Henrique Raposo

A tempo e a desmodo

Henrique Raposo

Cristiano Ronaldo: Cavaco Silva em chuteiras

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Faz-me impressão ver tanta discussão em torno do nome de um aeroporto, algo tão interessante como um bingo às quatro da tarde. Porque é que é preciso ter uma opinião sobre o nome de um aeroporto? Este desconforto é depois reforçado pelo desprezo que Ronaldo continua a provocar em muitos dos seus compatriotas. Faz lembrar o desdém que foi sempre jogado à cara de Cavaco; Ronaldo é Cavaco em chuteiras. São assim os portugueses, pobres mas snobes. E estes pobres mas snobes ainda não compreenderam uma coisa: Cristiano Ronaldo é uma lenda da cultura popular do mundo inteiro. Há várias coisas que impressionam na China, uma delas é a presença omnipresente de Ronaldo. Ele está por todo o lado em dezenas de campanhas publicitárias. Do outro lado do mundo, num país com mais de mil milhões de pessoas, Ronaldo é idolatrado como um deus grego ou como um gladiador moderno. Como é que a sua pequena ilha de 250 mil habitantes poderia ficar à margem desta idolatria? É evidente que a ilha da Madeira só podia ter um orgulho desmesurado pelo seu filho predileto. É assim tão difícil respeitar este sentimento?

Ronaldo está onde está devido à sua ética de trabalho quase calvinista. Talvez seja esta a causa de tanta irritação junto dos portugueses: Ronaldo superou-se, não confiou no talentozinho português, no jeitinho

Recorde-se que o alvo deste orgulho madeirense é um homem que é um exemplo de trabalho. Ronaldo está onde está devido à sua ética de trabalho quase calvinista. Talvez seja esta a causa de tanta irritação junto dos portugueses: Ronaldo superou-se, não confiou no talentozinho português, no jeitinho, superou essa mania portuguesa que é achar que o improviso basta; trabalhou, mecanizou processos, tornou-se vertical e mortífero, deixou de ser um brinca na areia tropical e passou a ser um dos maiores jogadores de futebol de sempre, superando Eusébio por larga distância.

Num nível de contestação mais sofisticado, há quem diga que os nomes destas grandes infraestruturas deviam ficar no redil da alta cultura. De facto, eu até gostava de ter um aeroporto chamado Camilo Castelo Branco, Alexandre O’Neill ou Paula Rego, que, para aprimorar a sofisticação, teria ao lado um aeródromo de apoio chamado Fernando Lopes ou Rentes de Carvalho. Mas sucede que a cultura popular também tem o seu papel. E, se aceitamos a validade da cultura popular, a começar no futebol, então não podemos ficar ofendidos quando uma figura popular é eternizada desta forma.