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Itália

De um lado “o diabo que conhecemos”, do outro “um partido totalmente imprevisível”

Um “resistente” numa manifestação de apoio ao Movimento Cinco Estrelas, que venceu as eleições de março em Itália Foto Tony Gentile/REUTERS

Um “resistente” numa manifestação de apoio ao Movimento Cinco Estrelas, que venceu as eleições de março em Itália Foto Tony Gentile/REUTERS

Será que Roma vale bem uma missa? Henrique IV, quando se converteu ao Catolicismo para poder governar França, disse que “Paris vale bem uma missa”. E o mesmo fizeram os italianos nas eleições de março ao confiarem em dois partidos que prometem completa mudança - seja boa ou má, é uma mudança. Mas esta rutura não é só interna - é com a União Europeia. E Bruxelas tem mão pesada

Texto Ana França

Os medos consolidaram-se. O novo governo de Itália, a terceira maior economia da União Europeia, é, desde esta sexta-feira, declaradamente antieuropeísta. Nacionalistas, descrentes nas elites académicas a agitar políticas sociais de fazer inveja aos nórdicos. Onde é que já vimos isto? O último terramoto populista foi no Reino Unido; pouco depois as réplicas chegaram aos Estados Unidos e agora temos a Hungria, a Polónia, a República Checa no mesmo caminho. Depois de mais de 90 dias de titubeante negociação política, nasceu finalmente um governo de coligação entre dois movimentos antissistema: o Movimento 5 Estrelas, crítico das instituições tradicionais e com promessas de ajuda social capazes de assustar até o mais mão-largas de todos os tesoureiros em Bruxelas, e a Liga, um partido de direita dura que defende uma espécie de simplex à deportação dos imigrantes em situação ilegal.

Nas eleições de 4 de março, os primeiros conquistaram 32% dos votos e os segundos 17,6% - o que tornou impossível desenhar um governo que não incluísse estas duas forças. Os líderes dos dois movimentos mantiveram como escolha para primeiro-ministro o professor de Direito Giuseppe Conte, que tem pouca experiência política e que mesmo os italianos não reconhecem imediatamente. Na pasta de todo o drama, a Economia, fica outro professor, Giovanni Tria, em substituição do eurocético Paolo Savona, cuja escolha anterior para o mesmo cargo tinha sido chumbada pelo Presidente Sergio Mattarella — e foi isto que precipitou a crise institucional e rompeu a coligação. Tria, de qualquer forma, já criticou o superávite da Alemanha e aponta as contas demasiado impecáveis do país de Angela Merkel como um dos maiores problemas do euro.

Giuseppe Conte, ao centro, no Palácio Quirinale, em Roma, na sua indicação para primeiro-ministro Foto Alessandro di Meo/EPA

Giuseppe Conte, ao centro, no Palácio Quirinale, em Roma, na sua indicação para primeiro-ministro Foto Alessandro di Meo/EPA

Quanto custa prometer?

Parecia difícil que voltassem a entender-se depois disso mas aconteceu. O acordo que saiu da (re)união entre Matteo Salvini, líder da Liga, e Luigi de Maio, líder do 5 Estrelas, é uma espécie de mistura entre políticas extremamente disruptivas em relação ao domínio de Bruxelas e outras, maioritariamente económicas, que estão mais perto das democracias nórdicas do que daquelas que têm sido impostas pela austeridade no sul da Europa.

Baixar a idade da reforma ou a criação de uma espécie de subsídio de reinserção social para todos os italianos independentemente dos seus rendimentos são duas das medidas que mais contribuíram para as esperanças que os italianos depositaram nestes partidos em forma de voto mas são também aquelas que mais assustam os analistas.

Silvia Merler, economista italiana do centro de análise económica Berger, publicou esta semana um estudo onde detalha as possíveis consequências económicas - e também para a política de integração europeia no geral - desta nova coligação que começa agora a gerir Itália e considera que o maior problema são as promessas na área da Economia feitas por ambos os partidos. “O custo das promessas eleitorais de ambos, nomeadamente as de impor uma taxa fiscal fixa de 15% e a de garantir um ordenado base a toda a gente, significam uma despesa algures entre os 109 e os 126 mil milhões de euros, ou 7% do Produto Interno Bruto. Isto é mesmo muito”, explica a economista.

