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Henrique Monteiro

Chamem-me o que quiserem

Henrique Monteiro

Tancos: uma história de impunidade

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Pode sempre argumentar-se que não será por alguém se demitir que as munições e armas desaparecidas há mais de um ano em Tancos surgem. Mas esse argumento é tão bom como dizer que não é por Ricardo Robles se demitir que acaba a especulação imobiliária. Na verdade, o que se espera de responsáveis é… (curiosamente) responsabilidade. Não apenas eficácia ou resultados.

Que os conceitos andam ligados não há dúvida. Mas espero que me acompanhem na ideia de que o caso de Tancos, ocorrido há uma eternidade, já devia ter tido um responsável. Um… vá lá… Nem que fosse o velho porteiro, o motorista, ou mesmo, como nos romances policiais maus, o mordomo. Não havendo ideia nenhuma de como o material militar desapareceu, ou foi desaparecendo, restaria aos responsáveis mais elevados concluírem pela sua incapacidade de resolver uma questão importante.

Podemos sorrir com a nossa própria insignificância militar. Além de nos dar uma perspetiva real da situação, faz-nos bem não sermos arrogantes. Mas, por muito que saibamos que aquilo não interessa assim tanto, sobra uma questão decididamente importante: há um paiol num aquartelamento militar central, que pode ser assaltado, roubado o que for, sem que se saiba como, nem porquê, nem por quem, nem para quê. Se isto não tem importância, permitam-me que diga que os chefes militares também não e, provavelmente, o ministro da Defesa é ministro de nada e de ninguém.

Esta hipótese, que é relativamente provável, leva-nos ao cerne do problema: será a irrelevância que nos leva à irresponsabilidade, ou a irresponsabilidade que nos conduziu à irrelevância? Qualquer das respostas é má, mas só temos más respostas para dar.

Recapitulemos: desapareceu uma quantidade apreciável de material. Foram demitidos temporariamente (cito, porque não sei que figura é esta) seis comandantes, aliás de forma canhestra. O ministro duvidou que fosse um roubo. Diversos conhecedores destes meandros colocaram a hipótese de o material ir desaparecendo aos poucos, até chegar o momento do inventário, perante o qual se ‘inventava’ um roubo. Mais tarde, o material aparece, não muito longe, na Chamusca, e entre ele está uma caixa a mais. Uma pessoa com alguma responsabilidade ou um sentido próximo de responsabilidade, neste ponto já acharia que andavam – literalmente – a gozar com a tropa. Mas manteve-se tudo sereno. Até que há semanas este mesmo jornal noticiou que continua a faltar material. Perante isto, o Parlamento quis, de novo, ouvir o Chefe do Estado Maior do Exército (CEME) que lá foi mostrar a sua perplexidade. Nada tem a acrescentar ao que já tinha dito há meses, disse.

O nosso estimável CEME, não perceberá que esse é, precisamente, o problema: nada ter a acrescentar? Eu também não tenho nada a acrescentar

O general Rovisco Duarte, nosso estimável CEME, não perceberá que esse é, precisamente, o problema: nada ter a acrescentar? Eu também não tenho nada a acrescentar ao que já foi dito sobre o modo, a razão, a causa, o motivo, o propósito e muitos outros aspetos relacionados com o furto do material militar. Mas eu, meus caros, não sou responsável nem por Tancos, nem por armas, nem pela instituição militar. E, do meu modesto ponto de vista, quando esta se porta ao nível do partido político (onde se começa por negar responsabilidades) e, pior do que isso, se mantém inalterável à espera que a onda passe, é muito triste.

O nosso Comandante Supremo, o Presidente da República, tem, de quando em vez, dito que quer tudo esclarecido. Talvez seja altura de dar um murro na mesa. Ou, em alternativa, deixar passar mais um ano. Pode ser que apareçam outras caixas de que ninguém estava à espera. Pode bem acontecer que, antes de um inventário qualquer lá ponham o que falta ou outra coisa qualquer inesperada. E, se assim, for, tudo pode ficar na mesma. Afinal para que queremos material militar? Agora andamos preocupados com outras coisas. Com o turismo e o calor, por exemplo…