O poder que faz gritar golos e silenciar negócios

FOOTBALL LEAKS | ANÁLISE

Livrai-nos do medo: o poder do futebol sobre a sociedade (e o nosso sobre ele)

É um poder que faz gritar golos e silenciar negócios. Que nos põe jogadores à frente sem mostrar os agentes por trás. Que nos move, comove, apaixona pelas maravilhas em campo mas oculta segredos fora dele. Que enche horas de televisão com os mesmos comentadores que discutem uma jogada em falta e ficam em silêncio sobre impostos em falta. Estarão eles capturados? Porquê? E por quê? Pelo medo? Medo de Jorge Mendes? Medo de si mesmos?

TEXTO PEDRO SANTOS GUERREIRO

A investigação do Expresso à ocultação de dinheiro do futebol em offshores não serve para destruir ídolos nem desconstruir campeões. Serve para denunciar esquemas centrados em agentes e empresários que fazem e desfazem o mundo do futebol. E se vociferamos contra um banqueiro que não entrega uma declaração de rendimentos, também perguntamos porque estrelas mundiais não declaram os seus. Desembainhe o espírito crítico e venha daí. Isto é connosco.

A investigação internacional de meses de 12 jornais europeus, que a estão a publicar desde sábado, tem causas e já tem consequências. O governo espanhol confirmou investigações fiscais em curso. Um tribunal espanhol proibiu um jornal de publicar e pediu a tribunais dos demais países que impeçam a publicação de notícias. Os jornais estão a ser ameaçados de processos. O Fisco espanhol abriu novas investigações a jogadores. São consequências complexas. Falta uma consequência simples: que o assunto seja falado também em Portugal. Quase todos os comentadores desportivos estão calados. Vergonha deles? Vergonha por eles.

Quem não está calado, explica porquê. Miguel Sousa Tavares não está, disse que nem quer acreditar que seja verdade que há jogadores com rendimentos milionários que estão a ocultar dinheiro ao fisco, por todas as razões incluindo o exemplo que os ídolos têm de dar aos que os idolatram.

Rui Santos não está e, criticando o papel dos agentes, enunciou como o poder de Jorge Mendes existe nos clubes de futebol em Portugal (sobretudo no Benfica e no FC Porto), como esse poder os condiciona - e como esse poder pelos vistos se aplica a quem no espaço público tem medo de o pôr em causa. E se cala.

Há um padrão nos comportamentos até agora denunciados: dinheiros pagos por patrocinadores a jogadores de futebol foram desviados para empresas offshores nas Ilhas Virgens Britânicas, no Panamá ou na Oceânia e ocultados ao Fisco; quase todos os casos passaram por Espanha, designadamente pelo Real Madrid; e muitos desses casos são de jogadores de Jorge Mendes, que reteve a sua comissão na Irlanda e repassou o restante dinheiro para paraísos fiscais com o auxílio de prestimosos advogados. O Fisco espanhol inspecionou e abriu investigações, vários jogadores decidiram pagar à cabeça para não terem sarilhos, outros não. Ou ainda não.

Há muitos portugueses em jogo por uma razão simples: somos muito bons. A nossa seleção é campeão da Europa, temos o melhor jogador do mundo que na próxima semana há de receber a quarta Bola de Ouro, temos um dos melhores treinadores do mundo, temos um dos maiores agentes de futebol do mundo. É muito talento português. É muito trabalho de portugueses. É muito dinheiro para portugueses. Offshore.

FOTO RUI DUARTE SILVA

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Isto é connosco porque este é um assunto da sociedade, como são todos os assuntos relacionados com impostos, porque a justiça social não se faz apenas pela forma como se distribui o dinheiro dos impostos, mas também na forma como eles são coletados. Justiça social é também quem ganha muito pagar muito – pagar muito às sociedades em que vivem e não às sociedades de advogados de bons engenheiros jurídicos de empresas fantasma.

Ouvimos já desmentidos que não desmentem, vemos documentos que mudam de assunto e lemos teorias de conspiração para focar a descredibilização da investigação e desfocar as mentes coletivas do que é investigado. É sempre assim. Mas a investigação jornalística avança e, desta vez, também a investigação fiscal. Vale a pena pensar no contraste: nos Panama Papers, o Expresso revelou, um a um, 70 nomes portugueses com rendimentos ou património ocultado em offshores. Apesar disso, não há notícia de nenhuma investigação fiscal em Portugal. O fisco espanhol age diferente. Como se vê.

