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“Eu pergunto-lhe: se fosse fazer um investimento, comprava ações do México ou da Apple?”

Foto Reuters

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Como é que uma empresa vale um bilião de dólares (um 1 seguido de 12 zeros)? O economista e professor universitário João Carvalho das Neves explica: “Se pensarmos no futuro, a primeira coisa que vem à cabeça é que a próxima inovação deve vir da Apple”

Texto Hugo Tavares da Silva

Como é que chegamos a este valor de um bilião de dólares?

Gosto sempre de olhar, antes do valor das empresas, para os aspetos qualitativos que sustentam o valor. Um desses aspetos é a sua vantagem competitiva no mercado, o que ela faz que a torna diferente e melhor do que as concorrentes. A Apple tem aqui vários aspetos importantes: excelente marca, que, de acordo com os rankings anuais da Interbrand, está à frente da Google, Coca-Cola e IBM. É líder do ponto de vista de imagem, da notoriedade. Essa notoriedade resulta de coisas muito concretas, que passam pela qualidade do produto e da capacidade que tem de inovação. Tem produtos como o iPhone, iPad, Mac, tudo isto são produtos com grande qualidade e que consegue vender por preços mais elevados do que os outros, na medida em que o cliente está disposto a pagar por essa qualidade. E aí consegue mais rentabilidade e capacidade de gerar fluxo de caixa. Essa sustentação deriva da capacidade de inovar. Vemos, historicamente, que tem conseguido sempre nestas áreas da computação e telecomunicações produtos que estão à frente dos outros. Quando lança um produto, lança com inovação que segue uma estratégia do skimming, que é desnatar: quando lança um produto, não há igual no mercado, é o melhor, por isso há um conjunto de utilizadores dispostos a pagar por isso.

Falemos de valores.

Por exemplo, a rentabilidade do capital investido é na ordem dos 20%. Quais são as empresas que fazem isto? Vinte por cento é difícil de encontrar. A Apple consegue ter uma rentabilidade de capital investido superior ao custo de capital, portanto consegue uma rentabilidade de capital próprio ainda superior, que tem andado entre os 30% e 40%. Em 2017, foi 36%. Está com um nível de endividamento muito razoável, na ordem dos 46%. Não está muito endividada.

Já falou em inovação. Não deixa de ser curioso que tenham crescido bastante depois da morte de Steve Jobs.

Ele teve a capacidade de criar uma empresa que não ficou dependente dele. Vemos as vendas nos últimos cinco anos e cresceram 7,6%. Os lucros subiram 6,9%. Se fizermos o resultado operacional a dividir pelas vendas, que se chama “rácio de margem operacional”, esta empresa tem margens à volta dos 27%, 28%. É uma margem de comercialização bastante interessante, tendo em conta estrutura e custos.

João Carvalho das Neves Foto Maros Borga

João Carvalho das Neves Foto Maros Borga

As ações em 1997 custavam menos de um dólar, em 2013 já eram 60 dólares. Agora foi negociado a 207 dólares.

Pois, mas a empresa em 1997 não é nada do que era hoje. Não tem nada a ver. Neste momento é uma empresa estabelecida no mercado. Se pensar no futuro em relação a um telemóvel ou telecomunicações, a primeira coisa que vem à cabeça é que a futura inovação deve vir da Apple, não é? Se vier de outra, será uma grande surpresa.

É possível continuar a crescer?

Nas tecnologias é sempre muito duvidoso o que os especialistas dizem, que não é possível crescer, mas depois surge uma inovação qualquer que faz com que efetivamente seja possível um crescimento adicional. Não numa perspetiva de ver quem são os consumidores que não têm produtos, mas mais no sentido de os que hoje têm poderem vir a pagar mais e dispostos a ter custos superiores para uma qualidade e inovação superiores ao que têm hoje.

Uma curiosidade para a dimensão da Apple ser palpável: esta avaliação coloca-os perto dos PIB da Indonésia e México, ultrapassando até a economia da Holanda e Turquia.

Pois, mas eu pergunto-lhe: se fosse fazer um investimento, comprava ações do México ou da Apple? Em quem tem mais confiança? É na Apple. O valor é também baseado na confiança. Quando eu compro fruta para comer em casa, vou a uma loja que tenho confiança. É o fundamental do valor da empresa. Se se perde essa confiança, a empresa vai falir.

Foto Reuters

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A Apple foi a primeira empresa norte-americana e a segunda da história a atingir esta avaliação de um bilião, depois da PetroChina, que depois até caiu...

Existem sempre riscos no mercado, não há nada que seja certo. O que eu disse sobre estar à espera da próxima inovação ser da Apple pode não ser. E se surgir outra inovação de um concorrente, que dá muita confiança aos consumidores e permite um salto significativo, a Apple terá de reagir. A expectativa é que a empresa tem capacidade para ultrapassar isso. Por isso, tem valor. Os investidores atribuem confiança à administração.

Warren Buffet investiu muito dinheiro na Apple e seguiu-se um grande crescimento.

O Buffet é conhecido pelos investimentos que faz e quando ele entra numa empresa há muitos cordeiros que vão atrás. Tem uma capacidade de identificar bons investimentos, tem esse histórico.

Para acabar, de que forma é que este sucesso tem influência em Portugal? Contribuiu de alguma forma para a nossa economia?

Não tenho dados em Portugal, mas a Apple tem uma certa importância. Há um grupo a fazer investigação em Portugal, por exemplo. Uma empresa destas cá é obviamente bem-vinda, vai utilizar quadros baseados em conhecimento, por isso é excelente para a economia portuguesa que puxem pelos seus quadros do ponto de vista daquilo que é mais avançado do ponto de vista técnico.