O problema é também que nenhum dos partidos apresentou caminhos para conseguir este dinheiro. “O que significa que a subida do défice para conseguirmos realizar isso dispararia de tal forma que entraríamos em incumprimento de todas as regras fiscais e orçamentais estabelecidas pela União Europeia e a dívida atingiria níveis insustentáveis”, diz ainda.

Quando o Movimento 5 Estrelas começou a ganhar adeptos em Itália, há quase uma década, as suas posições em relação à Europa eram bem menos elásticas. Beppe Grillo, o comediante com língua afiada - e, não raramente, pífia - defendia um referendo à utilização do euro como moeda em Itália, já que todo o programa se baseava na quebra total com as instituições tradicionais, que se sempre considerou corruptas. Com Luigi di Maio as coisas acalmaram, o Movimento 5 Estrelas deixou de ser tão anti-Europa e apesar de, nesta campanha eleitoral, terem prometido coisas como um considerável corte da dívida italiana detida pelo Banco Central Europeu, não há referência a “medidas drásticas” neste acordo.

O líder do Movimento Cinco Estrelas, Luigi di Maio Foto: Ciro Fusco/EPA FUSCO

O líder do Movimento Cinco Estrelas, Luigi di Maio Foto: Ciro Fusco/EPA FUSCO

Um partido-instrumento

Mas com ou sem completa rutura, a quebra está lá. A Itália é um dos fundadores da União Europeia, a terceira maior economia da zona euro, um dos países mais populosos e “psicologicamente” parte essencial do projeto europeu. Enquanto várias pessoas, no Twitter, durante toda a manhã de sexta-feira, se iam congratulando com este acordo - “Finalmente, a mudança!”, “Este é um governo do povo!”, ou “A nossa soberania está de regresso!” - outras pessoas mostravam-se bastante apreensivas.

O medo de rutura orçamental é uma das principais preocupações expressadas por ex-ministros, economistas europeus e analistas, mas também há quem esteja “simplesmente triste”, como é o caso de Jacapo Iacoboni, autor do livro “A Experiência: Ascensão do Movimento 5 Estrelas” e analista político no jornal italiano “La Stampa”.

Ao Expresso, o autor diz que a situação atual “causa arrepios” porque a Liga é um partido “de extrema-direita” que conseguiu o poder através de um partido, o Movimento 5 Estrelas, “que é muito maleável, facilmente instrumentalizado e muito difícil de prever”. Ao menos “a Liga é um diabo que conhecemos”. Iacoboni considera ainda que este governo “coloca em causa a cultura italiana” e diz que é principalmente isso que o deixa “simplesmente triste”. “Não é só a economia que pode sofrer. Há também o risco de que a cultura italiana possa sofrer uma erosão, a nossa forma de estar e de ver o mundo. A negação da Europa significa que ambos os movimentos se aproximaram da Rússia, os registos das reuniões são públicos, como é público o apoio do Cinco Estrelas à amenização das sanções à Rússia e isso também preocupa os italianos que ainda se sentem muito europeus”, diz o escritor.

Talvez sem surpresa, alguns dos nomes principais do governo não têm muita experiência política, porque é suposto serem “de fora do sistema” mas, ao mesmo tempo, como explica Iacoboni, “a quantidade de antigos tecnocratas que estão nas listas de ministros é completamente contrária à ideia de que eles estão a acabar com o domínio das elites”. E dá um exemplo: o ministro dos Assuntos Europeus, Paolo Savona, “dinossauro do sistema”. O mesmo nome vetado para a pasta da Economia, por ter sido considerado demasiado anti-Europa, acaba por ir ocupar um ministério diretamente ligado à Europa, mas ainda assim menos influente que o da Economia no que a Bruxelas diz respeito.

