A tempo e a desmodo
Henrique Raposo
O relativismo de Clinton criou o pós-verdade de Trump
You can run, but you can't hide Foto Reuters
A defesa que as feministas montaram em redor de Bill Clinton foi sempre uma aberração sectária. Agora, no contexto do MeToo, o silêncio selec«tivo é ainda mais aberrante. Os apalpões de Bush pai tiveram mais atenções do que as efetivas violações e abusos de Clinton. Será que podemos ser um pouco mais honestos? Bill Clinton foi o Weinstein da política. Nem sequer estou a falar de Monica Lewinsky, mas das mulheres que acusaram Clinton de violação e assédio em tribunal. Quando falou na queda dos homens poderosos, estava Oprah a pensar no amigo Bill?
Bill Clinton enquanto ícone cool, enquanto general 'liberal' que destrói a muralha alegadamente reacionária da moral, implica a humilhação da mulher enganada (Hillary), o escárnio lançado sobre a estagiária (Lewinsky) e o esquecimento das mulheres abusadas ou violadas (Juanita Broaddrick, Paula Jones, Kathleen Willey)
Bill Clinton representa uma época que consumou de vez a boçalidade e hipersexualização dos anos 60 e 70. Neste sentido, o pior do caso Clinton não é ele próprio mas sim quem o desculpou ou romantizou como grande libertador dos costumes. Repare-se: um homem que humilha a mulher enquanto viola outras e enquanto abusa de uma estagiária foi idolatrado como grande libertador dos costumes. Como é que vamos explicar isto às nossas filhas e netas? Bill Clinton enquanto ícone cool, enquanto general 'liberal' que destrói a muralha alegadamente reacionária da moral, implica a humilhação perpétua da mulher enganada (Hillary), o escárnio lançado sobre a estagiária (Lewinsky) e o esquecimento das mulheres abusadas ou violadas (Juanita Broaddrick, Paula Jones, Kathleen Willey). Portanto, quem tolerou a humilhação de Hillary e Monica em nome de uma moral alegadamente livre e progressista tem agora permissão para criticar Trump e os Weinstein? Tem, se antes fizer mea culpa. A boçalidade de Trump (grab her by the pussy) é filha do ambiente criado por Bill Clinton e por todos aqueles e aquelas que o defenderam.
Como diz Jenny Hendrix no TLS, Clinton mentiu sobre o caso Gennifer Flowers (na primeira aparição no 60 Minutos, 1992) e sobre o caso Lewinsky, mas a sua grande mentira é ainda mais profunda: a sua relação fluida e escorregadia com a verdade (“it depends on what the definition of 'is' is”) ajudou a montou o cenário desta sociedade relativista e pós-factos que elegeu Trump.