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Martim Silva

Opinião

Martim Silva

A entrevista que mostra quem Costa escolheu para lhe suceder

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No congresso socialista que se realizou no início deste ano, o chamado debate ideológico colocou dois campos em disputa dentro do partido.

Para resumir a traço grosso, os que entendem que o PS deve posicionar-se mais ao centro e aqueles que querem vê-lo posicionado mais à esquerda, impulsionados pelo inédito acordo de governação desta legislatura, e sem a possibilidade de entendimentos com o PSD. Ora, um dos protagonistas desse suposto debate foi Pedro Nuno Santos. Que, mais do que protagonizar o debate, posicionou-se como candidato à sucessão de António Costa, provavelmente algures no final da próxima legislatura (quer ela dure quatro anos, ou menos que isso).

A ambição de Pedro Nuno Santos é inteiramente legítima. E não é de agora, embora tenha saído reforçada nesta legislatura com o seu papel na geringonça. Mas o pedronunismo depara-se provavelmente com um muro mais alto do que aquele que consegue transpor. Chama-se Fernando Medina.

Não sendo um aparelhista como Pedro Nuno, Medina tem feito um caminho que provavelmente é mais direto até à liderança do partido. Foi secretário de Estado, foi o escolhido por Costa para o substituir em Lisboa. Venceu as últimas eleições autárquicas. E fala hoje, como se viu pela entrevista do último fim de semana ao Expresso, como um verdadeiro líder político que ganhou o seu espaço e que sonha com outros voos. Caucionados por Costa. O anúncio das mudanças no passe social, que mais que afetarem Lisboa tocam em toda a grande área metropolitana (é aí que vivem os grandes beneficiários), foi cirurgicamente feito não pelo Governo mas por Fernando Medina.

No PS já está lançada a corrida à sucessão do líder. E nessa guerra mais ou menos surda, Costa chamou Pedro Nuno Santos para o Governo mas para o partido é em Fernando Medina que aposta

O autarca da Lisboa não entra demasiado na tal polémica ideológica esquerda/direita, mas o seu posicionamento é facilmente percetível. Veja-se o que afirma na entrevista ao Expresso: "A identidade do PS resulta de ser um partido de esquerda e de ser um partido de Governo. Que olha para a realidade com os valores de um partido de centro-esquerda, mas que sabe que o que interessa é concretizar esses valores na ação política quotidiana. Um partido de Governo avalia as condições do país no quadro internacional em que se move. Tudo isso nos afasta da simples declamação proclamatória".

A atuação de Medina na capital, como no PS, é também assim altamente pragmática. E política. Consegue não se molhar demasiado com problemas que são seus, atirando-os para a esfera nacional, como sejam a gentrificação da capital, o boom do turismo em Lisboa, a subida galopante dos preços no imobiliário. E consegue puxar para si vitórias que não teriam de ser necessariamente do autarca de Lisboa, como a redução do preço dos passes sociais de todos aqueles que vivem, por exemplo, em Sintra ou no Barreiro.

Em vez da rota da carne assada e de passar os fins de semana a mostrar-se aos socialistas das concelhias de todo o país, Fernando Medina escolheu o caminho que se coloca acima da vida aparelhística, que não tem de palmilhar quilómetros de estrada nem de comer quilos de carne assada para lá chegar. No PS já está lançada a corrida à sucessão do líder. E nessa guerra mais ou menos surda, Costa chamou Pedro Nuno para o Governo mas para o PS é em Medina que aposta.