CANCRO

Quis ser médica porque tive um cancro aos quatro anos

EXEMPLO Ana Luísa sobreviveu a um cancro quando tinha quatro anos. Decidiu ser médica para ajudar outras crianças na mesma situação. FOTO PEDRO MONTEIRO PALMA

EXEMPLO Ana Luísa sobreviveu a um cancro quando tinha quatro anos. Decidiu ser médica para ajudar outras crianças na mesma situação. FOTO PEDRO MONTEIRO PALMA

Com quatro anos, Ana Luísa teve cancro e viveu, intermitentemente, durante quatro meses no IPO de Lisboa. Foi entre o cheiro das enfermarias, o som das máquinas e o bloco operatório que decidiu que iria ser médica. Aos 24 anos, é interna de pediatria na Suíça e quer especializar-se em hemato-oncologia. “É a prova de que até os peixes podem aprender a voar”, escreve neste testemunho para o Expresso, que publicamos para marcar o Dia Mundial da Luta Contra o Cancro, assinalado este sábado

TEXTO ANA LUÍSA PEREIRA, DEPOIMENTO RECOLHIDO POR NELSON MARQUES

Chamo-me Ana Luísa, tenho 24 anos, sou médica há escassos seis meses e Interna de Pediatria há três. Há 20 anos tive um Linfoma Não-Hodgkin que me levou a viver durante 4 meses, de forma intermitente, no serviço de Pediatria do IPO-Lisboa. Foi também há 20 anos que decidi que queria ser médica, uma decisão que tomei com uma lucidez que se dizia não ser própria para a idade. Afinal, também não era próprio gostar de hospitais, de médicos, do cheirinho das enfermarias. Gostar dos sons das máquinas múltiplas que viviam comigo dia e noite, da sensação de adormecer tranquilamente apenas de inspirar um gás qualquer no Bloco Operatório, e de acordar rodeada de brinquedos e pessoas simpáticas – mesmo que sem cabelo.

E o caminho foi-se fazendo, tranquilamente, até entrar na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa em setembro de 2010. De 1996 a 2016, muitas coisas se foram alterando na minha vida, a mais importante e significativa, contudo, foi libertar-me do fardo de ser doente e entrar diretamente na especialidade que ambicionava: Pediatria. Ironias do destino ou a prova de que até os peixes podem aprender a voar.

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Não me faz sofrer ver o sofrimento de todos estes que vivem o que eu já vivi – dá-me vontade de ir mais longe

Não estou em Portugal, mas sim na Suíça. Espera-me um longo caminho até concluir este projeto, principalmente porque, por razões mais ou menos óbvias, há muito tempo defini a que área, dentro da Pediatria, me vou dedicar: a Hemato-oncologia. Este foi um dos motivos que me levou a sair. Em primeiro lugar, não quis hipotecar a minha motivação e sujeitar-me a uma prova de seriação nacional obsoleta e completamente desadequada que podia, ou não, permitir que tivesse uma vaga na especialidade que queria; em segundo, a partir da Suíça, consigo imaginar uma carreira que vai muito além deste lugar: investigação, colaborações internacionais, enfim, as oportunidades são muitas. O objetivo, para já, é aprender e aproveitar o máximo que puder para, daqui a não sei bem quanto tempo, voltar ao meu país. Se volto, ou não, são contas de outro rosário. Prefiro ser prudente: logo se vê.

MEMÓRIAS Ana Luísa (em baixo, ao centro) quando tinha quatro anos, no Bom Jesus, em Braga. FOTO CORTESIA ANA LUÍSA PEREIRA

MEMÓRIAS Ana Luísa (em baixo, ao centro) quando tinha quatro anos, no Bom Jesus, em Braga. FOTO CORTESIA ANA LUÍSA PEREIRA

Invariavelmente, enquanto médica (com uma curtíssima experiência) olho para os doentes sem ousar pensar “isto só acontece aos outros”. Há uma consciência da finitude da vida que penso ser tangente a todos os médicos e enfermeiros – a todos os que, enfim, se deparam com tantas situações em que o humano não é mais do que um corpo frágil e sacudido por sabemos lá nós que desgraças sem explicação. A vida é um mistério e fascina-me; a doença é um desafio e eu vivo-a de dentro. Com o tempo, contudo, aprendi a ir-me colocando numa posição mais segura para as minhas emoções; não sou um ser que subitamente se tornou insensível, mas passei a conseguir racionalizar a doença e os doentes, a viver a uma certa distância de segurança. Se não for assim, ninguém aguenta, muito menos eu ou quem, como eu, tem uma memória tão profunda e antiga destas vivências na primeira pessoa.

Várias vezes me confrontaram – “os outros” – com a questão da tristeza que é um serviço de Oncologia Pediátrica. Então, e tu achas que aguentas? Não achas que pode ser demasiado? Meus amigos, são os doentes que compreendo melhor, são os pais daquelas crianças que eu reconheço e com quem melhor crio uma relação de empatia. Foram eles que eu aprendi a conhecer durante os quatro anos em que fui voluntária pela Liga Portuguesa contra o Cancro, tão importante neste processo de auto e hetero-conhecimento, de descoberta dos meus limites.

“Demasiado”, para mim, é esperar que o dia de amanhã seja melhor que o de ontem. E não, não me faz sofrer ver o sofrimento de todos estes que vivem o que eu já vivi – dá-me vontade de ir mais longe. Talvez seja por isso que parti, sem saber ainda muito bem aonde vou chegar...