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Henrique Monteiro

Chamem-me o que quiserem

Henrique Monteiro

Ronaldo, a violação e o McCarthismo sexual

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Se há zona onde as fronteiras são ténues é na intimidade e na sexualidade de cada um. Qualquer intromissão exagerada nessa esfera é uma violação – seja contra a liberdade do outro, seja do Estado, através dos braços policiais e judiciais, na liberdade própria e de todos. O caso de Ronaldo em Las Vegas levanta todos estes problemas ao mesmo tempo. Por isso se torna interessante.

O caso do futebolista com Kathryn Mayorga, passado há 9 anos em Las Vegas, é por isso complexo de analisar. Não quero retirar culpas a Ronaldo, nem culpá-lo de nada. Isso ficará a cargo da Justiça, se houver caso para a Justiça intervir. Apenas pretendo refletir sobre o que se passa no nosso mundo.

O movimento #metoo, que a própria Kathryn considerou um incentivo para, passada quase uma década, denunciar um acontecimento pelo qual terá recebido dinheiro para ficar calada (ato de que diz estar arrependida), é, como frisou ainda recentemente a revista “The Economist”, uma questão de poder, mais do que uma questão de justiça ou de igualdade. Muitas mulheres ficaram com um poder extraordinário sobre os homens. E não interessam os anos que passaram; se foi consentido ou não; se estavam no seu perfeito juízo, ou não. Como se vê no caso Kavanaugh, a palavra da mulher, nestes casos, prevalece sobre a dos homens, porque os homens são vistos como predadores.

Há uma certa razão para que assim sejam vistos. Historicamente (que é mais do que apenas culturalmente) os homens tinham, em matéria sexual, toda a iniciativa e era mal vista a mulher que a tivesse. Mas como em tudo, pode haver excessos – e eles existem sem dúvidas –, há fases da vida das pessoas que não são todas iguais, e um facto ocorrido há 10, ou 20, ou mesmo 30 anos não tinha, então, o significado e a carga que hoje tem.

Esse poder, quando excessivo, torna-se numa espécie de McCarthismo sexual, numa caça (neste caso) aos bruxos, independentemente de os factos concretos poderem ser devidamente avaliados.

Mesmo uma mulher contratada como chamariz de homens para um bar, ou até uma prostituta, pode ser violada, porque a liberdade individual não é negociável

Voltando a Ronaldo, não sei se ele violou Kathryn. E se é certo que mesmo uma mulher contratada como chamariz de homens para um bar, ou até uma prostituta, pode ser violada, porque a liberdade individual não é negociável (razão que conduz a dúvidas sobre a legalização da prostituição, porque a atividade prevê a supressão da liberdade a troco de dinheiro), não é menos certo que qualquer rapariga, mesmo com apenas 25 anos, estando no quarto de hotel de Ronaldo pode congeminar formas de ganhar umas centenas de milhares de euros. Por isso, não sendo totalmente ingénuos, podemos pensar que houve malícia da sua parte na queixa à polícia (sem nomes envolvidos) para depois a advogada negociar o silêncio sobre o assunto…

Podemos também acreditar na versão de Kathryn. Que achou melhor calar-se, a seu benefício (contando com a indemnização), e que, depois, inspirada pelo exemplo de outras mulheres e como incentivo a quem, como ela, possa ter sido alvo de um predador chamado Ronaldo, tivesse decidido tornar a história pública. (Embora, moralmente, nesse caso, deva devolver o dinheiro, apesar de o contrato de silêncio não ter, provavelmente, valor jurídico e nada a obrigar a fazer, senão a sua consciência).

A verdade é, neste caso, difícil, senão impossível de verificar. Só uma cabal confissão de Ronaldo, por ser o acusado, poderia desfazer as dúvidas. E, caso ele seja culpado, talvez seja melhor fazê-lo. Porém, se é inocente, que armas lhe restam, salvo descredibilizar a acusação (que nesse caso não teria mesmo credibilidade)? Nada! E se assim for o caso aí está, virando-se contra o mais famoso jogador de futebol do mundo, retirando da obscuridade uma mulher, colocando o foco sobre algo que não deveria existir, mas existirá sempre: a violação e a mentira.

Espantam-me os que tomam partido por um dos lados. Depois de ler (quase) tudo o que havia para ler, duvido que alguém julgue este caso sem preconceitos. Seja contra o jogador, seja contra a mulher que o acusa.

Mas de uma coisa tenho a certeza: independentemente do que tenha acontecido, mantenho a confiança, que até hoje tive, em que Ronaldo é bom tipo. Não sei se em 99%, como ele proclamou a Kathryn, mas numa percentagem certamente elevada. Já sobre Kathryn Mayorga nada sei. Pode ser uma santa, mas pode ser uma megera. (E pensando melhor, uma santa não se meteria no quarto de hotel de um homem, embora hoje em dia seja politicamente incorreto dizê-lo. Já se afirmou, a propósito de outro caso, com Aziz Ansari, que “não é não” - mesmo em linguagem não verbal, e mesmo depois da mulher lhe ter feito sexo oral ele foi acusado de a violar, porque ela acenou que não...)

Eis o tipo de coisas que me deixam um pouco perplexo. E desconfiado. Se a violação é para levar a sério, é bom que não se comece a misturar tudo. Caso contrário – e como já li – fala-se de “má conduta sexual”, como se houvesse um livro de regras para o encontro entre um dois seres humanos.