PRESIDENTE
Primeiro discurso de Marcelo divide a esquerda
PARLAMENTO Passagem de testemunho. Em baixo pode ver duas fotogalerias, uma com a posse de Marcelo, outra da despedida de Cavaco Silva FOTO MARCOS BORGA
António Costa recebeu Marcelo com afeto - "é um discurso em que todos nos podemos reconhecer". Mas BE e PCP não se reviram nele. Para já, dão o benefício da dúvida. A insistência nos consensos deixa "a esquerda da esquerda" de pé atrás. Nesta página, em baixo, pode ver as fotogalerias do dia de Marcelo e da saída de Cavaco de Belém
TEXTO ÂNGELA SILVA
Até Carlos César, o líder parlamentar socialista que, ao contrário de António Costa, chegou a apoiar Sampaio da Nóvoa, recebeu o novo Presidente da República de braços abertos. "Este é um discurso que tivemos gosto em aplaudir", afirmou César depois de ouvir Marcelo Rebelo de Sousa discursar no Parlamento. António Costa foi mesmo mãos largas: "este é um discurso em que todos nos podemos reconhecer". Os factos não confirmam - BE e PCP receberam o sucessor de Cavaco Silva de pé atrás. Esperam para ver mas desconfiam muito da agenda dos consensos.
No fundo, a questão é esta: como é que um Presidente que vem "da esquerda da direita" pode entusiasmar partidos que vêm da esquerda da esquerda? Catarina Martins, líder do Bloco, viu no primeiro discurso presidencial "uma visão em boa medida conservadora do país". E Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, lamentou que, "tal como era expectável", o novo Presidente "não esteja na disposição de encetar qualquer processo de rutura".
Quando Marcelo Rebelo de Sousa jurou cumprir a Constituição e assinou a declaração de compromisso, a esquerda partiu-se: enquanto PSD, PS e CDS saudaram com aplausos de pé o novo Chefe de Estado, os deputados do Bloco de Esquerda, do Partido Comunista e de Os Verdes, nem sequer bateram palmas. Subitamente, o PS o velho "arco da governação" fazia prova de vida.
O PRIMEIRO DIA DE MARCELO
FOTOS JOSÉ CARIA, TIAGO MIRANDA, MARCOS BORGA, LUÍS BARRA, MARCOS BORGA, JOÃO LIMA, ANA BAIÃO
"Unir hemisférios políticos"?
E o que crispa as esquerdas, se Marcelo fez um discurso marcadamente social e abrangente, ao ponto de até Jerónimo de Sousa reconhecer que o PR "fez um esforço para ir ao encontro das preocupações da maioria dos portugueses com a sua vida e direitos"? O que deixa os aliados de António Costa de pé atrás é, entre outras coisas, a urgência colocada por Marcelo nos consensos. E na união "entre os hemisférios políticos".
Sem dizer nada de novo, o Presidente da República vincou o apelo para que se "cicatrizem feridas" (isto é para o PS e o PSD). E sinalizou ao que vem: "Esperam-nos cinco anos de busca de unidade, de pacificação, de reforçada coesão nacional". Marcelo falou mesmo em "divisão entre hemisférios políticos". Recuperar a cultura dos pactos de regime foi uma das suas bandeiras na campanha eleitoral. A esquerda da esquerda desconfia disto.
Catarina Martins diz, no entanto, que esperam para ver. "O mais relevante são os dias que se seguem" Ou seja, não chega a haver uma demarcação frontal com o novo Presidente, que teve, aliás, o cuidado de se mostrar aberto a uma normalíssima relação com qualquer maioria parlamentar. "Saúdo a representação legítima e plural da vontade popular expressa na Assembleia da República", afirmou, garantindo uma "solidariedade institucional indefetível" com o Parlamento.
EXCLUSIVO: O ADEUS DE CAVACO A BELÉM
DEZ ANOS DEPOIS Cumpridos dois mandatos na Presidência da República, Cavaco Silva despediu-se hoje do Palácio de Belém. Nestas 11 fotos retratamos os últimos momentos de Cavaco no Palácio e, finalmente, a chegada a sua casa, em Campo de Ourique. FOTOS LUÍS FILIPE CATARINO
Contra "a mão invisível" mas sem "excessos dirigistas"
A preocupação com os mais desfavorecidos foi transversal no discurso do Presidente (o secretário-geral do PCP reconheceu-o), mas as suas respostas ficam num meio caminho em que nem toda a esquerda se reconhece.
Porquê? Porque Marcelo tenta o equilíbrio entre um discurso avesso ao liberalismo puro e duro - "o Estado não pode demitir-se do seu papel corretor de injustiças, em particular para aqueles que a mão invisível apagou ou marginalizou" -, e ao mesmo tempo avesso aos excessos de dirigismo estatal. "O poder político não deve impedir, nos seus excessos dirigistas, o dinamismo e o pluralismo de uma sociedade civil".
A fidelidade cumpridora aos compromissos europeus do país não ajuda à festa. "Temos de ser fiéis aos compromissos a que soberanamente nos vinculámos", lê-se no discurso presidencial, que apenas admite haver "sinais de apelo a reflexões de substância, de forma e de espírito solidário". É pouco para a esquerda da esquerda. Que além do mais terá gostado pouco de ouvir Marcelo dizer que a Constituição, que jurou cumprir, "como toda a obra humana, não é intocável".
Amanhã, Marcelo Rebelo de Sousa tem um primeiro encontro em Belém com o primeiro-ministro. E em pano de fundo surge a frase de Pedro Passos Coelho no Parlamento, onde acompanhou a tomada de posse do novo Presidente da República: "Não vai ser fácil". Para o PSD (pelo menos de Passos) o apelo de Marcelo aos consensos é quase tão incómodo quanto para a esquerda das esquerdas. Aparentemente, o mais confortável com este esforço presidencial para fazer pontes é mesmo António Costa.