Martim Silva

Opinião

Martim Silva

O adeus de Centeno?

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Com o ministro das Finanças a apertar o garrote ao seu colega na Saúde, Adalberto Campos Fernandes foi ao Parlamento na última quinta-feira garantir que não há qualquer cisma ou divisão no seio do Executivo e que quando se trata de controlo das contas públicas "somos todos Centeno".

Dias depois, a número dois do PS, Ana Catarina Mendes, dá uma entrevista ao Público e à Rádio Renascença em que afirma, preto no branco, que "gostaria de ver Centeno num próximo Governo do PS".

A proximidade das duas frases e a forma como foram colocadas na praça pública pode ser vista como mera coincidência. Ou como elogios genuínos e desinteressados ao trabalho do homem que veio do Banco de Portugal sem currículo político e que se consolidou desde 2015 como um dos pilares do Governo de António Costa.

Mas, pergunto, não poderá também ser desde já o preparar do terreno para a saída de Centeno?

Eis as respostas completas de Ana Catarina Mendes na entrevista: "Contamos com Mário Centeno para continuar a conduzir o país nos bons resultados financeiros e económicos que temos tido, na nossa credibilidade externa. Seguramente será um activo muito importante no futuro do PS e nas próximas eleições. (...) [Avalio o seu desempenho] De uma forma absolutamente positiva. Não é por acaso que temos hoje Mário Centeno como presidente do Eurogrupo. Há dois anos muitos não acreditaram que cumprir este défice seria também voltar a ter a economia a crescer. Hoje, podemos dizer que é o maior crescimento desde que entrámos no euro. Nunca tivémos um ministro das Finanças tão bem aceite pelos portugueses. (...) Gostaria muito de o ver num próximo governo do PS. Mas isso depende da sua vontade - e de o PS ganhar as próximas eleições".

Ao ler a dirigente socialista, o desejo parece inequívoco. Ana Catarina nem sequer se refugiou na resposta-padrão a este tipo de perguntas. Poderia ter dito algo como 'isso é da competência do primeiro-ministro'. Mas não. Foi direta e afirmou-o de forma expressa e cristalina. A questão é perceber até que ponto é que a continuação do entendimento entre os partidos à esquerda do PS e os socialistas, numa próxima legislatura, é dificultada depois do papel desempenhado por Centeno. É que quanto mais cumpridor das regras europeias Centeno se revela, menos popular se torna aos olhos dos dirigentes do PCP e do Bloco de Esquerda, e até de uma franja mais encarniçadamente anti-austeridade do PS.

Não duvido que Costa, com maioria absoluta, gostaria de continuar com Centeno no seu governo. Em democracia, só Fernando Teixeira dos Santos cumpriu mais do que um mandato nas Finanças. E Centeno é hoje presidente do Eurogrupo e tem cá dentro uma credibilidade incontestada. Mas a necessidade de acordos no futuro pode fazer com que o que parece hoje evidente não o venha a ser assim tanto no futuro.

Além disso, há que contar, e não pouco, com a vontade do próprio Mário Centeno. Quererá o economista voltar a sentar-se em São Bento ou terá a tentação de aproveitar o lugar de presidente do Eurogrupo para ensaiar outros voos?