EUA: QE ou não-QE, eis a questão
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Jerome Powell Foto epa
A Reserva Federal dos Estados Unidos (Fed) iniciou esta semana um programa de compra mensal de 60 mil milhões de dólares em títulos do Tesouro de curto prazo, que poderá estender-se por seis meses. Jerome Powell, o presidente do banco, garante que não é mais um QE, mas há quem diga que é o quarto programa de compra de aquisições só que disfarçado
Texto Jorge Nascimento Rodrigues
A Reserva Federal (Fed), o banco central dos Estados Unidos, regressou dia 15 de outubro à aquisição de dívida pública no mercado, pela primeira vez desde que descontinuou, em 2014, o terceiro programa de compras - um tipo de intervenção de política monetária conhecida como QE, o acrónimo para quantitative easing.
O mais surpreendente é que o fez depois de ter andado a reduzir o seu balanço em 50 mil milhões de dólares (€45 mil milhões) por mês até julho, para emagrecer os ativos e ficar mais elegante. Dois meses depois, dá uma reviravolta.
Jerome Powell, o presidente da Fed, já o havia anunciado na última reunião de setembro do banco central, apontando para compras mensais de 60 mil milhões de dólares (€54 mil milhões) até meados de 2020, pelo menos por seis meses segundo os analistas, o que irá significar que o balanço do banco vai aumentar, no mínimo, 360 mil milhões de dólares (€323 mil milhões).
Mas o chefe do banco central logo adiantou que não de trata de um quarto QE – depois dos realizados em 2009/2010, 2010/11 e 2012/14 – para responder, de imediato, à crise financeira e à grande recessão e para apoiar, depois, a retoma da economia norte-americana.
O ‘cisne negro’ de setembro
Powell chamou-lhe de “medida puramente técnica” para garantir a liquidez do mercado interbancário que pregou um susto como não se via há dez anos em meados de setembro, pelo que já ficou conhecido como o “aperto de setembro”.
Na subtileza da linguagem, estas compras não foram “desenhadas” (para usar a expressão de Robert Kaplan, o presidente do Banco da Reserva Federal de Dallas) para implementar a politica monetária de modo a garantir que a inflação se aproxime da meta de 2% (em setembro estava em 1,7%) nem para manter a economia em pleno emprego (situação em que está há já algum tempo).
Mas para não voltar a haver surpresas – como o que alguns analistas financeiros já batizaram de “cisne negro de setembro”, em que, no preciso momento, em que os banqueiros centrais se sentavam para tomar decisões, o mercado interbancário subitamente secou, sem pré-aviso.
Tecnicamente, trata-se de comprar dívida pública de curto prazo. “Um verdadeiro QE é um programa de compra de dívida de longo prazo. Esta intervenção é para proceder à aquisição de dívida de curto prazo. O objetivo é assegurar uma liquidez suficiente no mercado monetário, para evitar a repetição do que aconteceu em setembro”, diz-nos Eric Dor, diretor de Estudos Económicos na Escola de Gestão da Universidade Católica de Lille, em França. “O QE pretende influenciar as taxas de longo prazo da dívida. Com esta intervenção agora, a Fed quer atuar sobre as taxas de curto prazo”, acrescenta.
Contudo, para os analistas do Speculators, trata-se de um QE, que deve ser chamado pelo nome do que é realmente. Oficialmente, o que a Fed fez foi reiniciar o QE, ainda que por outras razões, argumenta Adem Tumerkan, daquele portal financeiro.
O ‘culpado’ do aperto e da viragem da Fed
Ao programa de compras mensais que começou este mês há que juntar um outro conjunto de medidas, desde o aperto de setembro, que envolvem mais 110 mil milhões de dólares (€99 mil milhões) duas vezes por semana que o Banco da Reserva Federal de Nova Iorque (encarregado no sistema da Fed por estas operações) disponibiliza no overnight (75 mil milhões) e em recompras (35 mil milhões) para os operadores financeiros. Nomeadamente para grandes bancos e sociedades financeiras, encarregados de subscrever as emissões de dívida de curto, médio e longo prazo que o Tesouro norte-americano faz, ou de as adquirir a outros investidores no mercado secundário. Para que este ‘canal’ de financiamento do Tesouro da Administração Trump funcione, é preciso haver liquidez no mercado interbancário. Ora, em setembro, secou.
A ‘culpa’ foi do Tesouro dirigido por Steven Mnuchin que tem estado a aproveitar para emitir dívida como se não houvesse amanhã depois do Congresso em julho ter suspendido o teto de endividamento até agosto de 2021. Só no terceiro trimestre, o Tesouro emitiu 433 mil milhões de dólares (mais de três vezes o que previa anteriormente) e projeta colocar nos últimos três meses do ano mais 400 mil milhões. Com tantos títulos novos no mercado, é preciso muita liquidez para os operadores poderem comprar estes papéis. Não resta à Fed outra alternativa se não manter a engrenagem a funcionar.
Dívida. Espanha financia-se com taxas mais elevadas que as portuguesas
O Tesouro espanhol foi esta semana ao mercado obrigacionista colocar dívida a três, cinco e 10 anos, e nos dois prazos mais longos, pela primeira vez, pagou aos investidores taxas mais elevadas do que as registadas para os títulos portugueses no mercado secundário.
A operação de mercado realizou-se três dias depois de conhecidas as sentenças do Supremo Tribunal espanhol contra os independentistas catalães e num quadro de cada vez maior incerteza política sobre os resultados das eleições legislativas a realizar a 10 de novembro. Espanha continua com um governo de gestão chefiado por Pedro Sánchez do PSOE.
O Estado espanhol emitiu 1152 milhões de euros em obrigações a 10 anos tendo pago 0,253%, uma taxa superior à do leilão anterior (em que pagou 0,132%) e muito acima da yield no mercado secundário para as obrigações portuguesas naquele prazo, que estava em 0,186% no dia do leilão em Madrid. No entanto, a taxa paga por Espanha é inferior à paga pelo Tesouro português no último leilão de obrigações a 10 anos, onde pagou 0,264%.
No prazo a cinco anos, o Tesouro espanhol colocou 780 milhões de euros a uma taxa negativa de -0,221% contra -0,316% no leilão anterior (o que significa que os investidores “pagaram” agora menos para adquirir os títulos do que na operação anterior) e face a -0,241% para as yields das obrigações portuguesas no mercado secundário (o que significa que os investidores estão a “pagar” para ficar com os títulos portugueses do que com os espanhóis).
No entanto, esta melhoria da posição portuguesa face à espanhola, que se traduz também no facto do prémio de risco de a dívida portuguesa ser agora inferior ao do vizinho (57,7 contra 62,5 pontos-base), tem de ser analisada com cautela. Os prazos espanhóis para as mesmas referências a 5 e 10 anos são mais longos (em alguns meses) do que os das obrigações portuguesas.
Além disso, em termos de stock da dívida e das emissões realizadas este ano, o custo de financiamento espanhol continua a ser mais baixo do que o português (ver tabela).
A Reserva Federal dos Estados Unidos (Fed) iniciou esta semana um programa de compra mensal de 60 mil milhões de dólares em títulos do Tesouro de curto prazo, que poderá estender-se por seis meses. Jerome Powell, o presidente do banco, garante que não é mais um QE, mas há quem diga que é o quarto programa de compra de aquisições só que disfarçado