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“Você tem Parkinson”, disse o médico. E que fez Ruud? Casou-se e decidiu pedalar 80 dias para angariar dinheiro (mas não para ele)

Ruud Overes vai estar 80 dias na estrada a pedalar 150 quilómetros por dia Foto Parkinson2Beat

Ruud Overes vai estar 80 dias na estrada a pedalar 150 quilómetros por dia Foto Parkinson2Beat

Ruud Overes, a quem foi diagnosticada Parkinson há um ano, está em viagem pela Europa para angariar fundos para a investigação e consciencialização da doença. O holandês, que já amealhou 10 mil euros, esteve em Lisboa

Texto Hugo Tavares da Silva

Era agora ou nunca. Há mais ou menos um ano, Ruud Overes ouviu da boca de um médico o que pelo menos outros sete milhões espalhados pelo mundo ouviram: “Você tem Parkinson”.

Desde então, o holandês, apaixonado por bicicletas, deixou o trabalho, casou-se e magicou a grande viagem que tinha planeado para os dias de calmaria na reforma. Ruud criou a Parkinson2Beat, uma ideia e viagem para angariar dinheiro, que será promovida no asfalto, num toca e foge entre a natureza e a selva urbana. Oitenta dias para cumprir 10 mil quilómetros, de Santiago de Compostela a Atenas, passando por Lisboa e Gibraltar, saltando até às ruas e ruelas italianas. Arrancou a 28 de junho.

“A maior consequência de ter Parkinson foi não poder trabalhar mais. As pessoas com Parkinson são conhecidas por serem mal organizadas. O meu trabalho era organizar. Eu trabalhava como manager dos sistemas de logística na Philips Healthcare”, conta ao Expresso.

Foto Parkinson2Beats

Foto Parkinson2Beats

Tem receio de alguma coisa? “Não me assusto com facilidade. Eu gosto de fazer coisas, descobrir o desconhecido. Quando eu era saudável, eu adorava situações complexas. Eu ganhava dinheiro a resolvê-las.”

Ruud Overes, de 57 anos, chegou a Lisboa segunda-feira, onde foi recebido por alguns doentes portugueses com quem acabou por jantar. A doença de Parkinson afeta perto de 20 mil portugueses.

À sua espera estava também Josefa Domingos, fisioterapeuta especializada na área de Parkinson, da Associação Portuguesa de Doentes de Parkinson. “Avaliei-o em termos clínicos na terça-feira e volto a avaliá-lo no final da jornada, como forma de saber os efeitos que esta caminhada vai ter. Apresentarei o estudo num curso na Holanda, em setembro.”

Foto Parkison2Beats

Foto Parkison2Beats

Josefa Domingos viu em Ruud alguém focado. “Fisicamente está preparado para a aventura porque já fazia isso com frequência. Revela entusiasmo com a causa e tem um desejo enorme de contribuir para a descoberta da cura de Parkinson. É isso que o motiva. Ficou satisfeito com a troca de experiências e disse que Portugal está bastante avançado nesta área.”

A viagem é um acerto de contas com o velhinho Ruud do futuro. “Foi sempre um desejo fazer uma grande viagem de bicicleta depois da reforma. Mas fiquei doente. A Parkinson é uma doença progressiva, por isso tive de decidir se fazia agora ou talvez nunca. Decidi fazer agora. Eu disse aos meus amigos e eles disseram imediatamente que devia transformar a viagem numa atividade para angariar fundos. Eu concordei. Parkinson2Beat nasceu para angariar fundos para permitir que haja mais investigação para resolver esta doença.”

A missão é ousada. “É uma viagem pela Europa de 80 dias na qual farei 10 mil quilómetros. Vou até Santiago [de Compostela], Lisboa, Gibraltar, Barcelona, Itália, Lubliana, Tirana e Atenas. Durante esta viagem queremos organizar o maior número de eventos possível para consciencializar e amealhar dinheiro.” Até agora, Ruud e quem o acompanha nesta aventura já angariaram 10 mil euros.

O plano da viagem de quase três meses

O plano da viagem de quase três meses

Tem sido tudo “exatamente” como imaginou: “fantástico” e com “muita natureza”. Ruud tem conhecido muitas pessoas, aliados nos desafios que se avizinham e outra gente que os pensa.

Estrada fora, já se sabe, as histórias multiplicam-se. E houve uma que o impressionou. "Uma mulher disse-me que o seu marido já não conseguia andar de bicicleta. Quis ajudar e comecei a falar-lhe no meu trike. Ele disse que já não importava porque ele está demente - há essa possibilidade para 30%-50% dos doentes de Parkinson - e vive longe dela numa clínica. De repente, apercebes-te outra vez quão terrível é esta doença.”

E as pernas, Ruud? “A pedalada está a ser excelente. Até estou surpreendido, esperava mais problemas. É um desafio duro estar longe de casa quase três meses. Ainda mais depois de ter casado duas semanas antes de começar a tour. Estou a tentar fazer 150 quilómetros por dia. Ao sexto dia, descanso. Sempre andei de bicicleta desde a minha juventude. Até fiz de Espanha para a Holanda ou até Bordéus. Eu tinha experiência na altura, mas agora estou doente e não sei como o meu corpo se vai comportar nesta viagem…”