Henrique Raposohenrique.raposo79@gmail.com

A tempo e a desmodo

Henrique Raposo

Trump parecia alguém de esquerda

Um político de esquerda FOTO REUTERS

Um político de esquerda FOTO REUTERS

Para enorme embaraço do “The New York Times” e afins, que estavam torcendo pela continuação da grosseria twitteira, Trump fez um discurso presidencial no Congresso. Aquelas paredes físicas têm um efeito civilizador em qualquer bárbaro ou radical habituado às paredes virtuais. As instituições ainda contam. Foi portanto um discurso interessante ou normal, aliás, foi tão normal que Trump até parecia um Democrata com uma visão progressista do poder: das escolas à saúde, o Presidente americano acha mesmo que o poder pode mudar a realidade de forma célere e positiva. Esta é uma visão tradicional da esquerda, e não de um republicano consciente dos limites morais e financeiros do poder. Trump parece assumir que o mundo é uma mera representação da sua vontade legislativa. É como se não existissem resistências morais, políticas, culturais, demográficas e económicas a uma determinada política. Para reforçar este lado progressista, Trump também parece imune à pergunta dos tostões: quem é que vai pagar todas estas promessas (o maior programa de infraestruturas desde o New Deal, novas escolas, novo sistema de saúde, etc.)? Vai aumentar impostos? Não. Diz que vai baixá-los. Há aqui uma espécie de pensamento mágico sem qualquer relação com a tradição conservadora ou republicana.

Mas abordemos então as tais medidas. Tal como prometido na campanha, avança com um mega plano de reconstrução. É verdade que as infraestruturas americanas (aeroportos, escolas, estradas, pontes) estão numa situação caótica. Mas como é que isso será financiado num contexto de redução de impostos e de dívida e défice já altos? A outro nível, Trump apresentou a ideia de alargar as escolas com contrato de associação aos miúdos mais pobres, sobretudo negros e latinos. Isto é importante, porque os dados mostram que os miúdos negros elevam os seus resultados quando saem das escolas estatais e quando entram nestas “voucher schools”. É um facto. Tal como é um facto o bloqueio que a esquerda costuma fazer a esta ideia devido à força dos sindicatos de professores estatais no Partido Democrata. Como é que Trump pode resolver este bloqueio histórico? Sobre o Obamacare, a posição de Trump não é o apocalipse da mitologia. Ele não diz que vai exterminar o Obamacare para voltar ao passado, onde os mais pobres não tinham seguro. O seu ponto é outro: corrigir os erros do Obamacare (e há muitos) e sobretudo garantir que a escolha do plano de saúde seja responsabilidade do doente, e não do estado. Parece-me então que procura um sistema mais parecido com os sistemas europeus à Bismarck. Não me parece nada radical.

Também não me parece radical a sua posição sobre a NATO: a Aliança, diz, é fundamental, mas os parceiros europeus devem cumprir as suas obrigações – um discurso idêntico a todos os presidentes americanos do nosso tempo. Moral da história? Trumpistas e antitrumpistas tiveram uma desilusão. E essa desilusão deve ser maior no campo antitrumpista, porque a esquerda tem de refletir numa coisa: porque é que Trump soa como um progressista na forma como vê o Governo? Porque é que Trump está propondo coisas que a esquerda devia apoiar sem pestanejar (conter o comércio livre, proteger o emprego de americanos, programa de infraestruturas)? Um dia a esquerda vai ter de se confrontar com isto: o homem que mais odeia é também o Presidente que está mais próximo das suas ideias económicas. Ou será que a esquerda já não tem ideias económicas para os descamisados?