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Henrique Raposo

A tempo e a desmodo

Henrique Raposo

Contra o aborto. Pelo #MeToo

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A posição de muitos cristãos e conservadores no contexto Trump e Kavanaugh tem sido hipócrita, fazendo até lembrar a posição dos democratas em relação a Bill Clinton. À esquerda, até as feministas desculpam os abusos sexuais cometidos por Bill Clinton, que, aliás, continua a passar entre os intervalos da chuva do #MeToo. O raciocínio é este: Clinton deu poder à Mulher em geral e destaque ao feminismo, logo temos de fechar os olhos aos abusos sofridos por mulheres em particular às mãos do santo e doce Bill.

Se os conservadores acreditam (e bem) que várias mulheres foram abusadas por Bill Clinton, porque é que não acreditam que Blasey Ford foi abusada por Kavanaugh?

Muitos conservadores e cristãos têm repetido este cálculo amoral em sentido inverso: não interessa saber se Trump e Kavanaugh são íntegros, não interessa saber se abusaram ou não de mulheres, o que interessa é que podem ser aliados na destruição do Roe vs. Wade. Isto não faz sentido. O Roe vs. Wade não será revertido através destas jogadas. Eu sou contra o aborto, mas também sou pelo #MeToo. As duas coisas estão relacionadas. Não posso aceitar que a revogação do Roe vs. Wade (um bem em si mesmo) seja feita nos ombros de um mal – apoio implícito ou explícito a uma cultura de abuso e violação sobre as mulheres. Um mal não se corrige com outro mal.

Juanita Broaddrick e Christine Blasey Ford: a vítima não é definida pela cor política do agressor Fotos Scott Olson / Getty Images e Erin Schaff / Reuters

Juanita Broaddrick e Christine Blasey Ford: a vítima não é definida pela cor política do agressor Fotos Scott Olson / Getty Images e Erin Schaff / Reuters

A moral e a coerência não são táticas. Um cristão ou conservador não pode glorificar Broaddrick, Jones e Wiley (as mulheres que acusam Clinton) e atacar Blasey Ford (que acusa Kavanaugh). Se os conservadores acreditam (e bem) que várias mulheres foram abusadas por Clinton, porque é que não acreditam que Blasey Ford foi abusada por Kavanaugh? A grande causa a jusante não pode legitimar atropelos concretos e reais a montante.