Antes pelo contrário
Daniel Oliveira
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Antes pelo contrário
Daniel Oliveira
PAN: um olho no cavalo, o outro no cigano
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Poderíamos escrever um tratado sobre o oportunismo e a falta de clareza política, só concentrados na triste intervenção de Carlos César nas jornadas parlamentares do PS. Deixo isso para o Expresso de sábado. Por agora, fico-me por exemplos mais pequenos. É interessante olhar para o que aconteceu a dois pequenos partidos durante esta semana. Os dois acontecimentos foram nas redes sociais e têm um alcance limitado. Mas tratando-se do PAN e da Iniciativa Liberal, o que se passa nas redes tem relevância. E os acontecimentos em si são muitíssimo reveladores.
Comecemos pelo PAN. Uma deputada municipal do partido animalista apresentou uma proposta de resolução à Assembleia Municipal da Moita em que, na defesa de cavalos subnutridos usados por ciganos, se dizia que existe “uma etnia que se multiplicou e que todos os dias se passeiam pela Moita e arredores, empilhados em cima de carroças”. Não venham dizer que são só palavras. Este é o mesmo partido que ainda há uns meses partilhava da ideia de aplicar a linguagem “politicamente correta” para falar de animais “não humanos”. Ao escrever que os ciganos “se multiplicam” e “se empilham” referia-se aos ciganos como nunca se referiria a animais.
Perante a pressão pública, o PAN retirou a confiança política à sua deputada. Fez bem. Só que a novela não acabou aqui. O que veio depois é que é revelador: centenas de eleitores seus mostraram a sua indignação perante este recuo, mostrando solidariedade com a linguagem usada pela deputada e reforçando-a com termos ainda mais violentos. De tal forma que o gestor da página se viu obrigado a deixar este aviso: “Qualquer comentário xenófobo, racista ou de algum modo discriminatório será removido desta ou de outras publicações”. E foram apagadas dezenas e dezenas de comentários, bem piores do que lá podem encontrar.
Não é a primeira vez que isto acontece com o PAN. Já quando ficámos a conhecer o IRA, um grupo de ação direta e ilegal com proximidades comprovadas a assessores e membros do partido, ficou claro o discurso xenófobo e agressivo que domina uma parte da base de apoio do partido. Na altura ninguém ligou, agora continua tudo sem ligar. Porque a ideologia do PAN é a ecologia, descobriram eles na sua última campanha.
A localização ideológica é um contrato não escrito com os eleitores. Impede equívocos. E o PAN é o mais equívoco dos partidos. Ao ponto de haver quem o ache parecido com o Bloco e haver quem ache que é normal que tenha um discurso xenófobo contra os ciganos
Outro partido mais pequeno, a Iniciativa Liberal, viveu um momento semelhante, mais uma vez nas redes sociais, confrontando-se também com a fúria de parte dos seus eleitores. Perante o apoio público à marcha do orgulho gay, tiveram de lidar com a estupefação e indignação de muitos apoiantes. Daqueles que defendem, como a esmagadora maioria dos supostos liberais, que o Estado não se deve meter na economia mas deve meter-se na vida das pessoas. Que a liberdade acaba onde acaba o dinheiro. Mas, sendo justo, além da coisa ter tido muito menor dimensão e as reações terem sido mais plurais, o equívoco ideológico é mesmo dos eleitores. Ou melhor: a pureza ideológica da Iniciativa Liberal chocou com a ausência de um caldo cultural onde alicerçar a sua ação política.
Curiosamente, estas duas vítimas de bullying dos seus próprios eleitores e militantes são as duas forças que têm feito um discurso público que recusa o carimbo de esquerda e de direita. Que, na vontade de conquistarem eleitores em todos os espaços políticos, alimentaram a indefinição absoluta da sua identidade. E pagam o preço disso. A ideia de que os partidos não são nem de esquerda nem de direita é muito oportuna para ganhar votos. Mas só pode alimentar equívocos. Porque a localização ideológica, sendo grosseira e meramente indicativa, é um contrato não escrito com os eleitores. Eles ficam a saber, em termos genéricos, o que podem esperar dali. Impede equívocos. E o PAN é o mais equívoco dos partidos. Ao ponto de haver quem o ache parecido com o Bloco e haver quem ache que é normal que tenha um discurso xenófobo contra os ciganos. Só pode acabar mal. É por isso que a nova moda de se dizer que não se é de lado nenhum acabará por atirar estes partidos para lado nenhum. Descobrem tarde demais que estão a falar para os eleitores errados. Ou então são os eleitores que descobrem que estão a votar nos partidos errados.