O líder do Movimento 5 Estrelas fica no ministério do Trabalho e da Indústria e Salvini fica com o ministério do Interior - um cargo diretamente ligado ao controlo da imigração, a sua maior luta. Será capaz de implementar as suas políticas de direita dura tal como a criação de mais centros de detenção para imigrantes no sul do país, onde continuam a chegar centenas de imigrantes diariamente fugidos das guerras no Médio Oriente e em África? “Não sei se a Europa deixará mas o que pode conseguir e já conseguiu é usar o medo, os níveis de desemprego, o desinvestimento no sul para colocar os italianos contra os imigrantes mas nós somos intrinsecamente um povo tolerante, isso também é especialmente triste”.

Mas é preciso não esquecer que estes partidos foram de facto os mais votados pelos italianos. Porquê? “Para o meu livro analisei a evolução das queixas dos italianos nas redes sociais e também os discursos políticos de quem nos liderou depois de 2010, quando a crise estava no seu pico, e reparei que as pessoas estavam completamente fartas do natural estado das coisas: a corrupção, as elites, o centro-esquerda, que deixou de saber comunicar com as classes médias e mais baixas. E esse cocktail levou-nos aqui. É precisamente um ano depois da crise que surge o Cinco Estrelas, e foi como uma esponja”, diz Iacoboni. Tal era a “frescura” da sua abordagem que Iacoboni estima que dos 11 milhões de votos que Luigi di Maio conseguiu nestas eleições, 2,5 milhões são da esquerda e do centro-esquerda - “muitos votos de amigos meus”, diz.

Um homem num protesto contra a violência contra imigrantes que causou alguns distúrbios em Itália em março deste ano Foto Alessandro Bianchi/REUTERS

Um homem num protesto contra a violência contra imigrantes que causou alguns distúrbios em Itália em março deste ano Foto Alessandro Bianchi/REUTERS

Para muitos, o Cinco Estrelas simbolizava uma rutura necessária. Uma espécie de “Paris merece que se faça missa”, a resposta de Henrique IV quando decidiu converter-se ao Catolicismo para quebrar o impasse religioso sobre o domínio de França no século XVI. Mas o que se seguiu foi desilusão: “Os meus amigos agora estão chocados que um partido que costumava defender algumas ideias mais liberais, mesmo nos costumes, e que apelava aos jovens através da oferta de uma distribuição mais justa dos rendimentos se tenha tornado um partido ‘vendido’. De um lado prometem o rendimento mínimo universal mas o que pode acabar por acontecer é uma catástrofe económica se os investidores deixarem de comprar dívida italiana. Quem vai sofrer são as pessoas ‘de fora do sistema’ que supostamente o Cinco Estrelas diz que quer ajudar’”, comenta o escritor.

Mais integração, afinal?

Já para Enea Desideri, analista do centro Open Europe, o Movimento Cinco Estrelas não é assim tão anti-Europa, mas mais “pró-uma-Europa-diferente”, diz ao Expresso por e-mail. “O Cinco Estrelas quer exigir a Bruxelas mais solidariedade e menos regras, com mais controlo dos parlamentos nacionais. Daí a sua aposta em reforçar o peso do Parlamento Europeu em questões como as políticas comerciais, fiscais, de distribuição de imigrantes entre outras coisas. Em muitos aspetos eles querem mais integração, não menos”, diz o analista.

O perigo é mesmo a Liga e o peso que terá no governo, apesar de ter conseguido menos deputados: “O acordo com a Liga assusta de facto Bruxelas. Eles são francamente contra a Europa - essencialmente são nacionalistas - e como o Cinco Estrelas é tão ambíguo a Liga pode começar a ditar a direção do governo e a Itália pode tornar-se um grande desmancha prazeres às mesas de negociações europeias. É um país muito grande e importante”.

Quanto à imigração, a Europa pode não ser o maior impedimento mas Desideri mostra-se preocupado com a questão “humana”. “Não é bem um problema de repatriação, aliás a Europa queixa-se de que Itália não faz o suficiente para repatriar pessoas cujas inscrições para asilo foram rejeitadas. A diferença aqui é que o Cinco Estrelas presta um pouco mais de atenção à questão humanitária, poderia abrir outras vias para a regularização e a Liga parece preocupar-se menos com isso. De qualquer forma a Comissão Europeia não tem força moral para dizer à Itália o que fazer já que eles são praticamente os únicos a receber a esmagadora maioria dos imigrantes”.