NEGOCIAÇÕES
Coligação de esquerdas ou governo minoritário do PS?
ARRANJOS PS com PCP e BE, ou PS sozinho no Governo com apoio do PCP e do BE? FOTOS JOSÉ CARIA E ALBERTO FRIAS
Como será um futuro governo das esquerdas: minoritário do PS ou uma coligação a três, eventualmente a dois? As opiniões dividem-se, incluindo na direção do PS
TEXTO LUÍSA MEIRELES
PS, Bloco de Esquerda e PCP ainda não entraram na fase das negociações em que terão de decidir como será um futuro governo das esquerdas: se um governo minoritário do PS com acordo de incidência parlamentar dos outros dois partidos, ou uma coligação a três (ou a dois). Há opiniões para as três hipóteses e, ao que apurou o Expresso junto dos três partidos, não se pode mesmo, nesta altura, excluir nenhuma.
Porquê? Porque simplesmente “a questão ainda não foi oficialmente colocada em cima da mesa” e, por isso, ninguém quer dar palpites e “causar ruído”, segundo disseram quase em uníssono ao Expresso elementos dos três partidos. O tema é suficientemente delicado. Entre aqueles que estão ligados às negociações, nem pensar em falar abertamente. Quanto aos outros, também não. Só mesmo Ana Gomes, eurodeputada do PS, ousou dizer o que pensa. E para ela, aquilo que prefere é simples: “os três partidos no Governo”.
“Seria a melhor solução”, afirmou ao Expresso, embora admita que possa não ser possível. Admite até que possa ser feito só com o PS e com independentes do Bloco de Esquerda e do PCP e, “em última análise”, só com o PS. “Mas essa seria a hipótese mais vulnerável e pior para o PS e para o país”, diz.
Para a eurodeputada, porém, o que é “absolutamente fundamental” é que “os termos do acordo sejam claríssimos, específicos e tornados públicos”. Para ela, o timing não é importante, “desde que seja tudo revelado”.
PS: melhor a três
Curiosamente, a opinião de Ana Gomes não anda distante da de outros socialistas, que consideram, tal como ela, que estando os três partidos representados no Governo, o nível de compromisso seria muito maior. “Estando dentro, há um maior grau de vinculação e daria maior solidez ao compromisso”, admitiu ao Expresso uma fonte socialista, com um outro nível de responsabilidade dentro do partido.
O raciocínio é simples: tudo depende do nível de compromisso com que as três forças, e em particular o BE e o PCP, pretendem empenhar-se. Ao que sabe, até agora, tem sido suficientemente grande para ter ultrapassado vários obstáculos. Mas, como é óbvio, mesmo comprometendo-se para quatro anos, ficando de fora do Governo, Bloco ou PC ficam mais livres para, em cada orçamento, exigirem a concretização das suas próprias medidas.
Se, para alguns socialistas, a solução mais estável é um Governo a três, também há a consciência de que tal solução incomoda muita gente, dentro e fora do partido. Do ponto de vista do PS, parece claro que um governo a três é mais forte, mais seguro e mais duradouro, porque a partilha de responsabilidades é muito maior. “Há uma maior corresponsabilização”, dizia um deputado, que considera mesmo essa sensibilidade maioritária e não vê essa hipótese como impossível. “Acordo haverá de uma forma ou de outra”, afirma, o que exigirá um grande trabalho de coordenação política no Parlamento entre os três partidos.
Para já, o que se sabe, é que a base de trabalho do ponto de vista programático tem sido o programa do PS – daí a necessidade das condições do Bloco e do PCP terem de ser sujeitas ao crivo orçamental das contas que o PS apresentou.
Assim sendo, para uma fonte do BE contactada pelo Expresso, “seria natural que fosse um Governo só do PS”, mas também não exclui qualquer outra possibilidade. E repete: “o cenário ainda não foi colocado, nada foi conversado, logo se verá”. Para os bloquistas, porém, parece fora de causa que, por exemplo, o BE pudesse integrar o Governo e o PCP não. Ou estariam os dois, numa coligação a três, ou apenas um, o PS, com o apoio dos outros dois.
Comunistas disponíveis, mas...
FOTO MARCOS BORGA
Quanto aos comunistas, sabe-se qual é aposição oficial. Ainda antes da campanha eleitoral, Jerónimo de Sousa anunciou que o seu partido estava disposto a assumir todas as responsabilidades, incluindo as governativas. Disse-o em dezembro do ano passado, que o PCP “assumirá todas as responsabilidades, designadamente governativas, que o povo português entenda atribuir [ao partido] na luta e no voto”.
Repetiu-o em agosto, num comício perto de Coimbra, dizendo que “a CDU está disponível para integrar um futuro Governo – se o povo português quiser, estamos em condições de assumir responsabilidades, incluindo governativas, para defender os interesses dos trabalhadores e do povo”.
Agora, depois das eleições e do encontro de alto nível com o PS, por várias vezes disse que, pelo PC, o “o PS só não seria Governo se não quisesse” e que “há uma maioria de deputados para a formação de um governo de iniciativa do PS”. Em tese, seria mais fácil para o PCP manter-se de fora do Governo, garantindo a sua “autonomia estratégica”, embora segundo uma fonte comunista, esta posição de modo nenhum comprometeria um acordo para a legislatura.
No fundo trata-se da calendarização das medidas, ou seja, do que cada partido quer e quando o quer. Aparentemente, é essa calendarização das medidas que está também em discussão nas negociações e que pode ser a chave da solução.
Que exigirá Cavaco Silva?
Até porque entre uma coisa e outra pode haver um Governo do PS alargado a independentes ligados aos outros dois partidos: “há várias formas de dar a maior força possível e que suscite menos resistência”, tendo em vista a eventual reação do Presidente, dizia um bloquista.
De facto, há que ter ainda em conta o que poderá exigir Cavaco Silva – o que já assume outra dimensão, na medida em que o próprio Presidente não foi explícito no que poderia ou não admitir em termos de programa e menos ainda de elenco. Admitirá ou não comunistas no Governo? Se for esse o caso, “ter-se-á de explicar que essa é provavelmente a solução mais estável”, afirmou ao Expresso uma fonte socialista.
Mas, se há constitucionalistas que consideram que o PR não tem de imiscuir-se sobre o conteúdo programático dos governos, outros veem-na como uma prerrogativa do Chefe de Estado. E sobre o que todos estão de acordo é que o Presidente tem uma palavra fundamental sobre o elenco governamental.