FILIPE DE EDIMBURGO
“Declaro esta coisa inaugurada, seja ela o que for”: o príncipe reformou-se
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Esta quinta-feira foi conhecida a decisão do príncipe Filipe de Edimburgo de abandonar as suas obrigações reais – uma reforma que acontece aos 95 anos, depois de 70 anos de casamento com a rainha Isabel II. É altura de recordar as décadas do príncipe-consorte na vida pública, sempre marcadas pelas piadas e ocasionais gafes: “Declaro esta coisa inaugurada, seja ela o que for”
Texto Mariana Lima Cunha
As notícias precipitaram-se esta quinta-feira de manhã: a rainha britânica tinha convocado durante a madrugada uma reunião de emergência no Palácio de Buckingham com os funcionários da Casa Real. As causas não eram conhecidas. Especulou-se sobre a saúde da monarca, de 91 anos, e do marido, o príncipe Filipe de Edimburgo, de 95; falou-se dos motivos que poderiam levar àquela reunião imprevista (que juntou mesmo todos os funcionários da Casa Real, incluindo os que estavam espalhados pelas várias residências reais no Reino Unido); e o jornal “The Sun” chegou a precipitar-se, noticiando a suposta morte de Filipe de Edimburgo.
Não era, afinal, caso para tanta preocupação: soube-se horas depois que a reunião serviu para anunciar que Filipe de Edimburgo, à beira de celebrar o 96º aniversário e depois de mais de seis décadas de vida pública, está a preparar-se para deixar as obrigações reais já no outono deste ano.
Nos próximos tempos, o príncipe-consorte vai ainda marcar presença em eventos previamente agendados, mas deixará de aceitar novos convites, anuncia a nota que o porta-voz do Palácio divulgou. Afinal, o príncipe é ainda, e apesar dos seus 95 anos, o quinto membro mais ocupado da família real britânica, uma espécie de título que ganhou depois de em 2016 ter cumprido 110 dias de obrigações reais.
As reações à notícia de que o príncipe “deixará de desempenhar um papel ativo através da presença em eventos”, incluindo nas 780 organizações a que preside, para as quais contribui como mecenas ou das quais é membro, não tardaram em chegar, ou não fosse o príncipe-consorte, como recorda a imprensa britânica, “imensamente popular”.
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“A sua contribuição para o Reino Unido, o Commonwealth e o resto do mundo constituirá um enorme benefício para todos nós durante os anos que estão para vir”, disse a primeira-ministra, Theresa May, dirigindo ao príncipe “os melhores desejos e a mais profunda gratidão” em nome do povo britânico. O líder da oposição, Jeremy Corbyn, dirigiu os mesmos desejos para a “merecida reforma” do membro da família real.
Um príncipe-consorte com uma piada sempre pronta
Filipe tem realmente sido um membro ativo da família real – ainda esta quarta-feira, enquanto a rainha se reunia com Theresa May para concordar formalmente com a dissolução do Parlamento que levará às eleições antecipadas do dia 8 de junho, o marido marcava presença num evento de críquete. No Lord’s Cricket Ground, Filipe de Edimburgo gracejou, referindo-se a si próprio como o “inaugurador de placas mais experiente do mundo”.
A graça parece uma referência a uma das suas frases mais conhecidas, e que voltam agora às páginas dos jornais. É que se há característica de Filipe de Edimburgo que faz parte de qualquer perfil ou artigo sobre o príncipe é, sem dúvida, a sua veia para os comentários despudorados, as piadas mais ou menos atempadas e as gafes nada politicamente corretas.
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A referência à sua tarefa de “inaugurar placas” faz lembrar uma das suas frases mais famosas, proferida em visita ao Canadá, em 1969: “Declaro esta coisa inaugurada, seja ela o que for”. Mas no reino das piadas e gafes do príncipe-consorte há muito por explorar: “Toda a gente dizia que devíamos ter mais tempo livre. Agora queixam-se porque estão desempregados”, disse durante a recessão de 1981, citado pelo “The Guardian”. “Vocês ainda atiram lanças uns aos outros?”, perguntou em 2002 a um empresário indígena australiano com quem conversava.
Os exemplos são tantos que há seis anos, quando celebrou o 90º aniversário, o “Daily Mirror” compilou 90 exemplos de frases “pouco ortodoxas” ditas pelo príncipe. “Mesmo que ocasionalmente tenha exagerado, em termos de fazer comentários com o seu próprio sentido de humor que depois não são bem aceites, ele tem sido um consorte muito trabalhador e extremamente eficiente”, diz ao Expresso Elena Woodacre, professora na Universidade de Winchester, editora-chefe do Royal Studies Journal e especialista em assuntos da monarquia.
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Um papel sem precedentes
Foi também nesse 90º aniversário que, em entrevista à BBC, explicou as dificuldades inerentes ao seu papel de marido da rainha: “Não havia precedente. Se eu perguntava a alguém ‘o que é que esperas que eu faça?’, todos ficavam calados. Ninguém sabia, ninguém tinha muita noção”.
Vindo da Grécia, onde nasceu mais precisamente na ilha de Corfu, depois de uma infância traumática – a família, com ligações à realeza grega e dinamarquesa, foi banida do país e a mãe de Filipe acabaria por ser internada num hospital psiquiátrico -, foi na altura em que se mudou para o Reino Unido e combateu pela marinha britânica na segunda guerra mundial que Filipe começou a trocar cartas com a então adolescente Elizabeth Windsor. Acabariam por casar em 1947, cinco anos antes de esta se tornar a rainha Isabel II, depois da morte do rei George.
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Desde então, e nos 70 anos de casamento que o casal real celebra em novembro, o príncipe e duque de Edimburgo tem-se dedicado a representar a família real e a apoiar a esposa (em 1997, num raro discurso pessoal pelos 50 anos de casamento, Isabel II declarava: “Ele tem sido, muito simplesmente, a minha força e o meu apoio durante todos estes anos”). “O príncipe tem sido um apoio incalculável para a rainha. De acordo com uma recente estatística da BBC, ele já cumpriu 22.191 compromissos, e também teve um papel principal em muitas iniciativas, incluindo os reputados prémios Duque de Edimburgo para os mais novos”, salienta Woodacre.
Uma agenda aligeirada e os problemas de saúde
Tendo em conta a avançada idade dos dois, não é de espantar que tenham surgido nesta quinta-feira questões sobre o estado de saúde do casal real. Nos últimos anos, os problemas de saúde foram-se sucedendo, com Isabel II a falhar uma missa de Natal no ano passado, devido a uma gripe, ou a ser hospitalizada em 2013 com sintomas de gastroenterite. Já o marido teve de ser operado à região abdominal em 2013, teve uma infeção na vesícula em 2012 e passou o Natal de 2011 no hospital, graças a uma artéria bloqueada que lhe estava a causar dores no peito.
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“Acredito que a razão para a [abandonar a vida pública] decisão foi principalmente a idade. Obviamente teve alguns problemas de saúde nos últimos anos, mas isso é de esperar, com uma idade tão avançada”, lembra Elen Woodacre. “Tanto a rainha como o príncipe têm levado as suas obrigações e deveres extremamente a sério, mantendo a sua agenda de obrigações muito depois da idade em que a maioria das pessoas se reformaria e adotaria um calendário com mais descanso. Acho que a decisão dele é inteiramente apropriada, particularmente numa altura em que os membros mais novos da monarquia estão presentes para assumirem esses deveres e compromissos.”