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Martim Silva

Opinião

Martim Silva

Medina a brincar aos políticos é 'like a virgin'

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A esmagadora maioria das notícias que envolvem Madonna desde que está em Portugal são fait-divers. Curiosidades. Com quem canta. Onde anda. Por onde passeia. Em que está a pensar. Que sítios visita. Onde jogam futebol os filhos. Mas nem tudo é a mesma coisa. E a notícia que o Expresso divulgou no último sábado, sobre uma muito duvidosa e pouco clara cedência de terrenos da Câmara à cantora, para esta estacionar a frota de 15 carros da sua entourage, não é um fait-divers para as páginas cor de rosa. Antes fosse.

Primeiro, Fernando Medina tem de perceber que os dinheiros que gere e os terrenos que administra não são seus, são dos contribuintes. Segundo, Medina tem de perceber que a 'coisa pública' é administrada de acordo com regras que têm de existir, de estar escritas, e de ser conhecidas de todos. Terceiro, as entidades públicas têm deveres e transparência e clareza na sua atuação. Quarto, Medina tem de perceber que se anda deslumbrado com Madonna isso é lá com ele, mas agradecemos todos que não nos envolva nos seus deslumbramentos.

Que grandes estrelas internacionais decidam instalar-se em Portugal, tipo Madonna, Philippe Starck ou Loboutin, é óptimo. É claro que a presença de Madonna em Portugal vale muito, desde logo em termos de divulgação e promoção da 'marca' Portugal, e da 'marca' Lisboa, lá fora.

Perante isso, que o Estado tenha mecanismos destinados a enquadrar de forma adequada quem nos visita e quem escolhe por cá ficar, nada a opor. Agora, neste caso tudo parece mal contado.

A Câmara, confrontada, começou por não divulgar o valor do contrato. Depois, disse que o valor cobrado à cantora eram 720 euros mensais. Finalmente, soube-se que o valor não está ainda a ser cobrado e só será no fim do período de utilização. E, de acordo com a notícia do Expresso, de sábado, tudo começou com um pedido para utilização de lugares de estacionamento do Museu Nacional de Arte Antiga.

É caso para perguntar: se for eu a pedir os lugares, Medina cede-mos?

Os mecanismos de exceção existem e sempre existiram. Durante anos, quem queria uma autorização de residência, bastava ter dinheiro para comprar uma casa cara no nosso país, que era-lhe concedida. Uma grande empresa que decida instalar-se no nosso país, pode contar com certo tipos de incentivos e benefícios fiscais.

Estas exceções ao que é a regra para todos existem. Mas estão escritas. Balizadas. Previamente definidas. O que Medina não percebeu, ou percebeu mas achou que ia passar pelos pingos da chuva, é que as regras num Estado de Direito são para se cumprir. Gostamos muito de falar mal da burocracia. Mas, pelo contrário, a burocracia é precisamente a existência de regras, passos e procedimentos que têm de ser cumpridos. A burocracia é o posto do salve-se quem puder.

A oposição camarária não perdoa e trouxe o tema para cima da agenda. Medina tem de esclarecer o assunto rapidamente. Tem de dar explicações claras.

Ser autarca e ser político é muito mais do que ir num dia saltar para o palco do Rock in Rio e no dia seguinte dar uns lugares de estacionamento a Madonna.

Medina é jovem e tem pretensões políticas. Sonha ir mais alto e um dia liderar o PS e quiçá o país. Mas convém que a dada altura experimente voltar à Terra. Afinal, é aqui que estão aqueles que votam nele.