FOTO GETTY

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Leia os casos de Ronaldo (investigado por não declarar mais de 60 de 150 milhões nas Ilhas Virgens), de Pepe e Coentrão (que ocultaram mais de sete milhões), de Ricardo Carvalho (que alterou um contrato 11 anos depois, quando se viu investigado), de Mourinho (que pagou tudo depois de ser inspecionado), de Özil (que pagou €3 milhões de multa), compare com casos anteriores de Messi, Mascherano, Xabi Alonso ou Neymar, veja os precedentes de Laudrup (que pôs o seu empresário a ganhar milhões), de Bergkamp (com quem tudo começou), de Hazard (que disse não à Doyen), leia as cláusulas caricatas de Rafael van der Vaart, Agger e Balotelli. Lendo poderá formar a sua própria opinião sobre as condutas destes jogadores mas sobretudo dos seus agentes e do papel que estes têm no futebol moderno.

E leia o Expresso, o Der Spiegel (Alemanha), o L'Espresso (Itália), o The Sunday Times (Reino Unido), o Mediapart (França), o Le Soir (Bélgica), o Politiken (Dinamarca), o NRC Handelsblad (Países Baixos), o Falter (Áustria), o Newsweek (Sérvia) e o RCIJ/The Black Sea (Roménia). Aos incríveis jogadores que fazem proezas que nenhum de nós faz, e que por isso ganham como nenhum de nós ganha, devemos como sociedade exigir o mesmo que todos nós fazemos: cumprir nas declarações fiscais. E desejar que o sistema em que estão se livre daqueles que os representam da maneira errada e prejudicando todos. O poder do futebol sobre a sociedade é enorme. Mas o poder de uma sociedade, se exigente e mobilizada, é maior.

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FOOTBALL LEAKS | ATUALIDADE

Justiça espanhola acusa Ricardo Carvalho e abre investigação a Coentrão

FOTO GETTY

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Ministério Público de Madrid informou esta quarta-feira que acusou formalmente três jogadores de evasão fiscal e que abriu investigações a outros dois, com base nos dados da investigação Football Leaks

TEXTO JOANA AZEVEDO VIANA

O organismo correspondente ao Ministério Público de Madrid confirmou, num comunicado enviado à imprensa espanhola esta quarta-feira, que acusou formalmente três jogadores de futebol — Xabi Alonso, Ángel Di María e o português Ricardo Carvalho — e que vai abrir inquéritos a outros dois — Fábio Coentrão e o colombiano Falcao — no âmbito das denúncias feitas pelo consórcio European Investigative Collaborations (CEI, na sigla portuguesa), do qual o Expresso é parceiro, na investigação Football Leaks.

No documento, o organismo da Justiça madrilena diz que, com base nos dados que lhe foram remetidos pela Agência Tributária, decidiu formalizar acusações contra os três futebolistas, dois deles, Ricardo Carvalho e Di María, citados nos documentos fornecidos ao CEI pela revista "Der Spiegel". No mesmo comunicado, sublinha que mantém abertas as investigações ao colombiano Falcao, ex-avançado do FC Porto, e a Coentrão, internacional português e atual defesa esquerdo do Real Madrid.

Quatro destes sete jogadores são representados por Jorge Mendes, o empresário português dono da Gestifute, que gere as carreiras destas e de outras estrelas de futebol, incluindo Cristiano Ronaldo e o treinador José Mourinho, igualmente citados em vários documentos dos 1900 gigabytes de informação analisados nos últimos sete meses por uma equipa de 60 jornalistas dos 12 meios de comunicação do CEI.

FOTO REUTERS

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Segundo a agência espanhol EFE, a administração fiscal espanhola ainda não remeteu qualquer informação sobre Cristiano Ronaldo à justiça madrilena. Isto depois de, no sábado, ter confirmado que as informações avançadas pelo Expresso na sua edição de fim-de-semana correspondem "exatamente" aos dados que tem em sua posse sobre as contribuições tributárias do futebolista. Este e outros parceiros do CEI revelaram nos últimos dias que Ronaldo terá recorrido a empresas fictícias com sede nas Ilhas Virgens britânicas para ocultar receitas de publicidade de 150 milhões de euros. Segundo a revista alemã "Der Spiegel", alguns colaboradores próximos do avançado português revelaram-se preocupados com a possibilidade de detalhes da sociedade caribenha chegarem ao conhecimento das autoridades.

Na quinta-feira, a Gestifute garantiu que tanto Ronaldo como Mourinho têm as suas obrigações fiscais em dia, tanto em Espanha como, no caso de Mourinho, no Reino Unido, onde atualmente treina o Manchester United.

O "El Mundo" avança que, no mesmo comunicado hoje emitido, a Fiscalía Regional madrilena diz-se favorável à medida cautelar interposta pelo juiz de instrução Arturo Zamarriego, para impedir a publicação das informações do Football Leaks nesse jornal e nos restantes 11 órgãos de comunicação social envolvidos nesta investigação.

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