ouvidos na primeira sessão, que decorreu a semana passada — estava na carrinha que patrulhava o bairro no dia 5 de fevereiro de 2015.

Eram sete polícias nesse primeiro espaço-tempo da acusação, que descreve brutalidade policial, injúrias e racismo. Aquela era a primeira semana de Renato na esquadra de intervenção, pelo que, disse esta segunda-feira perante a juíza, não conhecia ainda os nomes, ou mesmo as caras, de alguns dos colegas. Muito menos consegue reconhecer o homem que algemou, já à porta da esquadra de Alfragide, no segundo espaço-tempo do incidente.

O agente corrobora a versão dos colegas: ouviu apenas um tiro na Cova da Moura, disparado para o ar, na rua principal do bairro, e não na do Moinho, enquanto um jovem era detido por “atirar pedras” que provocaram “estilhaços” na viatura policial. Na viagem entre o local e a esquadra de Alfragide, o jovem “estava alterado e provocador”. E a polícia, injuriou, agrediu? “Negativo”, repetiu o agente.

Da esquadra, Renato recorda o alvoroço à porta e lembra dois indivíduos “a atirar pedras” que tentou, sem sucesso, deter. No regresso, capturou um outro, esperou ajuda dos colegas para o algemar, e fez o que lhe ensinaram: projeção ao solo e “joelho na cabeça” do detido. Admite que “quando necessário, usa-se a força nas intervenções”, mas garante que nunca o faria gratuitamente.

“Se tivesse de mandar um pontapé em alguém para o algemar, mandava”

Paulo Santos era o chefe da equipa de patrulha daquele dia e é o sexto dos 17 acusados a ser ouvido no Tribunal. O Ministério Público considerou ter indícios suficientes para levar a julgamento estes agentes da PSP, que são assim suspeitos de agir de forma “deliberadamente cruel” sobre seis jovens da Cova da Moura, num total de perto de 200 crimes, entre denúncia caluniosa, crimes à integridade física, sequestro, tortura, injúria, ofensa à integridade física qualificada, agravados por ódio e discriminação racial. Diz ainda a acusação que estes 16 homens e uma mulher, dias depois dos incidentes, “fizeram constar de documentos factos que não correspondiam à verdade”.

Paulo Santos é mais um a desmentir todas as acusações, afirmando não ter insultado, não ter agredido e não ter mandado agredir. Mas deixou claro: “Se tivesse de mandar um pontapé em alguém para o algemar, mandava.”

O julgamento prossegue ao ritmo de uma sessão por semana, pelo menos até serem ouvidos os 17 arguidos.