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Itália

Como um professor de Química que há 20 anos ajuda refugiados se tornou um autarca modelo e acabou preso

Foto epa

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Já serviu de inspiração para um filme de Wim Wenders e foi considerado pela revista “Fortune” um dos 50 líderes mundiais mais importantes. Mas quem é e o que fez afinal nos últimos 20 anos o professor Mimmo, como é conhecido o presidente da câmara da pequena cidade de Riace, na Calábria, com cuja detenção o ministro do Interior se congratulou?

Texto Hélder Gomes

Em 1998, um barco carregado de refugiados curdos chegou às costas de Riace, na costa da Calábria. O que não seria mais do que uma nota de rodapé nos telejornais foi para Dominico Lucano um momento definidor. O professor Mimmo, como também é conhecido, indicou-lhes apartamentos abandonados no pequeno município do sul de Itália e ajudou-os a instalar-se e a conseguir aconselhamento profissional. Outro momento definidor aconteceu esta terça-feira, já como presidente da Câmara, ao ser condenado a prisão domiciliária.

Os dois episódios, separados por duas décadas, têm em comum o auxílio a refugiados e requerentes de asilo. Agora com 60 anos, Mimmo foi preso na sequência de uma investigação sobre a alegada atribuição de meio milhão de euros em fundos públicos para prestar auxílio a migrantes. Em comunicado, as autoridades revelaram que Lucano e a sua companheira, Tesfahun Lemlem, organizaram casamentos por conveniência entre cidadãos locais e mulheres migrantes.

Manifestação em Roma, esta terça-feira, em defesa do professor Mimmo Foto getty

Manifestação em Roma, esta terça-feira, em defesa do professor Mimmo Foto getty

A linguagem usada no documento presta-se a perplexidades várias: os casamentos terão sido organizados com “particular brutalidade”, tendo os suspeitos criado sistemas “simples mas eficientes” para contornar as regras de entrada de migrantes em Itália. Além da prisão domiciliária decretada para Mimmo, a sua companheira ficou proibida de residir em Riace e arrisca-se a perder o direito a viver no país.

CASAMENTOS ARRANJADOS PARA FACILITAR INTEGRAÇÃO

Um dos casos apontados pela polícia diz respeito a uma nigeriana, a quem as autoridades italianas já haviam negado três vezes autorização de residência. A única solução daqui para a frente é o casamento, terá Lucano dito ao telefone, segundo escutas feitas no âmbito da investigação. Será esta a “particular brutalidade” a que se refere o comunicado?

Mas sobre Mimmo pende ainda outra acusação. O jornal “La Repubblica” escreve que o autarca terá assinado contratos com duas cooperativas de recolha e tratamento de lixo, que empregam cidadãos migrantes, sem considerar as propostas feitas por outras empresas. Culpado ou não, o modus operandi parece bater certo com o seu trabalho de integração de milhares de refugiados e, de caminho, de revitalização de uma população rural em declínio.

Manifestação em Nápoles, esta terça-feira, a favor do presidente de câmara detido por ajudar migrantes Foto Getty

Manifestação em Nápoles, esta terça-feira, a favor do presidente de câmara detido por ajudar migrantes Foto Getty

Quando, em 2016, o colocou na 40.ª posição entre os 50 líderes mundiais mais importantes, a revista “Fortune” escreveu que Lucano salvou a pequena localidade e rejuvenesceu a sua economia. Apesar de ser olhado de lado pela máfia e pelo Estado italianos, o seu modelo de integração tem sido estudado e adotado nas sucessivas crises de refugiados na Europa, acrescentava a publicação norte-americana.

DE PROFESSOR A AUTARCA MULTIPREMIADO

Nasceu a 31 de maio de 1958 no hospital de Melito Porto Salvo mas viveu a infância e juventude em Riace. Formou-se em Química e, mais tarde, mudou-se para Roma, para estudar Medicina. Acabou por abandonar os estudos e voltar à Calábria. Começou então a sua carreira de professor e, em 1999, um ano depois do desembarque dos curdos, cofundou a associação Città Futura (Cidade Futura). Desde então, o seu nome nunca mais deixou de estar ligado à integração de refugiados, primeiro pela via cívica e depois pela via política.

A sua ascensão no poder local foi notável: nas eleições municipais de 2000 entra no conselho municipal como membro de uma minoria; quatro anos mais tarde, candidata-se pela primeira vez à presidência da autarquia e é eleito, com mais de 35% dos votos; em 2009, candidata-se pela segunda vez e vence novamente, agora com quase 52% dos votos; em 2014, nova candidatura vencedora, com mais de 54%.

Pelo meio, promoveu uma rede de municípios solidários, teve uma participação ativa na tentativa de resolver a crise de refugiados de Lampedusa e recebeu vários prémios, incluindo um de sustentabilidade ambiental. Em 2010, alcançava o terceiro posto na World Mayor, uma competição internacional de presidentes de câmara. No mesmo ano, Mimmo serviu de inspiração para a curta-metragem “Il Volo”, de Wim Wenders.

Mas no ano passado começou a desenhar-se negro no horizonte de Lucano. Depois de lhe ser atribuído o Prémio da Paz de Dresden 2017 pelas autoridades desta cidade alemã, soube-se que o autarca estava a ser investigado pelo Ministério Público por causa do seu sistema de acolhimento. Fraude agravada por obtenção de pagamentos públicos com danos para o Estado e para a União Europeia, corrupção e abuso de poder eram os indícios que conduziriam à sua detenção esta terça-feira.

Já sob escrutínio, era expectável que o modelo de Lucano tinha os dias contados na Itália do ministro do Interior, Matteo Salvini. Os executivos camarários de Mimmo abriram escolas para integrar migrantes e refugiados e delinearam programas de microcrédito para o arranque de pequenos negócios, incluindo um projeto de reciclagem gerido por dois migrantes que, montados em burros, recolhiam lixo porta a porta. Ou seja, tudo no sentido oposto do que tem feito o Governo central, cada vez mais dominado pelas políticas anti-imigração de Salvini.

A sua prisão preventiva foi recebida de forma efusiva pelo ministro do Interior, enquanto o escritor Roberto Saviano escreveu no Twitter que Lucano era culpado apenas de “desobedecer e salvar vidas humanas”. Também o FIOM, o maior sindicato italiano de metalúrgicos, saiu em defesa de Mimmo, apelando a uma mobilização nacional contra o racismo e a favor dos direitos dos migrantes de viverem e trabalharem em Itália.